A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

COMO BEIJO EM FERIDA
 
        Uma das lembranças mais marcantes que trago da minha infância, é de quando eu me machucava e recebia um beijo de minha mãe no local lesionado , acompanhado de palavras de consolo e apoio. Fiz o mesmo com os meus filhos e fico encantada com o poder deste gesto na base de nossa auto confiança e na capacidade de acreditar na recuperação das coisas. Que sensação maravilhosa a de nos sentirmos confortados na dor, compreendidos no sofrimento que nos abate. Aquele beijo repleto de ternura, sem nojo da dor , depositava um curativo eficaz e estancava meu choro, feito mágica.
 
        Não tenho mais ao meu lado a minha  mãe, desde os meus nove anos, mas este pouco tempo que compartilhamos abraços, colos e beijos, bastaram para que eu construísse em mim com solidez, a capacidade de ter fé e esperança inabaláveis, plantada por ela e todos os gestos amorosos que teve nosso convívio. A marca do beijo na ferida, foi sem dúvida a mais forte herança deixada por ela, poderosa arma que utilizo desde aquela época para minha sobrevivência. É lança, escudo, colo e consolo em cada batalha, sem que eu possa contar com um abraço de mãe, feito troféu na conquista ou apenas para assustar o medo .
 
        Efeito contrário, tinha uma insuportável frase dita nestas situações, "cai para levantar de novo", que alguns mal humorados "tios", insistiam em dizer. Quando eu ouvia este incentivo, me sentia tomada por uma raiva enorme, desconsiderada na minha dor, por menor que fosse, era a minha dor, tinha de ser respeitada. Como levantar para cair de novo ? Eu não quero ficar caindo por aí !
Muito menos me machucar. Quero o beijo e as palavras solidárias de minha mãe, estas sim, me colocam em pé, confiante. Estão presentes em meu meu ser, minha alma e ressurgem para me consolar, cada vez que me sinto machucada.
 
        Tem pessoas que não entendem o quanto é importante na formação do caráter, estes pequenos gestos de ternura e solidariedade para com as crianças. São sementes de esperança na vida, confiança naqueles que nos cercam, que garantirão nossa saúde e estabilidade emocional. Um sincero elogio opera verdadeiros milagres em crianças e adultos, o reconhecimento nem que seja simplesmente por nossa existência, é algo capaz de manter a vida. Digo em cada torpedo para minha filha, 
que a amo, à noite, mesmo exausta, canso os braços fazendo cafuné do mesmo jeito que eu fazia quando ela era pequena. Adormece feliz como se fosse um bebê que agora tem 19 anos de carinhos acumulados. Será uma boa mãe.
 
       Esta colocação é algo tão importante, para a sobrevivência do ser humano, que somos capazes de cometer até mesmo crimes para termos um reconhecimento . É a dinâmica dos delinqüentes, que não sendo reconhecidos pelo simples fato de existir, preferem cometer um delito , apanhar, mas pelo menos, ter um reconhecimento. O exemplo nos remete ao extremo da situação, mas vejamos aquelas crianças que fazem arte , se quebram para obter a atenção dos pais. Os jovens que se drogam, sofram acidentes, caminham na mesma linha , a conquista do olhar daqueles que os cercam, por bem ou por mal.
 
      Nossa natureza nos impele a obter o reconhecimento a qualquer preço, para garantir nossa própria vida . No início, necessitamos de colo, apertado e amoroso, onde vamos delimitando os contornos do corpo e construindo um ego, uma identidade.
Bebês que não são tocados, definham e adultos também, apenas de um modo mais disfarçado. A verdade é que nenhum de nós é capaz de viver sem um carinho, nem que seja virtual, precisamos de carinho como do ar, da água e dos alimentos. Ser mãe é saber alimentar, acima de qualquer outra função. A minha mãe soube tanto, que eu também fui uma boa mãe provedora e por isso serei eternamente grata !
 
      Eu poderia lembrar inúmeros gestos e atitudes marcantes de minha mãe, a paciência, as brincadeiras engraçadas, a generosidade e sensibilidade, o talento para escrever, mas nada se compara à força do beijo dado em minhas feridas, gesto que sinto em mim até hoje, como se ela estivesse aqui.

Fátima Pilla Muller     -    maio de 2008

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 08/05/2008