A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

QUE DROGA!
         Como psicóloga trabalho há mais de 20 anos com drogadições, compartilho com as famílias que me procuram para tratamento, um intenso e dramático sofrimento. São pessoas que perderam quase tudo, ou tudo, resta-lhes apenas um fio de dignidade para manterem-se vivos. Não existe uma política de saúde pública que de suporte , nem para o alcoolismo, muito menos para as drogadições. O último paciente que procurei internar pelo SUS, um trabalhador de respeito, precisou ficar três dias deitado no chão da recepção com um cobertor, para tentar conseguir uma vaga em um hospital.
       Não posso negar que sofri junto com os seus familiares, era inevitável . O pior de tudo, é que estas doenças ainda tem um conceito de "vício",de  "sem-vergonhice", e não como uma verdadeira doença, com predisposição genética e tratamento acessível. Observa-se a má vontade de muitos profissionais de saúde no atendimento a estes tipos de casos, como se estes pacientes fossem malandros, que não querem trabalhar e não merecem tratamento digno, como qualquer outro doente de diabetes ou insuficiência renal.
      Na verdade, me revolto com esta ignorância dos colegas da saúde, me indigino com a falta de esclarecimento e sensibilidade. Especialmente com o governo, que ainda não percebeu que o alcoolismo e as drogadições, são problemas de saúde pública. Os acidentes de trânsito, se bem avaliados, mostrarão esta realidade, assim como a violência urbana, é resultado direto, mas as estatísticas mascaram. Louvável prender traficantes, desmanchar pontos de drogas, mas e o dependente ? Ele é o responsável pela manutenção do tráfico, se não houver consumidor, não haverá quem venda as drogas. Simples... Raciocínio lógico, linear...A velha lei da oferta e da procura que não dá para revogar...
      No entanto parece algo inacessível. A idade para o início do consumo de drogas e álcool, é cada vez mais precoce, nos últimos anos, caiu de quatorze para doze anos. Imaginem que esta criança depois de dez anos, com vinte e dois, deverá contar apenas com uma pequena parcela de seus neurônios disponíveis, por eles se afogam no álcool e se destroem com a droga. Que estrutura este jovem irá contar para sua carreira profissional, que tipo de relações afetivas ele poderá estabelecer com recursos pessoais tão avariados ?
     Deixemos de ser hipócritas fechando pontes e viadutos, é o mesmo que fechar os olhos ou  os vidros do carro nas sinaleiras... Podemos fingir que fugimos do problema, mas eles nos esperam firmes na próxima esquina. Creio que sou uma pessoa valente e corajosa, não uso armas, mas confesso que muitas vezes não saio por medo de assalto, estupro e violência. Me sinto refém de uma ameaça que está diariamente nas páginas dos jornais, me dando a nítida impressão que eu posso ser a próxima vítima, e não é  novela não, é uma cruel realidade que estamos todos inseridos sem escolha.
   No mundo inteiro, existem comunidades terapêuticas para tratamento de alcoolistas e drogaditos, custeados pelo governo ou pela sociedade, com baixíssimo custo e com uma eficáfia de 93% para aqueles que permanecem por um ano em tratamento. Não consigo compreender, porque aqui no Brasil, onde nossos índices de dependentes são altos, não conseguimos criar estes recursos de tratamento. Já me disseram que este tipo de paciente "não dá voto "... Que absurdo ! Sem contestação.  Com grande tristeza eu diria as  pessoas que tem esta percepção, que a curto prazo, eles não terão mais eleitores, estarão todos sequelados, impedidos de votar.
  Faço um apelo à comunidade, unam-se para criar recursos para tratamento do alcoolismo e drogadições, exijam do governo  medidas, leitos hospitalares, comunidades terapêuticas, atendimento digno e eficaz, apoio aos familiares, não se conformem com as negativas de atendimento, manifestem sua indignação, comuniquem o mau acolhimento, protestem, demonstrem a dor de se ter alguém querido e não ser atendido em função da ignorância e do preconceito.
Fátima  Pilla Muller
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 28/05/2007