PERDAS... NEM SEMPRE
Um dos sofrimentos mais intensos
que compartilho com as pessoas que conheço, com
pacientes e amigos, é o sentimento de perda, em
especial a de um amor. O amor, e a paixão nos
transformam em seres melhores ou piores, dependendo da
qualidade deste sentimento e sua reciprocidade.
Existem pessoas com uma capacidade de tolerância
extremamente flexível com relação ao desrespeito em
uma relação, fingem que não percebem as traições,
criam subterfúgios para compensar de forma medíocre os
constantes ataques à auto estima. Se aparece uma
ameaça de perda, se desesperam, não a abraçam como um
real caminho para construir a felicidade, se enganam
porque estão reféns de algo que pensam ser amor.
Certamente, em um casal a
responsabilidade pelo sucesso e felicidade é meio a
meio, em alguns casos pode realmente existir um que
notadamente é doente de ciúme e exerce controle e
domínio sobre o parceiro.É agressivo, perverso nas
suas expressões distorcidamente amorosas, que chegam
as vias do espancamento. Sabemos que centenas de
mulheres são diariamente espancadas, se submetem a
prisão domiciliar, e apenas uma minoria tem a coragem
de denunciar formalmente o que vivem.
Este aspecto é um extremo das
relações, e poderíamos dizer que estes hematomas,
cortes, fraturas em dois ou tres meses, desaparecem
com tratamento caseiro. Mas e as fraturas emocionais ?
Os hematomas do ego e os cortes na auto estima ?
Infelizmente não existem medicamentos de ação rápida e
eficaz à disposição. Faz-se necessário um longo
trabalho de reconstrução emocional destas pessoas. O
amor transforma-se em apego, pela intensa fragilidade
emocional que estas pessoas possuem. Elas acreditam
que são incapazes de sobreviver a ausência do objeto
amado e por isto, se submetem a todo sadismo que dele
emana nas mais dissimuladas cruéis expressões do que
se acredita ser amor.
É um paradoxo observarmos que mulheres
mais jovens atualmente lideram as pesquisas. Com toda
a evolução feminina de autonomia e liberdade, não são
as mais velhas que se sujeitam a relações opressoras,
estas aprenderam rapidamente a pegar os filhos embaixo
do braço e pedir o divórcio. Não se prestam de jeito
nenhum a ficar num permanente estado de apreensão. De
preferência desaparecem para nunca mais serem
encontradas. As jovens imaturas e inseguras nas
histórias de amor, se mostram confusas, com a lucidez
obnubilada, engravidam na busca de uma solução mágica
mas infeliz, passam anos sendo escancaradamente
traídas, vistas com pena pelas amigas, se consolam com
presentes e viagens que para elas, pateticamente,
substituem o amor e o respeito que elas não recebem.
O cotidiano destas jovens é marcado por
sobressaltos aos toques do celular, incorporam o
comportamento de um angustiado detetive que vasculha
os passos do parceiro, emails, torpedos, vistoriam as
roupas, conferem a conta do cartão de crédito e os
lugares por onde ele diz que passa. Adquirem a idéia
fixa de descobrir quem é, ou quem são estas rivais em
potencial tornado-se capazes de adotar comportamentos
ridículos, agindo de modo patético com o qual
certamente, ele se diverte.
Creio que não é fácil para estas jovens,
parceiros que tem estes comportamentos compulsivos de
traição e agressividade sutil, são mestres na arte de
enganar o que torna muito difícil pegá-los em uma
situação que justifique o rompimento. Eles tem o
talento de gerar confusão na percepção de quem já está
fragilizada, afogada em dúvidas e ansiedade, e
dominada por um forte sentimento de menos valia e a
ameaça constente de humilhação . Quanto mais o tempo
passa, menos ela é capaz de enxergar. Os amigos dão
flagra mas não tem coragem de contar, os rivais se
deliciam e obtem uma vingança desejada, e assim, ele
conta com um exército de cúmplices fiéis.
Percebo esta situação com grande tristeza, o
amor é a experiência mais linda e gratificante que a
vida nos presenteia, todos temos o direito de vive-lo
plena e intensamente, de sorver dia a dia o sabor doce
que ele nos oferece, de colher abraços e sorrisos do
amanhecer ao cair da tarde, de exerce-lo em todas as
luas ardentemente. De reconstuir os sentimentos de
afeto quando ele ameaça esmorecer, de ter
reciprocidade, investimentos mútuos, surpresas
coloridas de paixão e alegria, solidariedade e
cumplicidade nos desafios. Somos dois, e os dois tem
sua cota de responsabilidade na manutenção do amor,
sedimentado pela confiança e respeito . Sem estes
ingredientes não existe amor, é uma alucinação do
desejo de amar e ser amado, não amor.
Então, respire fundo, faça uma reflexão tendo
em mãos teu amor próprio, teus sonhos e expectativas,
reavalie o que vives nos últimos tempos com quem tu
pensas que te ama, projeta daqui a dez anos esta
relação e busca decifrar teus verdadeiros sentimentos
e aquilo que recebes. Descobre como te sentes até lá,
o que te aguarda de parceria e a felicidade que poderá
te acompanhar até lá. Acredita na tua força, na
coragem de mudar e conquistar um amor autentico e
real. Se surpreendentemente surgir uma possibilidade
de perda... Aceita ! Não vacila, abre mão de todos
estes sentimentos falsos, dissimulados, te despe da
humilhação e do desprezo. Ninguém a não ser tu mesma,
será capaz de readiquirir o amor e o respeito por ti
mesma.
Existem perdas que são grandes ganhos...
Fátima Pilla Muller julho de 2009