A casa dos grandes pensadores
 
 
  FÁTIMA PILLA MULLER

 

 

 

A EVOLUÇÃO DA PAIXÃO
 
      Amar é uma arte, que em parte se aprende , o resto só amando e vivendo.  Para tantos é sinônimo de sofrimento, perda, desilusão, para outros adrenalina, pura emoção, razão de viver.
     O amor existe e acontece em vários graus e intensidade, quando pequenos nos ensinam a amar o próximo, os amiguinhos da escola, a família. É a fase do amor ingênuo, lúdico, despretensioso, ou de pura sobrevivência.
     Investimos nosso amor, este manancial de poderosos sentimentos, quase que indiscriminadamente, como se fosse uma obrigação, uma lei amar à todos.
     Crescemos, e por vezes, de modo doloroso, descobrimos que nosso amor não tem reciprocidade, sofremos a decepção dura e precoce,  passamos a questionar nosso apego a estes pessoas que não o merecem, por vezes, o próprio amor.
     Desta época permanecem, para sempre, fiéis amigos, um tipo especial e precioso de amor, solidário, companheiro, depositário de nossos secretos segredos dos devaneios e sonhos de adolescentes.
      Quando nos apaixonamos pela primeira vez, descobrimos o amor em um estado extremo de êxtase e elevação, subitamente o resto do mundo perde o interesse e todos nossos atos se voltam a uma única pessoa, o objeto do nosso amor e verdadeira adoração.
      Deixamos de caminhar e passamos a flutuar, em alguns momentos, perdemos o senso crítico e passamos a ver estrelas à luz do dia, enxergar o rosto do ser amado em qualquer out door, escutamos compulsivamente a “nossa  música“, sentimos o cheiro de seu perfume pelo ar, e aguardamos ansiosamente qualquer sinal,  que nos dê a certeza de que também somos importantes.
     Fazemos bobagens quando estamos apaixonados, e como é gostoso fazer bobagens ! Mandar cartões com poesias, flores , mimos de surpresa, gravar uma canção na secretária eletrônica, preparar um jantar exótico cheio de boas intenções, aprender coisas que jamais imaginamos fazer, apenas para agradar nosso bem querer.
     Mas paixão é sinônimo de adrenalina pura, pode durar por dois a três anos, é uma avalanche de hormônios poderosos que nos dá esta magnífica energia para exercer um amor especial, turbinado, e ao mesmo tempo, nos cega para a realidade. Enxergamos nosso amado, apenas com qualidades, tudo é perfeito, exatamente como sonhamos, ele adivinha nossos desejos, lê os pensamentos, somos também perfeitos aos olhos dele.
     É um período mágico em nossas vidas, ensolarado noite e dia, possuímos uma energia inesgotável para demonstrar nossos sentimentos e intensas emoções. Denunciamos nosso estado apaixonado pelo olhar brilhante e distante aqui da Terra, vivemos nas nuvens nosso cotidiano, rimos aparentemente sem motivo, mas todos sabem em quem estamos pensando...
     O centro do mundo não é mais nosso umbigo, é ele, abandonamos a nós mesmos, por este amor extremado, não há egoísmo, não existe mais eu, não nos vemos mais sozinhos no espelho.
      Mas a paixão tem seu curso, e pouco a pouco, a realidade do convívio, se sobrepõe à idealização. Por uma razão de saúde física e mental, se faz necessária a morte da paixão, ou nós morreríamos se continuássemos vivendo indefinidamente com esta sobrecarga de libidinosos e borbulhantes hormônios, atiçando nosso comportamento ardente e devotado compulsivamente.
      Então nasce o amor... O turbilhão de sentimentos agitados da paixão, cede lugar à afeição, ao enamoramento, a dedicação, ao desejo de proteção recíproca, delicadeza, ternura, sensibilidade ao invés da adivinhação dos desejos.
      A calmaria acolhe as emoções mais doces, a cumplicidade fortalecida atiça os desejos mais ardentes, que sobrevivem ao abandono da paixão. A afinidade se torna sólida, a alegria permanece como companheira constante, embora de dia tenha sol e à noite estrelas, cada um reflete sua beleza e poesia, assim como o desnudar da realidade e verdade da essência de cada um dos amantes.
     Amar verdadeiramente, acima de tudo é aceitar o ser amado, exatamente como ele é, pós paixão ! É respeitar seus limites, reconhecer suas potencialidades, perdoar sinceramente suas falhas, dar colo nos momentos de tristeza, aceitar a necessidade de silêncio, fortalecer quando se sentir frágil, ser solidário na dor, agradecer os carinhos recebidos, abraçar no desamparo, incentivar os sonhos, compartilhar as alegrias, ser fiel aos acordos, dedicar-se ao ser amado, cultivar o amor dia a dia, em pequenos gestos de ternura e atenção.
    Portanto, a paixão é maravilhosa, mas sua evolução, o amor...É sinônimo de vida! Quem não tem a coragem de viver com amor, deve ser sumariamente, condenado a solidão perpétua.
 
Fátima Pilla Muller

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 10/08/2005