COMO BEIJO EM FERIDA
Uma das lembranças mais
marcantes que trago da minha infância, é de quando eu me
machucava e recebia um beijo de minha mãe no local lesionado
, acompanhado de palavras de consolo e apoio. Fiz o mesmo
com os meus filhos e fico encantada com o poder deste gesto
na base de nossa auto confiança e na capacidade de acreditar
na recuperação das coisas. Que sensação maravilhosa a de nos
sentirmos confortados na dor, compreendidos no sofrimento
que nos abate. Aquele beijo repleto de ternura, sem nojo da
dor , depositava um curativo eficaz e estancava meu choro,
feito mágica.
Não tenho mais ao meu
lado a minha mãe, desde os meus nove anos, mas este
pouco tempo que compartilhamos abraços, colos e beijos,
bastaram para que eu construísse em mim com solidez, a
capacidade de ter fé e esperança inabaláveis, plantada por
ela e todos os gestos amorosos que teve nosso convívio. A
marca do beijo na ferida, foi sem dúvida a mais forte
herança deixada por ela, poderosa arma que utilizo desde
aquela época para minha sobrevivência. É lança, escudo, colo
e consolo em cada batalha, sem que eu possa contar com um
abraço de mãe, feito troféu na conquista ou apenas
para assustar o medo .
Efeito contrário, tinha
uma insuportável frase dita nestas situações, "cai para
levantar de novo", que alguns mal humorados "tios",
insistiam em dizer. Quando eu ouvia este incentivo, me
sentia tomada por uma raiva enorme, desconsiderada na minha
dor, por menor que fosse, era a minha dor, tinha de ser
respeitada. Como levantar para cair de novo ? Eu não quero
ficar caindo por aí !
Muito menos me machucar. Quero o
beijo e as palavras solidárias de minha mãe, estas sim, me
colocam em pé, confiante. Estão presentes em meu meu ser,
minha alma e ressurgem para me consolar, cada vez que me
sinto machucada.
Tem pessoas que não
entendem o quanto é importante na formação do caráter, estes
pequenos gestos de ternura e solidariedade para com as
crianças. São sementes de esperança na vida, confiança
naqueles que nos cercam, que garantirão nossa saúde e
estabilidade emocional. Um sincero elogio opera verdadeiros
milagres em crianças e adultos, o reconhecimento nem que
seja simplesmente por nossa existência, é algo capaz de
manter a vida. Digo em cada torpedo para minha filha,
que a amo, à noite, mesmo
exausta, canso os braços fazendo cafuné do mesmo jeito que
eu fazia quando ela era pequena. Adormece feliz como se
fosse um bebê que agora tem 19 anos de carinhos acumulados.
Será uma boa mãe.
Esta colocação é algo tão
importante, para a sobrevivência do ser humano, que somos
capazes de cometer até mesmo crimes para termos um
reconhecimento . É a dinâmica dos delinqüentes, que não
sendo reconhecidos pelo simples fato de existir, preferem
cometer um delito , apanhar, mas pelo menos, ter um
reconhecimento. O exemplo nos remete ao extremo da situação,
mas vejamos aquelas crianças que fazem arte , se quebram
para obter a atenção dos pais. Os jovens que se drogam,
sofram acidentes, caminham na mesma linha , a conquista do
olhar daqueles que os cercam, por bem ou por mal.
Nossa natureza nos impele
a obter o reconhecimento a qualquer preço, para garantir
nossa própria vida . No início, necessitamos de colo,
apertado e amoroso, onde vamos delimitando os contornos do
corpo e construindo um ego, uma identidade.
Bebês que não são tocados,
definham e adultos também, apenas de um modo mais
disfarçado. A verdade é que nenhum de nós é capaz de viver
sem um carinho, nem que seja virtual, precisamos de carinho
como do ar, da água e dos alimentos. Ser mãe é saber
alimentar, acima de qualquer outra função. A minha mãe soube
tanto, que eu também fui uma boa mãe provedora e por isso
serei eternamente grata !
Eu poderia lembrar
inúmeros gestos e atitudes marcantes de minha mãe, a
paciência, as brincadeiras engraçadas, a generosidade e
sensibilidade, o talento para escrever, mas nada se
compara à força do beijo dado em minhas feridas, gesto que
sinto em mim até hoje, como se ela estivesse aqui.
Fátima Pilla Muller - maio de 2008