AMORES E AFINIDADES
Sinto-me
uma pessoa privilegiada pelos amigos que tenho, alguns há
mais de trinta anos, que compartilharam comigo, boa parte
da minha vida. Marcaram meu percurso com inesquecível
solidariedade, alegria , encontros coloridos pela ternura,
música, poesia, aquele prazer de sentir que alguém torce
por nós, ou o Amigos Futebol Clube. Concordo com o poeta
que diz "Eu poderia perder todos os meus amores, mas não
suportaria viver sem meus amigos"... Nestas décadas de
estrada, em vários caminhos, separei-me de marcantes
amores e segui minha vida, por um tempo triste e abatida,
mas a cada novo amor, o espaço vazio e escuro da
separação, se preenchia com mais luz, encanto e
expectativas de felicidade. Uma necessária e saudável
amnésia lacunar se instala a serviço da sobrevivência.
Com os amigos é diferente, os poucos que perdi, jamais
foram substituídos por outro amigo. A dor do afastamento é
onipresente, incansável e constante, imune ao
esquecimento. Como um vírus forte se instala , não nos
abandona, e ao mínimo estímulo reaparece com toda
intensidade atiçando uma cruel saudade. Afinidade de amigo
ultrapassa o tempo, quando acontece o reencontro, mesmo
depois de muitos anos, retomamos a conversa como se fosse
ontem. Brota aquela vibração única do entendimento
profundo, da cumplicidade, da aceitação incondicional das
nossas limitações e potencialidades. Entre amigos de
verdade, não há aquela crítica agressiva, apenas a análise
sincera e amorosa sobre nossas derrapagens mais
arriscadas.
Difícil fica de administrar quando um amigo torna-se
objeto de nosso investimento libidinoso, causa-nos
arrepios quando nos encontramos, ficamos sem jeito e
perdemos a espontaneidade que era tão solta. É um prato
perfeito para se saborear o que acredito ser complicação
com todos os petiscos derivados... Não em um sentido
negativo, mas naquele em que nos sentimos desnudos,
desconcertados, procuramos disfarçar a respiração
ofegante, as pupilas dilatadas e o coração disparado.
Afinal ele conhece nossas estratégias, armas de defesa e
todos os pontos fracos ! Sentimo-nos frágeis, vulneráveis
e capazes de jogar ao chão toda e qualquer defesa com
absoluta felicidade.
É a própria paixão turbinada ! Poupamos um considerável
tempo de conhecimento e construção, de explicações e
histórias que já cansamos de contar para nos situarmos no
tempo e no espaço, para formarmos um banco de
justificativas que amenize nossa culpa em possíveis
deslizes. Enfim, adquirimos um saldo surpreendente na
aquisição de um vínculo sólido e desafiador. Vem a
tendência de recuperar a leveza nos atos e gestos, de
perder o temor à exposição límpida, honesta e
vergonhosamente verdadeira de tudo que somos e pensamos.
Não deveria pela amizade construída anteriormente, sobrar
espaço para mentiras, desonestidade, subterfúgios nem
deslealdade.
Penso
que este é o verdadeiro amor, ao contrário da maioria das
pessoas que creem que primeiro nos apaixonamos, depois
casamos e quando a paixão ameniza ou adormece, nasce a
amizade entre o casal para manter a união, nem que seja de
fachada. Talvez eu seja uma incurável idealista, quando
acredito que quero casar para sempre, com um grande amigo.
Porque não tenho medo de mim, da minha história, nem dos
meus sonhos ou fracassos. Tenho convicção do meu potencial
de amar, especialmente um amor amigo, um homem que confiei
minha dor, o lado escuro da minha lua, meus medos e
fragilidades, minha coragem e determinação para ser feliz,
e conheço dele as mesmas coisas, que me conduziram ao
encanto e admiração.
Amor e afinidade, preciosos sentimentos que busco
incansavelmente para constituir meu leito de encanto e
devoção, com os quais quero caminhar de mãos dadas, dando
risadas, em um refúgio de paz. Vou contar meus versos,
passear nas nuvens, acalmar meu choro, colher teu sorriso,
dormir no teu abraço. Quero semeá-los pelo meu jardim,
para que meus filhos, meus netos, tenham de herança um
amor sem fim , que começou em mim.
Fátima Pilla
Muller - 16/ 06 / 2007
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Publicação:
www.paralerepensar.com.br
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19/06/2007

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