CIÚME...QUEM NÃO TEM
?
Creio que o
ciúme é um sentimento tão intensamente humano, que só
deixamos de ter, depois da morte, e olhe lá !
Não posso garantir que ele
não ocorra em outras dimensões, inclusive porque tem
tanta gente que morre e mata por ciúme, que não dá para
duvidar.Entendemos por ciúme aquela inquietação
constante ou eventual, despertada pelo desejo de posse
exclusiva do ser amado, ou de um objeto.
Nele se fala
desde a Bíblia e acompanha a história da humanidade,
inspirou grandes poetas, romances e filmes que
ultrapassam o tempo, porque não perdem a atualidade
despertando emoções naqueles que se identificam com os
conflitos que encerram o sentir ciúme. A música tem sido
mestra em contar em canto, as dores de quem sofre deste
mal. Lupicínio Rodrigues, compositor gaúcho, relata com
magia quando diz : " Você sabe o que ter um amor, meu
senhor, ter loucura por uma mulher, e depois encontrar
este amor, meu senhor, nos braços de um tipo
qualquer..." "Eu não sei se o que trago no peito, é
ciúme desfeito, amizade ou horror, eu só sei é que
quando eu a vejo, me dá um desejo de morte ou de dor..."
Magnífico !
É mais ou
menos estes pensamentos que inundam o coração e a mente
dos ciumentos. E somos assim, desde que nascemos, mesmo
bebês reclamamos quando nossa mãe se distrai ao
amamentar, e quando já conseguimos caminhar sozinhos,
nos agarramos as pernas dela, exigindo a máxima atenção.
O ciúme quase sempre nasce do medo da perda daquilo que
amamos,
está presente entre nossos
amigos da escolinha à faculdade, na família, entre pais
e filhos, entre irmãos, primos, seja qual for nossa
posição em determinado lugar, lá ele estará ameaçando
nossa segurança no pódio dos preferidos, por toda nossa
vida.
Mas é nas
relações amorosas, que o ciúme adquire proporções de
alta periculosidade, porque pode desencadear situações
complexas e até dramáticas. Ele tem uma gama de
intensidade e sofrimento bastante extensa, há pessoas
que consideram o ciúme o tempero do amor, qualquer coisa
semelhante a uma declaração cotidiana de que somos
importantes para aquela pessoa. Até aí, tudo bem, fácil
de administrar, se as ações de ciumera se limitarem a
algumas manifestações civilizadas de cuidados com a
roupa que vestimos, os horários de rotina, o interesse
pelo nosso trabalho e colegas, estas coisas que nos
fazem sentir participantes importantes na vida de quem
amamos.
O espectro no
entanto, vai muito além. Quando este aparente
cuidado com nossa rotina, adquire a face da instalação
de um GPS em nosso tornozelo, ultrapassa o bom
senso, instala-se um tom de tortura que ameaça todo o
equilíbrio de um convívio maduro. A partir deste
momento, a confiança fica abalada e tudo que até então
foi construído sobre esta base , tende a se romper.Os
telefonemas e torpedos insistentes, em horas
inadequadas, denunciam o controle. Passamos a nos sentir
vigiados, a desconfiança toma proporções que chegam as
raias do ridículo, uma desagradável sensação de
constrangimento paira no ar ,
o que antes vibravamos como
sendo surpresas e mimos, se transformam em invasões
inesperadas da nossa intimidade.
É o ciúme doentio,
destrutivo que vai vagarosamente minando um
relacionamento repleto de potencial de amor e respeito.
Um dos medo mais impetuosos
que corroe o ciumento é o da traição, e nem sempre pelo
medo da perda, mas muito mais pela ferida narcisista que
esta pode lhe causar. Alguns na sua infinita carência
e fragilidade, argumentam que preferem ser bobos, negar
as evidências, do que serem infelizes ?! Se submetem a
um convívio medíocre, constantemente ameaçador , em
troca da ilusória sensação de terem por perto algo que
na marra, definem como amor...Se distraem da dor da
traição e do desrespeito , com presentes, viagens,
falsas manifestações de ternura, aceitam famintos, bens
materiais para compensar o amor que se desfez.
Estas pessoas passam
o tempo desperdiçando energias na busca transloucada de
rivais, catando indícios de traição, buscando marcas de
batom, ou de perfume, conferindo o extrato do cartão de
crédito, a conta do celular, os emails enviados na
madrugada, ficam obcecados por uma idéia que nem sempre
é a verdade, mas por insistência, acabam por
concretizá-la. Ficam tão perturbados que esquecem que
quem quer realmente aprontar numa boa, o faz em alto
nível ! Quem quer trair sem ser pego, capricha...É
cauteloso, não se expõe, em geral tem um celular de
reserva, é cuidadoso com a roupa, escolhe horários acima
de qualquer suspeita, são realmente muito criativos e
imunes a surpresa de serem flagrados , e sempre tem a
cumplicidade do outro lado que se encontra livre, leve e
solta.
Aparentemente é tudo
muito complexo entre nós humanos, um tanto sofrido,
emocionante como qualquer relacionamento afetuoso que
mergulhamos de corpo e alma, com o único e genuíno
objetivo de sermos felizes para sempre e mais um dia. Eu
acredito que o ciúme até pode ser um tempero, como uma
pitada bem pequenininha, só para dizer que me preocupo
em perder quem eu amo, que sinto um aperto no peito, se
estás lindo demais e vais sair de perto de mim. Assim,
tenho ciúmes sim. Não gosto de ver abraçado quem eu amo
com uma outra mulher, me dói e eu quero estar em teus
braços. Mas acima de tudo, desejo ardentemente a tua
confiança e eu poder de verdade, sem receio , confiar em
ti, quero me distanciar de ti e ter a certeza que nos
reencontraremos repletos de desejo e saudade de estarmos
juntos.
A auto estima forte, a
crítica objetiva e segura de nossas qualidades, cultivar
o investimento em uma relação baseada na confiança
mútua, na conversa franca quando nos mobiliza uma
dúvida, estimular o desejo permanente de criar e recriar
o que temos de melhor, o compartilhar nossas ansiedades
com franqueza, assumir nossas falhas, fazer surpresas
com a certeza de agradar, mimar sempre, ter pequenos
gestos de ternura e atenção, ser sensível nos momentos
difíceis, oferecer ajuda de coração,
respeitar o silêncio e a
distância, quando necessários. Perdoar, se o amor for
maior que a dor, sempre.
Fátima Pilla
Muller 19 de junho de 2009