A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

CAMINHANDO NAS NUVENS ...

                 A vida é maravilhosa porque nos surpreende, entre tempestades e perdas, temos a certeza, que um dia mesmo longínquo, o céu há de tornar-se claro, o vendaval se transformará em brisa e o medo devastador cederá seu lugar à coragem refeita. Quando menos se espera, as nuvens cinzas que nos acuavam, servem de tapete para nossos passos seguros por entre desejos e sonhos  viáveis.

                Pouco a pouco, esquecemos a dor que nos maltratou, as feridas cicatrizam ao sol, as feições dos desleais se diluem e carregam para longe  lembranças que não machucam mais. Nestes momentos nos reconstruímos com o que há de melhor em nós, brotam os sonhos adormecidos, os talentos desacreditados, reencontramos o ânimo até então desacordado. Saímos da dor silenciosa, emergindo do coma profundo ... E como num parto inesperado, renascemos para uma vida mais iluminada.

              Entendemos o sentido do tempo, a necessidade de experimentar a vida com sofreguidão,  aprendemos a respeitar nossas rugas como um passaporte para a sabedoria e o usufruto de tudo que até então, foi intensamente vivido. Nunca retoquei minhas marcas, embora minha alma necessitasse urgentemente de uma plástica. A vida nos presenteia com a evolução, o amadurecimento que faz o lastro da felicidade que tantas vezes duvidamos existir, ou simplesmente, não lutamos o suficiente para conquistar.

             Vamos somando os anos, não mais como números que almejamos quando jovens, que guardavam aparentemente o mistérios da liberdade, e a chave da autonomia, com todas as ilusões que nos sentíamos fortes para criar e conquistar . A liberdade tem como pré requisito a autonomia, aquela magnífica sensação de poder sobreviver por conta própria, de fazer escolhas a partir de sentimentos e valores genuínos , que reconhecem a necessidade do amor a si mesmo,  do respeito aos valores construídos nesta jornada.

            Não há como experimentar o caminhar nas nuvens se não somos  capazes de nos manter , nos abastecer de sentimentos amorosos de subsistência, ou possuir um verdadeiro orgulho de nossa trajetória nesta vida que é um poderoso nutriente. Muitas pessoas descuidadamente, permanecem dependentes do seio materno e suas representações, seja em forma de necessitar da  ajuda dos outros, porque não acreditam em si mesmos, ou se sentem incapazes de prover o próprio sustento financeiro e emocional. São parasitas disfarçados de vassalos, aparentes fiéis escudeiros que se colocam à disposição mas incompetentes para compartilhar o desafio do dia a dia, que exige um depósito justo de ambas as partes na conta corrente do relacionamento.

          Nas relações afetivas também temos o cheque especial ou negativo, e não há como negar que existe um limite! E o limite se encontra na dignidade, no respeito aos valores pessoais, ninguém conseguirá caminhar nas nuvens se não tiver como lastro o amor próprio, a segurança de se bastar por si . Precisamos lutar para manter nossa conta fora do vermelho, ter um belo saldo de afetos, de realizações e de amor próprio. Não importa o tempo vivido nem a idade declarada na carteira, o objetivo deverá ser sempre,  um saldo positivo, manancial de vida . Aí, então, ousaremos caminhar nas nuvens como se elas fossem o nosso leito de vida e de morte.

Fátima Pilla Muller            outubro/2007

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 23/10/2007