A casa dos grandes pensadores
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

 

              
PLENITUDE
 
               É uma indescritível sensação que tem me acompanhado nos últimos tempos. Me pego rindo sozinha, me divirto com os detalhes, as sutilezas com desnuda  ansiedade, ao perceber que a vida agora, tem fluído exatamente como eu sonhei desde guria.Fiz tantos planos, incontáveis crises se apresentaram, adiei projetos que pareciam tão simples e eu compliquei. Procurei o amor por caminhos equivocados, mas me bastaram para distrair um ser angustiado por amor e paixão.
 
              Fez-se a paz após décadas. O coração bate suave, a solidão me esqueceu, descobri o encanto de me sentir bem, assim a sós, também.Os amigos são tão poucos, mas de tamanho quilate, que valem por cem. Presentes na vida e da vida, escuta segura, crítica construtiva, colo aconchegante, parceiros divertidos em noitadas onde faço do fogão, meu mágico caldeirão de comidinhas que aquecem as emoções, regadas por um vinho cor de sangue.
 
             Puro fascínio alcançar esta plenitude, imagino ser algo semelhante ao que sente a gurizada, naqueles saltos em pontes altíssimas, amarrados a uma corda,  e ficam pendurados de cabeça para baixo. A diferença é que eu estou de cabeça para cima, no prumo, não recebo uma enxurrada de adrenalina, a minha pinga gota a gota, dia a dia, não se desfaz num instante. A evolução nos permite intensas e duradouras emoções.Tem o dom de nos dar sensatez, uma auto estima forte, consistente que bloqueia qualquer ataque aos valores e ideais que cultivamos convictamente, quando somos fortes e corajosos.Eu fui.
 
            Neste estágio, sinto-me cúmplice de mim mesma, com aquela sensação de viver uma felicidade tão grande, que acredito ser necessário disfarçar para não provocar inveja. Caminhar devagarzinho para não acordar a tristeza. E comemorar ! Intensa e merecidamente a alegria de estar viva, com saúde, querida e  realizada, alforriada dos mal amados e depressivos. Sorver o prazer oceânico de ter nas mãos a alegria, de não mais se abater pelas picuinhas, tirar de letra os inconvenientes, escapar das armadilhas, antes de cair.
 
           Tudo isto me parece a descoberta de um grande segredo... Só tenho a certeza de que a felicidade existe, é linda, tem as cores de um por de sol, excitante e não importa em que tempo conquistamos esta certeza, o que realmente importa, é que possamos nos deliciar  com todas as surpresas que ela nos reserva ao longo da vida.
 
          Eu nunca tive medo da morte, talvez porque dizem que a gente morre do jeito que que a gente vive, e eu vivi até aqui com dignidade e respeito, com uma infinita gratidão por tudo que me foi dado até então. Vivi com um amor sólido e profundo por todos aqueles que me cercam, exerci com afinco a solidariedade, embora algumas vezes ludibriada, não perdi a esperança nem a fé no que é humano.
 
         Que emoção indescritível a de ver nossa vida passar feito um filme ao refletirmos, e sentir em cada poro a felicidade se esparramar sobre nosso corpo e alma. Perceber a justiça se instaurando em todas as situações que nos sentimos lesados, magoados e humilhados.Sempre existirá em nossa vida um momento de confrontro com nosso âmago, aquela velha história do balanço. Se tem algo que eu acredito piamente, cada vez mais, é a do que aqui se faz , aqui se paga. E como !
 
       Nada a ver com vingança ! Por favor , nem pense nisto, estou fora. É uma simples constatação de quem viveu algumas décadas com grande intensidade e devoção. Não há como fugir, lamento é a realidade. No entanto, sou uma incorrigível otimista, completamente apaixonada pela vida, se teu balanço está no negativo, parte para um plano de ação que o coloque no positivo. Te garanto, vale o investimento.

Fátima Pilla Muller

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 30/06/2010