A casa dos grandes pensadores
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

 

MORRO E NÃO VEJO TUDO
                     Sou completamente apaixonada pela minha profissão, analisar e decifrar o comportamento humano, é algo que me fascina. E, quanto mais o tempo passa, mais me surpreendo com a capacidade que as pessoas desenvolvem para justificar seus atos, especialmente os anti sociais. Assistindo à televisão, fiquei perplexa com a notícia de que um ladrão no interior do estado, roubou um carro e percebeu que no banco  traseiro, havia um menino de cinco anos dormindo. O ladrão indignado, ligou para a Brigada Militar "denunciando a irresponsabilidade dos pais da criança", comunicando o local onde havia deixado os dois.
                    Eu ria sozinha imaginando a cena, enquanto os comentaristas do jornal salientavam a "sensibilidade" do ladrão. Prestei atenção ao diálogo entre o delinquente e o policial que foi gravada e reproduzida. Em um orelhão o ladrão afirmava "falar com franqueza, reclamava para o policial que tinha ido roubar o carro, em frente a um bar , e o filho da ... do pai da criança, tinha deixado o menino dormindo dentro do carro ! Continuava furioso dizendo que era um absurdo e que da próxima vez, ele mataria o menino."
                   Bem se depois deste final incrível no diálogo, alguém ainda se emociona com a sensibilidade do ladrão, eu recolho meus escritos sobre o comportamento humano e vou cuidar de jibóias ou das ararinhas azuis . Francamente, o que mais me surpreende é que as pessoas não conseguem avaliar a gravidade da personalidade de um anti social, ou psicopata. Estas pessoas tem o mais grave transtorno de personalidade, e é intratável, incurável e irrecuperável, por um pequeno detalhe o superego deles é inativo. Ele se entrega sem defesa quando diz, que na próxima vez,  ele mata o menino.
                    Ter um superego inoperante, significa não sentir culpa pelos próprios atos inadequados, ser incapaz de efetuar uma crítica que pondere a dor ou o sofrimento alheio que se impõe à alguém. Cometer um ato infracionário e justificar com a maior segurança e arrogância é típico .Portanto, em uma análise objetiva e crua, o que menos contou nesta situação foi a sensibilidade do ladrão. Via de regra, os psicopatas são inteligentes, conhecem as minúcias da lei, e no caso em questão, ele deve saber que sequestro de menor dá uma encrenca danada.Roubo de carro, é fichinha, não dá nada !
                   Portanto, este aparente gesto de sensibilidade com o menino, foi uma brilhante vingança para com os pais, que atrapalharam o roubo do automóvel. Ele também conhece  o estatuto do menor, a Brigada Militar acionou o Conselho Tutelar, 
 após a denúncia, e os pais vão ter que se explicar  no mínimo, por negligência. Fazendo um balanço, o ladrão teve o roubo frustrado, mas não o revide com aqueles que impediram a realização de sua missão sorrateira.
                  O comportamento humano é realmente fascinante ! E como para nós, relativamente normais e portadores de crítica, por vezes, é difícil enxergarmos no outro, uma ameaça. Como é complexo vislumbrar no humano, aquilo que é desumano, cruel.Quantos de nós também já se comoveram com os psicopatas que se dão mal em suas investidas devastadoras e acabam com uma pena leve em júri popular, ou alguns que se transformam em ídolos, por mais contraditório que pareça, isto é humano.
Só não podemos jamais, nós apaixonarmos por um deles... Infelizmente, para este risco, não existe vacina.

Fátima Pilla Muller  setembro / 2008

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 17/09/2008