LEIA A BULA
Leia a bula
antes de usar...
Porque sou
fácil de digerir, não costumo causar alergias.
Sou composta
de alegria, ternura, paciência e bom humor.
Segundo
estudos de conhecidos, é fácil me fazer feliz.
Tenho poucas
contra indicações, como deslealdade ou traições.
Ah! Estes
sim, darão uma dor de cabeça, porque não alivio.
As
orientações para uso contínuo são básicas , me deixe
dormir em paz,
apague a luz
e o ronco, abra a janela para entrar a brisa e as
estrelas,
que no dia
seguinte serei uma mulher radiante e da paz.
Não faço
absolutamente nada, sem tomar o café da manhã,
pão,
requeijão, cappuccino feito por mim, e um raio de sol à
mesa.
Às vezes leio
o jornal, mas são tantas tragédias que desisto.
Fico de olho
no relógio, pela manhã ando em marcha lenta,
quase de ré
para a cama, uma atração fatal que devo lutar contra.
Minha
salvação é um banho morno, que leva embora esta moleza,
resquícios de
preguiça, me dá carga nova na bateria.
Por entre o
vapor surge uma nova mulher...
Escolho minha
roupa pelo astral do dia, visto-me com simplicidade
e com as
cores da minha alma, porque digo alguma coisa com esta
casca que me
envolve, expresso minha alegria ou a tristeza que me
abate.
Tenho minhas
manias, são poucas e não abro mão.
Mania de
limpeza, de arrumação, de cheiros bons pela casa, de um
sorriso de bom dia,
de felicidade que encontro junto
aos amigos verdadeiros ou virtuais.
Também curto
muito a minha solidão com vista para o rio e o pôr do
sol magnífico,
que me faz
flutuar pelo céu ... inspiração em busca de poesia.
Esta mania de
franqueza, de derramar emoções , não é muita gente que
gosta disso,
já perdi
amigos por este estilo despojado do meu pensar e dizer,
sem muita peneira nas palavras...
Mas a mentira
me causa violenta alergia !
Creio
firmemente que a fantasia é sempre pior que a realidade.
Por favor,
nunca me poupe com uma mentira, eu não te pouparei com a
minha verdade.
Podes até
oferecê-la em doses homeopáticas, mas eu quero
beber todo o vidro da verdade.
Se insistir
em mentir , eu me tornarei tóxica, indigesta, minha
docilidade se transformará em um amargo intenso,
terás
vertigens de saudade, porque, provavelmente nunca mais
me verás.
Lê a bula,
sou tão fácil de usar...
Fátima Pilla
Müller - novembro/2006