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Por essência e
profissão, cresci acreditando no princípio de que todas as
pessoas são boas e confiáveis até que se prove em contrário.
Confesso que muito já apanhei, me decepcionei, fiquei em
feridas, mas não curo em minha alma, esta tenacidade de crer
no bem. De esperar convictamente que as pessoas buscam
expressar o melhor de si no convívio, se por acaso, ocorrer
um deslize na intenção ou no caráter, penso, ou quero
acreditar que foi falta de sorte.
Atravessei quase uma
mão de décadas nesta vida, por vezes, sinto-a uma pescaria,
que nos exige paciência, força, exímia habilidade,
persistência no objetivo, a satisfação de um ardente desejo
de se retirar da natureza, qualquer coisa que nos mate a
fome. Da natureza humana, espero saciar a fome de
solidariedade, do amor puro e incondicional, de
sensibilidade e apoio nos momentos de ansiedade, de
cumplicidade ao partilhar minha alegria ao abrir as portas
de casa e do coração. Doação de energia, compreensão, um
colo para sustentar a dor que não é minha.
Mas é justamente
quando o mar não está para peixe, quando nos sentimos
frágeis e desamparados, que percebemos o quanto nos
encontramos sós na vastidão do oceano misterioso e
turbulento que são nossas emoções, a própria vida. É neste
exato momento, em que as próprias forças se esvaem, quando
mais precisamos de um suporte chamado parceria, que não
enxergamos nada, não ouvimos nada, e não há nada, além de
nós mesmos para nos sustentar.
Temos poucas opções de
sobrevivência nas crises que nos surpreendem, porque a esta
altura, já levaram nosso barco, os remos e a bóia. Talvez
nem tenham levado, na nossa ingenuidade, entregamos de bom
grado, feito chuva em terra seca, acreditando em uma tal de
solidariedade humana, que seríamos recompensados, caso
houvesse necessidade. Triste ilusão daqueles que tem ainda
um caráter integro, imunes à corrupção, que emprestam o
cobertor e estendem a mão, se doam sem pedir nenhuma
promissória assinada, se arriscam pelos sonhos alheios,
brigam, metem os peitos, chamusqueiam as estacas da
própria estabilidade pela fé no que é justo.
Então percebemos que
por longo tempo, o que pescamos no mar das ilusórias
parcerias foram grandes traíras, caímos na rede enganosa dos
falsos, repleta de atraentes iscas revestidas de cinismo,
tramada pela ingenuidade insensata daqueles que apanham das
tempestades e não descobrem como se respira embaixo d'água.
Um redemoinho nos envolve rapidamente e tonteia,
questionamos entre golfadas, os valores que acreditamos,
revivemos em segundos cada momento de doação, sacrifícios
sinceros que nascem da paixão. Entre a perplexidade e o
desespero, a exaustão nos abate.
Mais nada se faz coerente
daquilo que pensamos, e temos a apavorante sensação de
morte, quando a gigantesca onda da decepção nos engole como
que para sempre. Imóveis flutuando em oceânica
solidão, pedimos em súplica que a corrente nos carregue para
algum lugar de paz. Que lá exista um poderoso antídoto para
esta insuportável dor . O tempo para, e o silêncio se torna
ainda mais profundo, inaudíveis estão as batidas do coração.
Vida e morte se confundem. A sorrateira loucura, espreita
ameaçadoramente os agonizantes resquícios de lucidez . A
frágil teia da existência é atiçada feito chama em vendaval.
E toda a possibilidade de
sobrevida, está contida nesta única chama, que se chama,
esperança. Nela encontramos o seio que generosamente nos
amamentou, os braços amados que embalaram os sonhos, todos
os sorrisos que iluminaram cada amanhecer, as palmas que
recebemos por nossas conquistas, as palavras que elogiaram
os passos firmes, os filhos que apaixonadamente parimos
.Lentamente os olhos ganham nitidez e percebo a aproximação
da luz que transborda do céu, meus ouvidos reconhecem a voz
que pensei perdida a cantar minha música preferida. O ar me
traz no perfume a presença de tudo aquilo que mais amo e em
mim sintetiza o rebrotar da vida.
O que fez-se escuro e
sem ar, tudo que ficou imóvel e silencioso, como por
encanto transforma-se na mais linda paisagem ensolarada. Uma
cachoeira mata a sede da saudade do que senti desaparecido,
caminhos cobertos de grama macia aguardam meus pés ansiosos
por uma nova jornada. Posso escolher descansar entre o sol
ou a sombra das frondosas árvores, colher as frutas maduras
que há muito plantei e saciar minha sede de saborosos
afetos. De repente, entre tanta harmonia e prazer , percebo
o coração palpitar... Sinto medo...
Quem sabe agora, finalmente
triunfante se aproxima a morte, única certeira parceira?
Disfarçada de ilusão esperançosa. Ah não...lamento, mas por
aqui não há mais espaço para os fins, escuridão ou traição.
Há para reconstrução ! Procure outro cliente, indecente,
qualquer um que atenda por traíra, mal amado, sempre do
lado, veste-se de cínico e fingido, faz-se um sério amigo, o
imoral. Será fácil encontrá-lo e tem aos montes por aí.
Basta que jogues uma rede, ou apenas um anjo a tua volta ,
escolhe o mais atraente, divirtam-se muito, e esqueçam as
nossas coordenadas. Certamente vocês serão loucamente
felizes.
Porque eu, senhora morte,
quero desesperada e intensamente viver. Não nos veremos tão
cedo, garanto-lhe .Talvez sim, eu viverei ainda mais só,
mais forte e corajosa, porque cada vez mais eu acredito é
em mim, no amor e fé que moram em mim.
Fátima Pilla Muller
- maio/ 2009
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Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 23/05/2009
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