A ABELHA DO MEU OUVIDO
Na minha cidade, Porto
Alegre, capital do Rio Grande do Sul, está passando na
televisão, uma série de propagandas geniais que visam
sensibilizar a população frente a responsabilidade do voto.
Particularmente me identifiquei com a da abelha no ouvido .
Ela inicia com a história de um operário que tem uma abelha
no ouvido e , um alerta de que a mesma pode permanecer ali,
por pelo menos , quatro anos. A princípio ele se desespera
com a impertinente presença, busca de várias maneiras,
inclusive bizarras, livrar-se. Enfia a cabeça dentro de um
balde com água, pula, sacode para todos os lados e nada.
Exausto, conforma-se e, passa a alimentá-la com gotas de mel,
que são colocadas no próprio ouvido, residência do bichinho,
num gesto de desesperada rendição.
Fiquei encantada com a
analogia e criatividade do filme publicitário, atinge em cheio
a responsabilidade do eleitor e as conseqüências de um voto
dado de forma relapsa.Quantos de nós fazemos exatamente o
mesmo que a personagem, ao longo de nossas vidas. E se formos
pensar em evolução política, francamente, eu tenho um enxame
em cada ouvido me atormentando há muitos anos. Nem falo de
ideologia, já fiz minha parte quando jovem em passeatas pelas
ruas, escondida do meu pai e da polícia, que sempre nos
encontrava no meio do caminho . Como dizia a Mafalda, num
poster que eu tinha " cacetete é a borracha de apagar
ideologias..."
Praticamente desisti e
sou uma pessoa simples, de hábitos modestos, psicóloga,
sobrevivo da ilusão e da vontade em amenizar a dor da alma
humana. Atendo conforme a renda e o número de abelhas que o
sujeito carrega. Não é que me considere pouco competente, sou
o bastante para reconhecer que haja ego e Freud para se ousar
ser feliz, em um país com políticos e dirigentes como os
nossos.
Não conheço um único
Poder Executivo, Legislativo ou Judiciário em que a corrupção,
o nepotismo, e outros desvios típicos dos perversos, não corra
à galope. A cumplicidade entre eles é invejável, só perdem
para os traficantes e olhe lá .Observo apenas que alguns são
mais discretos, sofisticados nas falcatruas, tem um desvio
grave porém encoberto pela autoridade que vestem em togas de
seda, ternos e gravatas de grife, agem com sutileza e dominam
as armadilhas onde jamais caem , por vezes, derrapam.
Óbvio que eles tem
mel, que está na boca dos cofres em casa, ou lá fora e, os
ouvidos deles não tem zunido algum. Não lembro de ter
encontrado um único político andando de ônibus lotado, depois
de oito horas de trabalho e, um almoço com vale de R$ 1,50.
Nem em filme de ficção , pegadinha ou programa de humor, esta
coisa de quererem convencer de que levam uma vida normal é
irreal. Pode ser no horário político, lá todos apresentam suas
famílias perfeitas e adoráveis como as de propaganda de
margarina...
Fico impressionada com a
capacidade deles de ignorar os reais anseios da população. Até
quando, será possível sobreviver nesta miséria alegre ? Por
quanto tempo as esmolas eletrônicas manterão os ânimos calmos
? Fomos desarmados, mas ainda nos restam neurônios, pouco
especializados, mas são neurônios. Portanto, agoniza uma
esperança para este país de “abelhados” que desconhecem o
sabor do mel, que teimosa e corajosamente se mantém à sombra
dos enxames dependurados sobre a cabeça.
Além de psicóloga, sou
uma otimista incorrigível, voto sempre, não deixei de
comparecer a uma eleição em todas estas décadas já vividas,
coordenei campanha de candidato que eu confiei, perdemos, e
creio por ele ser honesto demais. Conheci muitos becos desta
cidade, desci e subi morro, almocei e jantei em barracos,
decorei vielas, compartilhei os desejos e sonhos de pessoas
que me comoveram profundamente, e me deram lições
inesquecíveis de força e perseverança. Escutei com o meu
coração cada uma das reivindicações e sugestões que anotei,
guardei-as em minha alma. E convicta afirmo, que orgulho sinto
do nosso povo que apesar dos zunidos, ainda luta e tem fé.
Fátima Pilla
Muller setembro / 2008