A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

                    A ECONOMIA DO AMOR

                     A filosofia popular diz que só conhecemos realmente a pessoa com quem casamos, quando nos separamos dela. Lamentavelmente, é uma grande verdade, que se comprova principalmente nos processos de separação tornados públicos. Em um movimento humano de defesa, em geral, saltamos dizendo que conosco, isso jamais aconteceria. Vivenciamos com grandes amigos , separações que nos surpreendem pelo jogo desleal entre as partes, até que a vida, de golpe, nos surpreende com a sofrida experiência própria da causa.

                 A mulher, normalmente fica com os filhos, usando-os como infalíveis armas de extorsão. Passam a freqüentar uma escola inadequada, cuja principal matéria do currículo, é a manipulação apoiada pela mentira. Vítima assumida e amparada por amigas irresponsáveis, faz crescer assustadoramente  um plano de vingança arrasador. O homem, obrigado por seu instinto paternal, quando sai com as crianças, assume o papel de papai Disney World agravando a situação dos filhos, não colocando limites, tudo vira brincadeira e diversão, escondendo provas de seu padrão privilegiado, endossando o jogo. Para o homem, que fica um reduzido tempo convivendo com os filhos, as conseqüências são menores e a possibilidade de sustentar as mentiras é favorecida. Muitos tornam-se verdadeiros artistas de novelas mexicanas, comportando-se num misto entre o dramático e o patético, não se poupam do ridículo.

                  Os filhos, embora sendo as únicas verdadeiras vítimas desta guerra, aparentemente lucram com as desavenças dos pais. Aproveitam toda e qualquer brecha para tirar um algo mais, uma festa que a mãe não deixa ir, um passeio que não estava no orçamento, a roupa fora de hora e valores negociados. Como se valores fossem negociáveis. Aqui reside o grande risco, quando os pais não conseguem entrar em um acordo como pais, esquecem que são apenas ex-marido e mulher, ex pais, não existe .

                   Um conflito cruel é detonado  na alma das crianças, ou jovens, o conflito da lealdade. Lealdade às mentiras de quem? Se questionam os filhos. Eles acreditam naquilo que enxergam no dia a dia, a mãe que argumenta não ter dinheiro para levá-los ao médico, mas compra roupas novas, o pai que afirma não ter condições de saírem de férias mas vai para o Caribe com a namorada nova. Esta conduta agressiva e incoerente dos pais, gera uma profunda confusão nos filhos, com graves consequências, inclusive a perda da autoridade. Porque, mais cedo ou mais tarde, eles vão refletir como um espelho, o que estão aprendendo aqui e agora.

                  No entanto, o que está por trás de toda esta guerra, é um único e não admitido aspecto : o amor. O amor que deixou de existir entre um homem e uma mulher e, por razões que o nosso narcisismo é capaz de compreender, passa a ser equivalente a bens e dinheiro. Estabelecemos mentalmente uma equação, o amor que perdemos será igual aos bens que obtivermos . Não podemos quantificar a nossa dor e mágoas, os sacrifícios realizados na base da cumplicidade, as expectativas frustradas. Nossos sonhos,  os projetos idealizados na vida a dois, cada investimento de ternura e afeto, e demonstrações de paixão ganham um valor material e se transformam em poderosas armas. Pode ser uma casa, um barco, carro, mesa, cinzeiro, quadro ou qualquer outro objeto, por vezes, bizarro. O valor de mercado não interessa, vale o valor afetivo ou o transtorno emocional que esta perda irá causar no outro.

              A intenção é o revide pelo prejuízo emocional, é o montante de libido que foi depositada em um fundo de ações agora percebido como  fraudulento, que não tem perspectivas de rentabilidade ou lucros e, que queremos insanamente ser indenizados, custe o que custar.

              Esta é a dolorosa e deprimente economia do amor, quando o amor termina...

Fátima Pilla Muller - 23 de junho de 2007

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 25/06/2007