A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

AH ! QUE SAUDADE DA BURRICE

            Jamais pensei, até pouco tempo atrás, que eu sentiria saudade da burrice, no sentido de ignorância, do desconhecimento das coisas de gente vivida. Me imaginava uma coroa extremamente feliz, uma "véia", como diz meu filho, faceira da vida, esperando com alegria a chegada dos netos e a renovação de expectativas. Curtindo o crescimento da família em noras e genros, planos e sonhos.

           Sempre me imaginei trabalhando até morrer naquilo que eu mais amo, a psicologia e o escrever, que mais que um trabalho, é um imenso prazer, desafio que nos faz pensar, crescer e amadurecer, amando ainda mais a vida. Em devaneios me via rodeada de amigos de décadas, leais companheiros, um amor construído dia a dia, por longo tempo, inseparável e fiel parceiro.

         Acontecem os vendavais e mudanças bruscas, imprevisíveis, destroem alguns dos nossos sonhos, e conseguimos parir a lucidez inevitável da maturidade. Salpicada de decepções e dor , esta lucidez se retraí em uma defesa desesperada de se proteger da dor, do abalo no equilíbrio duramente conquistado. Aprendemos a caminhar por estradas perigosas, trajetos alternativos que desconhecíamos, a penetrar em terrenos traiçoeiros, impulsionados pela necessidade de sobrevivência.

       Ah! Que saudade da burrice, da falta de percepção da maldade humana, da doença que não se enxerga, do grito de socorro que não se ouve, da dor que assola e não se sente. Quem me dera que com toda esta experiência gratificante de vida eu tivesse um bônus de ingenuidade e esperança, para manter em meu ser , aquela crença mágica da juventude de que tudo vai dar certo.

     Já sofri demais, já senti dor demais para que hoje eu seja hipócrita . A vida é dura sim, e muito mais com os sensíveis , com os lúcidos, com aqueles que tem empatia com a humanidade, que se sensibilizam com as tragédias do nosso cotidiano. Confesso que se eu pudesse escolher, gostaria de não ser tão solidária, tão sensível, comprometida com a saúde e a felicidade das pessoas. Sem dúvida eu sofreria bem menos, mas viveria na mediocridade também.

     Apesar de tudo isto, das frustrações de descobrir que meus amigos, não são  amigos tão leais como pensei, meus amores não são fiéis como acreditei, os colegas não assumem os desafios como imaginei. Ídolos se desfazem no tempo do amadurecimento, pessoas importantes se revelaram frágeis, e de quem eu esperava um colo, tive que dar o meu. Aceitei que isto é vida, é amadurecimento, e eu teimosamente, continuo a crer que, apesar de tudo é possível ser feliz.

     A maturidade me impõe a percepção da realidade, exatamente cruel e mágica como ela é. E eu , embora sofra ao ver o caos político em que nos encontramos, o desemprego em massa que ameaça a estabilidade mínima que adquirimos, a violência que nos torna reféns de nossos lares, as drogas comandando como um governo paralelo, a saúde agonizando em filas intermináveis, luto contra minha própria lucidez, desesperadamente desejando acreditar que é possível mudar este contexto aterrorizante. 

   Posso de uma forma irônica, sentir saudade da minha ignorância, tenho direito ! Preciso me poupar um pouco, depois de tanto sofrimento. Tem gente que não cresce quase nada e sofre tão pouco. Outros sofrem e crescem demais para este mundo. Temos o direito de escolher a intensidade da nossa lucidez, a sobrevida dos nossos sonhos, a oxigenação da esperança. Sou teimosa e não vou desistir de acreditar naquilo que chamamos do bem, no potencial de solidariedade dos humanos, na aposta incansável à fé e esperança de nosso aprimoramento nesta passagem por aqui. 

Fátima Pilla Muller  - agosto de 2007

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 03/08/2007