A casa dos grandes pensadores
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

 

AFINAL, É BOM SERMOS MAUS ?

                  Há mais ou menos dois anos, recebi a primeira mensagem pela internet, publicada por um gaúcho em um jornal local, com o título "Mãe Má", contando parte de sua história como filho, seus sentimentos em relação às atitudes zelosas da mãe, que ele à época, percebia-as como más.Dando continuidade a  crônica, o autor fazia um comparativo com os dias e atitudes atuais dos pais, pontuando que os filhos percebem ainda mais maus por algumas atitudes firmes. Após esta crônica, tenho recebido outras semelhantes com certa frequência, que a meu ver, denunciam um forte movimento dos pais, como se estes desejassem se certificar de que, agora, encontram-se no caminho certo no que tange as rédeas da educação.Por outro lado, esperam o retorno de seus questionamentos, expressando que a insegurança e a dúvida, se fazem presentes na educação.

                 Nos anos 70, quando começou o movimento de liberdade à juventude, a disseminação da pílula anticoncepcional que preservava os riscos de uma gravidez indesejada, o acesso mais fácil às drogas,  maior ícone desta liberdade, a própria divulgação de princípios da psicologia, embora equivocados e distorcidos, estimulavam os pais a "não contrariar", não recriminar, jamais usar de firmeza ou restringir a criatividade dos filhos.Alguns devem lembrar quando as crianças riscavam as paredes e todos achavam uma gracinha. A escola inglesa de Summerhill foi o grande centro de aplicação e marketing desta educação liberal, lá os alunos demoliam as cadeiras da classe, quebravam os vidros, entre outros atos de vandalismo e não acontecia absolutamente nada com eles, para não tolhir o desenvolvimento e a criatividade, imaginem ! Os professores deviam ser ainda mais doidos para tolerar algo assim.

                 Encontrei pesquisas de algum tempo depois , sobre o que havia acontecido com estes alunos e em um período de 20 anos , em que eles foram acompanhados pós Summerhill, um e outro chegou até Harvard, porque eram de famílias ricas e tradicionais, mas nenhum único aluno, teve uma carreira profissional brilhante, nem se quer obteve algum destaque pessoal.Não se faz necessário comentar que a escola desapareceu, talvez os próprios alunos tenham se encarregado de dizimá-la, mas ela fez história e estragos. Outros alunos foram encontrados em situações emocionais  imaturas e problemáticas, seriamente dependentes de drogas, e dos cuidados de familiares, por não terem conseguido construir sua autonomia.

               Faço este retrospecto, porque fico perplexa ao constatar que há trinta anos nossa sociedade, em especial os pais, buscam tateando um caminho adequado para construírem parâmetros eficazes para a educação dos filhos.Nunca na nossa história observamos tamanha insegurança e ignorância em relação à educação, aos limites que devem ser firmemente colocados às crianças, desde muito pequenas sim. Os atos de vandalismo se espalharam por todos os locais, escolas,  onde se encontram jovens e crianças, e o mais grave, independente da classe social. A diferença é que o mais humilde vai para a Febem e o que tem melhores condições, para uma clínica psiquiátrica.

              Esta dúvida, ou ironia da expressão mães más, quando nos referimos aquelas que se preocupam, põem limites, controlam horários e amigos, levam e buscam nas festas, aplicam castigos, cobram as tarefas escolares, sugerem que os pais ainda tem dúvidas de que atitudes são realmente saudáveis para se aplicar aos filhos. É uma herança perversa daqueles anos desvairados onde liberdade passou a ser sinônimo loqueteio desenfreado. Isto é tão verdadeiro, que uma novela atual aborda o tema, mostrando as atitudes inadequadas de uma família de classe média alta, em relação aos atos de desenfreada deliquência do filho adolescente. A situação mostrada revela que é ainda uma realidade que desperta forte interesse e mobiliza inúmeras famílias.

             Confesso que me sinto triste, quase impotente, quando atendo famílias no consultório, cujos pais verbalizam abertamente o medo em contrariar o filho, principalmente quando  este se encontra envolvido com drogas.É doloroso perceber que a família perdeu a autoridade sagrada dos pais, e os papéis encontram-se invertidos. Com atitudes de extrema agressividade, desrespeito, arrogância , os filhos passam a comandar os pais intimidados e desorientados pela angústia e confusão de valores que deveriam nortear a educação.

            É preciso reconstruir toda uma identidade paternal, convencer os pais a resgatar esta autoridade destituída pela imaturidade. O primeiro passo é cancelar qualquer mesada, sem dinheiro comprar drogas ou bebidas se complica, colocar responsabilidades a serem rigorosamente cumpridas, desde a arrumação do quarto, ao cumprimento de horários combinados, e outras atividades . Cancelar presentes, roupas novas que servem como moeda, atividades que favoreçam atitudes imaturas ou de risco, como não dirigir por um tempo, viagens, ou frequentar lugares que são favoráveis a situações de encrencas.

           Todas estas novas ações da família, devem ser abertamente comunicadas ao jovem e jamais negociadas ! Eles precisam sentir que os pais estão retomando as rédeas, e por mais contraditório que possa parecer em um primeiro momento, eles logo se sentem aliviados em devolver uma tarefa que não lhes compete, que é a de comandar a família. Ouvi vários jovens cobrando duramente dos pais na terapia, "porque eles não tinham feito isto antes" ! Os pais ficam atônitos, só então eles começam a perceber a verdade que estava sufocada pela confusão de papéis e o medo em assumir uma atitude adulta que lhes é exigida.

          Na medida em que o jovem vai respondendo às combinações com responsabilidade, que podem estar escritas em local visível, vai recuperando aquilo que gosta e que foi temporariamente suspenso. Isto é uma ação de toda a família, não se pode permitir que irmãos , dindos ou avós, sabotem nenhum ítem do que foi acordado.Claro que não podemos expor o jovem a humilhações, mas todos que puderem contribuir para esta reestruturação devem estar a par e cumprir com sua parte .

         Por vezes, se faz necessário mudar de escola, afastar o jovem do grupo que mantém ativos os comportamentos de risco. A cumplicidade entre eles é muito sólida, fica complicado ele permanecer afastado deste repuxo do grupo. No início as dificuldades para os pais parecem impossíveis de serem administradas, mas com um pouco de tenacidade e paciência, logo obtém os primeiros resultados positivos desta nova postura.É fundamental que ambos os pais, mesmo que separados, tenham claros os valores que regem os princípios da família e , acima de tudo, tenham atitudes coerentes com os mesmos. este é o único caminho de recuperação do equilíbrio e da saúde.

      Caso os pais proibam o filho de ingerir bebidas alcoólicas, mas nos fins de semana tomem um porre na presença dele, ou utilizam tranquilizantes diariamente,  esqueçam o que está escrito aqui. Nesta fase de mudança, a postura deve ser radical mesmo, deixar o filho fumar só um cigarrinho de maconha por semana...Desistam ! Nem um real para a passagem ? Não ! Nem um real, comprem o cartão de transporte . O mesmo padrão com o celular, que tornou-se uma excelente ferramenta para telentrega de drogas.

     Eu acredito firmemente que precisamos assimilar a idéia que atitudes assim são características inquestionáveis de pais bons, e não de "mães más", mesmo que seja uma expressão recheada de ironia, está na hora de assumirmos posturas firmes e claras, abrir mão de uma ambiguidade cúmplice e protetora de nossas fraquezas enquanto pais.Nunca se viu na mídia, ou na casa ao lado, tanta violência, abusos, desrespeito, como nos dias atuais. Não adianta reclamar da polícia, das escolas, do governo, este papel é nosso como pais e de mais ninguém ! Afinal, como no casamento, a paternidade é uma escolha que exige  presença, lealdade, compromisso e fidelidade que não são viáveis de tercerização.

   Não, não é bom sermos maus ! Porque assumirmos ser pais na íntegra , que agem com firmeza, que conversam diariamente, esperam noite à dentro a chegada das festas, põem de castigo, repreendem, exigem respeito, vão às reuniões na escola, conhecem a turma, cobram o combinado, incentivam  e elogiam os ganhos, abraçam e choram juntos, são parceiros e não amigos, ser pai e amigo, é incompatível ! Pode ser doloroso admitir, mas amigos são os da mesma idade, da mesma turma, são cúmplices e confidentes, pais , são pais. Os filhos podem, eventualmente nos sentir como maus, nós pais devemos ter a convicção de estar agindo como bons, sem dúvida alguma... É bom sermos bons pais.

Fátima Pilla Muller       06 de junho de 2009

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 08/06/2009