AH ! QUE SAUDADE DA
BURRICE
Jamais pensei, até pouco tempo atrás, que eu
sentiria saudade da burrice, no sentido de ignorância,
do desconhecimento das coisas de gente vivida. Me
imaginava uma coroa extremamente feliz, uma "véia", como
diz meu filho, faceira da vida, esperando com alegria a
chegada dos netos e a renovação de expectativas.
Curtindo o crescimento da família em noras e genros,
planos e sonhos.
Sempre me imaginei trabalhando até morrer
naquilo que eu mais amo, a psicologia e o escrever, que
mais que um trabalho, é um imenso prazer, desafio que
nos faz pensar, crescer e amadurecer, amando ainda mais
a vida. Em devaneios me via rodeada de amigos de
décadas, leais companheiros, um amor construído dia a
dia, por longo tempo, inseparável e fiel parceiro.
Acontecem os vendavais e mudanças bruscas,
imprevisíveis, destroem alguns dos nossos sonhos, e
conseguimos parir a lucidez inevitável da
maturidade. Salpicada de decepções e dor , esta lucidez
se retraí em uma defesa desesperada de se proteger da
dor, do abalo no equilíbrio duramente conquistado.
Aprendemos a caminhar por estradas perigosas, trajetos
alternativos que desconhecíamos, a penetrar em terrenos
traiçoeiros, impulsionados pela necessidade de
sobrevivência.
Ah! Que saudade da burrice, da falta de percepção da
maldade humana, da doença que não se enxerga, do grito
de socorro que não se ouve, da dor que assola e não se
sente. Quem me dera que com toda esta experiência
gratificante de vida eu tivesse um bônus de ingenuidade
e esperança, para manter em meu ser , aquela crença
mágica da juventude de que tudo vai dar certo.
Já
sofri demais, já senti dor demais para que hoje eu seja
hipócrita . A vida é dura sim, e muito mais com os
sensíveis , com os lúcidos, com aqueles que tem empatia
com a humanidade, que se sensibilizam com as tragédias
do nosso cotidiano. Confesso que se eu pudesse escolher,
gostaria de não ser tão solidária, tão sensível,
comprometida com a saúde e a felicidade das pessoas. Sem
dúvida eu sofreria bem menos, mas viveria na
mediocridade também.
Apesar de tudo isto, das frustrações de descobrir que
meus amigos, não são amigos tão leais como pensei, meus
amores não são fiéis como acreditei, os colegas não
assumem os desafios como imaginei. Ídolos se desfazem no
tempo do amadurecimento, pessoas importantes se
revelaram frágeis, e de quem eu esperava um colo, tive
que dar o meu. Aceitei que isto é vida, é
amadurecimento, e eu teimosamente, continuo a crer que,
apesar de tudo é possível ser feliz.
A
maturidade me impõe a percepção da realidade, exatamente
cruel e mágica como ela é. E eu , embora sofra ao ver o
caos político em que nos encontramos, o desemprego em
massa que ameaça a estabilidade mínima que adquirimos, a
violência que nos torna reféns de nossos lares, as
drogas comandando como um governo paralelo, a saúde
agonizando em filas intermináveis, luto contra minha
própria lucidez, desesperadamente desejando acreditar
que é possível mudar este contexto aterrorizante.
Posso
de uma forma irônica, sentir saudade da minha
ignorância, tenho direito ! Preciso me poupar um pouco,
depois de tanto sofrimento. Tem gente que não
cresce quase nada e sofre tão pouco. Outros sofrem e
crescem demais para este mundo. Temos o direito de
escolher a intensidade da nossa lucidez, a sobrevida dos
nossos sonhos, a oxigenação da esperança. Sou teimosa e
não vou desistir de acreditar naquilo que chamamos do
bem, no potencial de solidariedade dos humanos, na
aposta incansável à fé e esperança de nosso
aprimoramento nesta passagem por aqui.
Fátima Pilla
Muller - agosto de 2007
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Publicação:
www.paralerepensar.com.br
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03/08/2007

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