A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

JÁ TOMOU SIFRAGOL?

                       Eu já ! Desde pequenininha... Meu pai, um homem de origem alemã, considerado linha dura na forma de educar os filhos, tornou-se ainda mais,  quando ficou viúvo aos 30 anos, com quatro filhos pequenos. Como acumulou a função de pai e mãe, não teve outra alternativa a não ser firmar o rigor com as crianças, sentia-se cobrado na tarefa de educar-nos de modo impecável.

                       A supervisão em relação ao que ele chamava de "modos" era incansável, a começar pela mesa. Jamais podíamos brincar com a comida, dizer bobagens, não usar o guardanapo, fazer reclamações sobre o cardápio, ou deixar comida no prato "tem muitas crianças que passam fome ", dizia ele. Quando acontecia de um de nós quebrar uma regra estabelecida, na melhor das hipóteses, deveríamos sair da mesa e terminar a refeição na cozinha, perante o olhar de desprezo e os risos contidos , daqueles que ficavam na sala de jantar.

                     Esta era a linha básica de comportamento na nossa rotina, a começar pelo bom dia, de rosto lavado e dentes escovados, um sorriso estampado e a gratidão no coração por usufruir de mais um dia com saúde. Os modos vigentes, incluíam também, cumprimentar as pessoas sempre, ceder o lugar para os mais velhos, colocar a mão na boca para tossir, usar o lenço para espirrar,  jamais pegar algo sem pedir ou pagar, manter-se por mais de uma hora em silêncio ao assistirmos a missa todos os domingos. Nesta hora nosso estado de alerta era grande, porque não éramos colocados para fora caso cometêssemos algum deslize, era pior, recebíamos um beliscão no antebraço, que enchíamos os olhos de lágrimas. Mas chorar... Nem pensar !

                    À noite, o quarto devia estar impecavelmente arrumado, os sapatos lado a lado, a roupa para o colégio, os cadernos e livros, banho tomado e as orelhas e o pescoço, não escapavam da supervisão. Mesmo antes de dormir e rezar para o Anjo da Guarda, tínhamos a hora do silêncio em grande parte dos condomínios, inclusive na praia , durante o período de férias. E como respeitávamos ! Apesar de toda aquela energia vibrante da infância, acatávamos as normas da boa convivência sem sofrimento e, eventualmente quando mostrávamos ensaios de rebeldia, éramos contidos apenas pelo olhar daqueles representavam a autoridade.

                    Nesta época, eu creio que já tomava diariamente minhas pílulas de Sifragol, dadas amorosamente pelo meu pai através de gestos firmes, sutis e exemplos marcantes que construíram minha educação e postura. Não sou adepta à "frescuras", mas fico perplexa quando presencio cada vez mais, a falta de princípios, ética e bom senso no convívio dos tempos atuais. Respeito na nossa formação foi e é algo que sinto como sagrado, indispensável feito o ar que respiramos para viver e precisamos compartilhar com o mundo ao nosso redor por toda a nossa existência.

                   Preciso realmente fazer um esforço para não oferecer à algumas pessoas que me cercam, umas pílulas de Sifragol.

                   Especialmente em ocasiões em que num almoço ou jantar, puxam a toalha da mesa e a utilizam como se fosse seu próprio guardanapo, limpam os dentes com as unhas, pedem o prato mais caro, a bebida mais sofisticada e racham a conta com aqueles que ficaram só com os petiscos e uma água mineral. Para completar, fotografam a mesa com a turma para colocar no álbum do Orkut, sem pedir por favor... Chego a sentir dor... 

                 Sofro, não adianta, me esforço mas quando um vizinho notívago resolve pregar o armário, a uma hora da manhã, bem acima do meu quarto... É difícil não perder a paciência e partir para soltar os cachorros. Nestes momentos devaneio em ter um pitbull ao meu lado. E quando aquele conhecido, não amigo ou paciente, briga com a namorada ou outro problema , te liga às 23h 55 minutos, perguntando se é tarde para te pedir uma força? E às 2 horas da madrugada, tu ainda estás lá, desmaiado de cansaço, nem sabe mais com quem está falando, e ele pergunta : Tô te incomodando ? ... Dá-lhe um Sifragol !

                 Se respondemos que sim, corremos o risco que ele entupa nossas caixas postais do celular, do telefone convencional e do computador, sem dó nem piedade. Mas dá uma vontade de ser dolorosamente franca, executar uma tomografia e enxertar alguns conceitos básicos de civilidade... A tecnologia é fantástica, sem dúvida alguma. Por outro lado, esta falta de educação das pessoas, da abstinência de Sifragol,  nos expõe à situações constrangedoras, invadem nossas páginas, deixam recados agressivos e ofensivos sem nos conhecer, e para completar escrevem errado ! Não existe acordo ético que sensibilize estas pessoas vorazes, desplugadas de princípios e regidas por impulsos primevas.

              A falta de educação extrapola o bom senso e o instinto de auto preservação. Há casos hilários, ou trágicos de maridos e namorados, que são pegos pelas respectivas esposas ou namoradas com a "outra", faceiros e tranqüilos, abraçados nas páginas dos álbuns de  fotos na Internet...E, como sempre, as traídas são as últimas a saber, enquanto todo mundo ri às escondidas. Deve ser uma sensação deprimente ver-se exposta assim ao ridículo! E, eles, como  vão aplicar o velho argumento: Prova !... Sem saída ! Já está provado com milhares de testemunhas, literalmente. Ah! Se eles tivessem tomado Sifragol, certamente não pagavam um mico desta magnitude .

              No entanto, sou uma otimista incorrigível,  há esperança, meus filhos herdaram pelo menos, 50% desta minha educação e, hoje mesmo crescidos, ainda lhes dou umas pílulas de Sifragol com certa freqüência. Para minha sorte e deles, tiveram o privilégio de conviver por quase vinte anos com o avô "linha dura", pelo qual eram apaixonados e, quando ficavam na casa  dele, o avô servia  o café da manhã para eles em uma bandeja com guardanapo de linho, decorada com flores que ele colhia no jardim que cultivava .

 Fátima Pilla Muller -  março de 2008

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 10/03/2008