A casa dos grandes pensadores
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

 

PESCANDO TRAÍRAS

                     Por essência e profissão, cresci acreditando no princípio de que todas as pessoas são boas e confiáveis até que se prove em contrário. Confesso que muito já apanhei, me decepcionei, fiquei em feridas, mas não curo em minha alma, esta tenacidade de crer no bem. De esperar convictamente que as pessoas buscam expressar o melhor de si no convívio, se por acaso, ocorrer um deslize na intenção ou no caráter, penso, ou quero acreditar que foi falta de sorte.

                    Atravessei quase uma mão de décadas nesta vida, por vezes, sinto-a  uma pescaria, que nos exige paciência, força, exímia habilidade, persistência no objetivo, a satisfação de um ardente desejo de se retirar da natureza, qualquer coisa que nos mate a fome. Da natureza humana, espero saciar a fome de solidariedade, do amor puro e incondicional, de sensibilidade e apoio nos momentos de ansiedade, de cumplicidade ao partilhar minha alegria ao abrir as portas de casa e do coração. Doação de energia, compreensão, um colo para sustentar a dor que não é minha.

                   Mas é justamente quando o mar não está para peixe, quando nos sentimos frágeis e desamparados, que percebemos o quanto nos encontramos sós na vastidão do oceano misterioso e turbulento que são nossas emoções, a própria vida. É neste exato momento, em que as próprias forças se esvaem, quando mais precisamos de um suporte chamado parceria, que não enxergamos nada, não ouvimos nada, e não há nada, além de nós mesmos para nos sustentar.

                  Temos poucas opções de sobrevivência nas crises que nos surpreendem, porque a esta altura, já levaram nosso barco, os remos e a bóia. Talvez nem tenham levado, na nossa ingenuidade, entregamos de bom grado, feito chuva em terra seca, acreditando em uma tal de solidariedade humana, que seríamos recompensados, caso houvesse necessidade. Triste ilusão daqueles que tem ainda um caráter  integro, imunes à corrupção,  que emprestam o cobertor e estendem a mão, se doam sem pedir nenhuma promissória assinada,  se arriscam pelos sonhos alheios, brigam, metem os peitos, chamusqueiam as estacas da própria estabilidade pela fé no que é justo.

                  Então percebemos que por longo tempo, o que pescamos no mar das ilusórias parcerias foram grandes traíras, caímos na rede enganosa dos falsos, repleta de atraentes iscas revestidas de cinismo,  tramada pela ingenuidade insensata daqueles que apanham das tempestades e não descobrem como se respira embaixo d'água. Um redemoinho nos envolve rapidamente e tonteia, questionamos entre golfadas, os valores que acreditamos, revivemos em segundos cada momento de doação, sacrifícios sinceros que nascem da paixão. Entre a perplexidade e o desespero, a exaustão nos abate.

              Mais nada se faz coerente daquilo que pensamos, e temos a apavorante sensação de morte, quando a gigantesca onda da decepção nos engole como que para sempre. Imóveis flutuando em oceânica solidão, pedimos em súplica que a corrente nos carregue para algum lugar de paz. Que lá exista um poderoso antídoto para esta insuportável dor . O tempo para, e o silêncio se torna ainda mais profundo, inaudíveis estão as batidas do coração. Vida e morte se confundem. A sorrateira loucura, espreita ameaçadoramente os agonizantes resquícios de lucidez . A frágil teia da existência é atiçada feito chama em vendaval.

               E toda a possibilidade de sobrevida, está contida nesta única chama, que se chama, esperança. Nela encontramos o seio que generosamente nos amamentou, os braços amados que  embalaram os sonhos, todos os sorrisos que iluminaram cada amanhecer, as palmas que recebemos por nossas conquistas, as palavras que elogiaram os passos firmes, os filhos que apaixonadamente parimos .Lentamente os olhos ganham nitidez e percebo a aproximação da luz que transborda do céu, meus ouvidos reconhecem a voz que pensei perdida a cantar minha música preferida. O ar me traz no perfume a presença de tudo aquilo que mais amo e em mim sintetiza o rebrotar da vida.

                O que fez-se  escuro e sem ar, tudo que ficou  imóvel e silencioso, como por encanto transforma-se na mais linda paisagem ensolarada. Uma cachoeira mata a sede da saudade do que senti desaparecido, caminhos cobertos de grama macia aguardam meus pés ansiosos por uma nova jornada. Posso escolher descansar entre o sol ou a sombra das frondosas árvores, colher as frutas maduras que há muito plantei e saciar minha sede de saborosos afetos. De repente, entre tanta harmonia e prazer , percebo o coração palpitar... Sinto medo...

             Quem sabe agora, finalmente triunfante se aproxima a morte,  única certeira parceira? Disfarçada de ilusão esperançosa. Ah não...lamento, mas por aqui não há mais espaço para os fins, escuridão ou traição. Há para reconstrução ! Procure outro cliente, indecente, qualquer um que atenda por traíra, mal amado, sempre do lado, veste-se de cínico e fingido, faz-se um sério amigo, o imoral. Será fácil encontrá-lo e tem aos montes por aí. Basta que jogues uma rede, ou apenas um anjo a tua volta , escolhe o mais atraente, divirtam-se muito, e esqueçam as nossas coordenadas. Certamente vocês serão loucamente felizes.

          Porque eu, senhora morte,  quero desesperada e intensamente viver. Não nos veremos tão cedo, garanto-lhe .Talvez sim, eu viverei ainda mais só, mais forte e corajosa,  porque cada vez mais eu acredito é em  mim, no amor e fé  que moram em mim.

        Fátima Pilla Muller - maio/ 2009

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 23/05/2009