- Esta expressão ganhou
popularidade em uma música do Peninha, gravada por
Caetano Veloso. A letra e a música são lindas, falam de
amor, do desejo de estarmos juntos, grudados àqueles que
amamos. Para uma boa parcela dos casais, neste contexto
de fascínio mútuo, aderir a esta proposta, é uma grande
demonstração de amor. Mas com o tempo, e a convivência,
descobrimos que neste contexto existem perigosas
armadilhas a serem superadas.
- A canção assim como a realidade
, cobra a presença, salientando que o ser amado não nos
pertence, porém, faz parte do exercer o amor, um sutil
jogo de sedução do ganhar ou perder . Nele flutua a
disfarçada e permanente ameaça de abandono, como se o
medo deste, fosse a garantia da posse segura e eterna,
pelo menos , enquanto dure. Passei por estas situações
inúmeras vezes, tanto quando eu não passava de uma
guria, como também na maturidade. Foram paixões
maravilhosas, emocionantes e inesquecíveis. Revivo hoje
em dia com meus filhos, e os jovens que convivo, como se
fosse exatamente, naquele tempo. Paixão é atemporal... E
todos os desafios que dela brotam, também.
- Neste mundo fantástico da
tecnologia que nos encontramos , internet e celular, os
apaixonados se tornaram privilegiados em possuir armas
geniais para exercer estas verdadeiras batalhas de
sedução . Torpedos repletos de palavras encantadoras
pontuam a rotina, beijos "ao vivo" são enviados em
fotos, assim como flores ou ursinhos carinhosos. Por
estas vias, recebemos o bom dia, boa tarde, e boa noite
por vezes, madrugada à dentro. Ah! Se eles soubessem, o
que era esperar uma semana por uma carta ! Receber um
telefonema com a família toda ouvindo a conversa na
sala... E o tempo e a grana que tínhamos de juntar para
tirar uma fotinha 3x4 , para dar de presente ao
namorado.
- Quando estamos apaixonados,
queremos justamente uma verdadeira fusão
cotidiana, encontramo-nos sob a regência de uma química
que age sobre nossos corpos e mentes, feito um imã em
relação ao objeto amado. Dá vontade de fazer tudo junto,
estudar, trabalhar, passear, tomar banho ou um sorvete,
e dormir exatamente assim, grudados. Algumas pessoas
que estão ao nosso redor chegam a criticar o grude !
Como podem, não se cansam um do outro, o tempo todo ?
- Não, os enamorados não esgotam o
desejo de estar assim, colados feito siameses. Depois de
um tempo, observamos que eles começam a ter gestos e
palavras comuns, trocam roupas entre si, aprendem a
gostar de comidas que antes não suportavam, assistem
filmes que detestavam, enfim abrem todos os sentidos à
novas e excitantes experiências. Tendem a romper antigos
padrões familiares, se tornando qualquer coisa, aos
olhos da família , como bem humorados anarquistas.
Quebram as rotinas, questionam valores, sacodem a poeira
de tudo que se encontra depressivamente parado. Se jogam
de olhos fechados ao desconhecido e ao novo, aquilo que
desafia a mesmice . É um meio de cada vez mais, penetrar
pelos labirintos desconhecidos do outro, que excita e
atiça a paixão , que de modo vibrante amplia o próprio
ser.
- Por um bom período, cada um faz
o seu marketing pessoal na conquista virtual e, marca
pontos na aquisição da segurança e do objetivo de
alcançar o desejado e real estado, de gruda em mim. A
paz adquirida pelo ilusório sentimento de ter. Só assim,
uma certa tranquilidade é adquirida na necessidade de
posse. Como em todo relacionamento, há um limite
do território pessoal que precisamos e
devemos preservar. Todas estas facilidades de contato e
comunicação, nos expõem em demasia, e abrem um perigoso
espaço para a atuação dos ciumentos controladores. Uma
classe perigosa de amantes, que a princípio deslumbra,
preenche os desejos de apego e proteção, acolhe sonhos e
anseios profundos e finalmente, sufoca . E... Se nos
pegam desprevenidos... Temos a triste e sofrida
oportunidade de conhecer e vivenciar o caos em um
relacionamento que deveria ser amoroso.
- Inesperadamente, um deles diz uma
frase cruel, que nos pega de sobressalto : " Preciso de
ar ! " Atônitos sentimos qualquer coisa semelhante a uma
tontura e total falta de entendimento, nos leva às
raias da burrice ! Simplesmente porque não conseguimos
assimilar a mensagem. Ar ? Como assim ? Devo abrir as
janelas ? Ligar o ventilador ? As reações são as mais
diversas possíveis, crise de choro, greve de fome,
rasgar fotos e emails, apagar todas as centenas de
torpedos compartilhados, deletar as fotos no site,
trocar no orkut o status para solteiro... Uma implosão
emocional é detonada ... Só enxergamos fragmentos
desabando e sentimos a asfixia da poeira infinita que
toma conta de todo espaço que nos cerca.
- Aquele que se experimentou a dor de
ser fortemente magoado e até desprezado, não consegue
compreender a vontade do outro de querer ar... Embora,
também lhe falte . Ar é o espaço pessoal que um deles
invade e vai além do bom senso. Sem querer, talvez,
asfixiar. Quem já tirou o ar de alguém que amava ou
sentiu o próprio ar roubado, compreende o quanto esta
experiência é dolorosa, desestruturante nas emoções e na
lucidez, nos abate, põem em dúvida todo o investimento ,
faz desabar estratégias que nos pareciam o caminho
seguro para felicidade e realização plena da paixão.
- Depois de enfrentar e provocar
algumas asfixias na minha vida , ao longo de décadas, e
compartilhar outras tantas com amigos, cheguei à
conclusão que a medida certa do grude, é aquela que nos
permite sentir saudade do ser amado. Colar no objeto
amado, como sinônimo de amar, de demonstrar paixão, não
é ficar grudado o tempo todo, seja por torpedo, por
email, ou pela própria presença. É necessária uma
percepção sutil do desejo do outro e do nosso próprio
desejo de querer estar junto. Preservar o espaço pessoal
e único, manter vivo o nosso universo é resguardar a
identidade, proteger nossa intimidade, conservar os
amigos, coisas que também nos dão um prazer genuíno e,
no impulso da paixão e do desejo de agradar
incondicionalmente, muitas vezes esquecemos.
- Apaixone-se! Cole, sempre que sentir
que a situação pedir, em especial quando já estiverem
juntos, no sofá, na cama, no carro ou na praia, grude !
Use sua sensibilidade e sinta se há saudade no ar, que
não pode faltar. Produza um jantar a luz de velas,
ponha-se linda, sensual, compre flores, perfume a alma e
a casa, escolha aquela música que arrepia a alma, solte
toda a criatividade que o desejo pode despertar. Fale o
quanto o ama sem medo , mime sem receio, brinque com
as manias, ria das piadas conhecidas, disfarce se existe
algum ciúme e na hora certa, busque a tranqüilidade
conversando em paz. E cole !
- Porém, jamais esqueça, de deixar que ele
sinta saudade de estar junto, muita saudade...
Fátima Pilla Muller
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Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 02/06/2008

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