A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

ESSES MOÇOS ...

                Quando eu era guria , por diversas vezes, ouvi meu pai cantarolando uma música linda de um compositor gaúcho, Lupicínio Rodrigues, que ele teve o privilégio de conhecer aqui em Porto Alegre. Ele cantava  "Esses Moços", especialmente quando eu estava triste com algum desafeto. Lá pelo final da  adolescência comecei a prestar mais  atenção à letra ... " esses moços, pobres moços, ah se soubessem o que eu sei, não amavam, não passavam aquilo que eu já passei "...

               Quando ouvia me invadia um misto de sentimentos, qualquer coisa entre a irritação, tristeza e curiosidade pelos sentimentos  ali denunciados com tanta clareza.  Enquanto os meus, explodiam confusos no peito , provocando tonturas , taquicardia e falta de ar. Eu estava sendo apresentada ao amor... Um amor diferente de tudo até então, não mais aquele amor seguro, do colo garantido na hora da dor, mas o amor avassalador, que engole o fôlego, desperta o ciúme, e nos possui sem pedir licença , se instala anarquica e deliciosamente. Sem saber, eu estava descobrindo o amor e a paixão, o céu e o inferno, a que todos nós humanos temos o direito e o dever de vivenciar.

               Por muitos anos não fui buscar toda a letra desta música, talvez por temer desvendar uma mensagem cruel contida de forma enigmática , em cada palavra que formava o corpo daquela melodia. Queria simplesmente me deixar levar por aqueles sentimentos feito espuma nas ondas do mar. Flutuar irresponsavelmente sem direção nas ilusões, até alcançar o outro lado do oceano, pouco me importava se eu encontraria uma ilha, um vulcão ou maremoto. Me sentia com coragem o bastante para enfrentar todos os temporais, não tinha bússola porque o norte sempre apontava para o ser amado, e eu o seguiria incansável, noite e dia, enquanto as forças me permitissem sonhar.

              Amei desmedidamente, me apaixonei sem medo, atirei-me do mais alto para mostrar minha coragem de voar ... Amei, sempre  ouvindo ao fundo  a letra daquela música, como um sutil sinal de alerta e auto preservação. Mas quando se está apaixonado, quem pensa em sinais de alerta, em barreiras ou riscos de aniquilação ? Os que realmente amam... Jamais ! Os enamorados não refletem, agem de acordo com aqueles incontroláveis impulsos de desejo puro e todos, todos os caminhos levam ao ser amado. As ações possuem uma única meta, tê-lo ao lado, os pensamentos sequestrados pelo anseio do estar junto o tempo todo, mais nada parece despertar interesse algum, a não ser o ser amado, empossado na alma.

             Décadas se passaram e a música me acompanha, cantarolei para minha filha na primeira decepção de amor... Como eu, ela não entendeu no todo. Não importa ! Quero que ela se apaixone mais do que eu me apaixonei, se for possível. Quero que tenha mais coragem e audácia do eu tive, que viva o amor e a paixão com a garra dos destemidos, que mergulhe bem mais fundo e salte mais alto, enxergue a fascinante luz que só no amor é possível encontrar. Pois ela tem uma vantagem importante, tem uma mãe que não temeu o amor, que não vacilou se apaixonar , e estará sempre por perto para cantarolar uma canção de amor.

            O resto da música, um dia irei cantar... " Por meus olhos, por meus sonhos, por meu sangue tudo enfim / É que eu peço , a estes moços, que acreditem em mim... / Se eles julgam que há um lindo futuro / Só o amor nesta vida conduz / Saibam que deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno a procura de luz / Eu também tive nos meus belos dias / Esta mania e muito me custou / Pois só as mágoas que eu trago no peito/ E estas rugas que o amor me deixou ".

            Como  amor de mãe é o mais lindo e complexo, não mentirei sobre as dores do amor e do crescimento, nem das noites de lágrimas incansáveis ou da insônia que corroía a alma a cada separação amorosa. Irei cantarolar baixinho... Esses moços , pobres pobres moços... Que maravilha que não sabem o que eu sei, que descubram vagarosamente as armadilhas e encantos do amor, que se permitam fisgar pelas teias da paixão e nela permaneçam até a última gota de orvalho. Porque há mágoas no meu peito sim, faz parte do cimento com o qual construímos a vida, e minhas rugas agora marcadas são a mais bela expressão de toda a felicidade que vivi. 

Fátima Pilla Muller  - 17 de fevereiro de 2008

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 18/02/2008