MEU DESEJO DE NATAL
O Natal sempre foi a festa mais linda e esperada
no ano, desde pequena a emoção tomava conta de mim
no início de dezembro, quando meu pai começava a
montar o presépio. Eu ficava fascinada olhando
aquela cidadezinha que ele criava sobre um móvel
na sala de jantar, e eu só conseguia enxergar na
pontinha dos pés. Com uma comovente dedicação,
ele construia a cidade de cerâmica com várias
casinhas típicas do interior, tinha um lago feito
de espelho, patinhos que eram alimentados com
milho, galinhas, grama picada de papel crepom,
areia de farinha, poço, uma igrejinha, diversos
personagens que realizavam tarefas típicas do
cotidiano.
Do outro lado da cidadezinha, que
deveria ter em torno de um metro e meio, ficavam
os personagens mais importantes. Nele estavam São
José, a Virgem Maria e a manjedoura, protegidos
por uma cabana de palha, que abrigava as vacas e
ovelhas, alguns pássaros no telhado, e era
colocada sob os ramos coloridos da árvore de
Natal. Para aumentar ainda mais o clima de encanto
e magia, todos os dias meu pai movia os
personagens, passo a passo, minha atenção se
voltava especialmente para os Reis Magos e os
presentes que carregavam para o Menino Jesus.
Isto porque eu sabia, que a medida
que eles se aproximavam da manjedoura, o Natal
também chegava com o nascimento do Menino Jesus. O
auge deste trajeto dos reis, ocorria quando eles
atravessavam a ponte que separava a manjedoura, e
uma brilhante estrela era colocada no cenário ,
avisando-os a direção que deveriam seguir. Aí eu
tinha a certeza que o Natal aconteceria, meu
coração já estava tomado de emoções e alegria que
se somavam a cada dia que meu pai exercia pequenos
gestos de amor e esperança naquele mágico espaço,
que culminava no aparecimento do Menino Jesus na
manjedoura.
Fomos criados neste magnífico espírito
de Natal, sem dar ênfase a presentes, afinal o
aniversariante era quem estava na manjedoura nos
dando uma mensagem de humildade, solidariedade e
amor incondicional. Claro que ganhávamos algumas
coisas com grande alegria, mas naquela época não
existia esta busca desenfreada pelo consumo, uma
imposta necessidade de demonstrar nossos afeto
através de presentes caros, que parecem serem os
únicos que tocam os corações atualmente...
Eu não consegui encontrar este presépio
para montar para os meus filhos no Natal , e lhes
repassar a verdadeira magia, do jeito lindo que eu
recebi do meu pai. Mas consegui implantar a idéia
de que Natal é solidariedade, que um dia um menino
chamado Jesus, nasceu para nos ensinar sobre o
amor ao próximo, e o quanto nossa felicidade se
multiplica quando aprendemos a repartir as bençãos
que temos. Por princípio, jamais lhes dei
presentes caros no Natal, justamente para que
cultivassem no coração os sentimentos verdadeiros
, que se sensibilizassem perante as dificuldades
das outras crianças que pouco ou nada recebem.
A estratégia funcionou, eles jamais me
pediram presentes caros, e algums vezes me
surpreenderam de um modo comovente, abrindo mão
dos presentes que queriam, para ajudar a
comprar um berço e o enxoval para o bebê de
uma adolescente grávida e humilde que convivia com
a gente. Depois deste episódio, sugeriram
separar alguns brinquedos com pouco uso e doar às
crianças carentes . A alegria foi tanta , que a
partir disto, todos os anos na véspera do Natal,
compramos alguns brinquedos, camisetas, biscoitos,
balas, livrinhos que empacotamos com papel
celofane e distribuímos nas sinaleiras onde se
encontram crianças que provavelmente, não irão
ganhar uma única lembrança no Natal.
Meu desejo de Natal é contagiar algumas
pessoas com este espírito de solidariedade, como
eu fui pelo meu pai, e consegui tocar o coração
dos meus filhos , que espero que façam o mesmo com
meus netos e assim por diante, para que jamais
esqueçam a comovente verdade que nos foi
presenteada, com o nascimento de um menino chamado
Jesus. Só quem teve o privilégio de compartilhar
singelas lembranças com crianças humildes, que não
tem árvore, nem luzinhas brilhantes, muito menos
presentes ou ceia, possam ter plantada em sua
vida, um pouquinho de esperança com nosso gesto de
compaixão.
Só mesmo quem já entregou um pacote
embrulhado de amor em uma esquina qualquer, para
uma criança faminta, sempre rejeitada, mal
arrumada, pode sentir a emoção que desperta em
nossa alma um gesto tão simples e recebe em troca
um olhar perplexo, repentinamente iluminado, os
braços agarrarram o presente com a força do medo
de ser roubada, ou que um segundo de sonho
magicamente realizado, possa se desfazer como
todos os outros que se desfazem para eles todos os
dias, em cada amanhecer.
Desejo a todos que aqui compartilham este
espaço, que parem "paralerepensar" em como fazer
um Natal ainda mais humano.
Que tenham uma árvore enfeitada com pingentes de
emoções quentes, abraços amorosos, sucesso em
todas as luzes, amores renovados, esperanças
salpicadas , desejos realizados, guirlandas de
alegria, saúde fortalecida,
solidariedade contagiando os corações e que cada
palavra escrita leve nossa vontade de fazer um
mundo melhor.
Fátima Pilla Muller - novembro de 2009.