- Como psicóloga trabalho há mais de 20 anos com
drogadições, compartilho com as famílias que me procuram
para tratamento, um intenso e dramático sofrimento. São
pessoas que perderam quase tudo, ou tudo, resta-lhes apenas
um fio de dignidade para manterem-se vivos. Não existe uma
política de saúde pública que de suporte , nem para o
alcoolismo, muito menos para as drogadições. O último
paciente que procurei internar pelo SUS, um trabalhador de
respeito, precisou ficar três dias deitado no chão da
recepção com um cobertor, para tentar conseguir uma vaga em
um hospital.
- Não posso negar que sofri junto com os seus
familiares, era inevitável . O pior de tudo, é que estas
doenças ainda tem um conceito de "vício",de "sem-vergonhice",
e não como uma verdadeira doença, com predisposição genética
e tratamento acessível. Observa-se a má vontade de muitos
profissionais de saúde no atendimento a estes tipos de
casos, como se estes pacientes fossem malandros, que não
querem trabalhar e não merecem tratamento digno, como
qualquer outro doente de diabetes ou insuficiência renal.
- Na verdade, me revolto com esta ignorância dos
colegas da saúde, me indigino com a falta de esclarecimento
e sensibilidade. Especialmente com o governo, que ainda não
percebeu que o alcoolismo e as drogadições, são problemas de
saúde pública. Os acidentes de trânsito, se bem avaliados,
mostrarão esta realidade, assim como a violência urbana, é
resultado direto, mas as estatísticas mascaram. Louvável
prender traficantes, desmanchar pontos de drogas, mas e o
dependente ? Ele é o responsável pela manutenção do tráfico,
se não houver consumidor, não haverá quem venda as drogas.
Simples... Raciocínio lógico, linear...A velha lei da oferta
e da procura que não dá para revogar...
- No entanto parece algo inacessível. A idade para o
início do consumo de drogas e álcool, é cada vez mais
precoce, nos últimos anos, caiu de quatorze para doze anos.
Imaginem que esta criança depois de dez anos, com vinte e
dois, deverá contar apenas com uma pequena parcela de seus
neurônios disponíveis, por eles se afogam no álcool e
se destroem com a droga. Que estrutura este jovem irá contar
para sua carreira profissional, que tipo de relações
afetivas ele poderá estabelecer com recursos pessoais
tão avariados ?
- Deixemos de ser hipócritas fechando pontes e
viadutos, é o mesmo que fechar os olhos ou os vidros do
carro nas sinaleiras... Podemos fingir que fugimos do
problema, mas eles nos esperam firmes na próxima esquina.
Creio que sou uma pessoa valente e corajosa, não uso armas,
mas confesso que muitas vezes não saio por medo de assalto,
estupro e violência. Me sinto refém de uma ameaça que está
diariamente nas páginas dos jornais, me dando a nítida
impressão que eu posso ser a próxima vítima, e não é novela
não, é uma cruel realidade que estamos todos inseridos sem
escolha.
- No mundo inteiro, existem comunidades terapêuticas
para tratamento de alcoolistas e drogaditos, custeados pelo
governo ou pela sociedade, com baixíssimo custo e com uma
eficáfia de 93% para aqueles que permanecem por um ano em
tratamento. Não consigo compreender, porque aqui no Brasil,
onde nossos índices de dependentes são altos, não
conseguimos criar estes recursos de tratamento. Já me
disseram que este tipo de paciente "não dá voto "... Que
absurdo ! Sem contestação. Com grande tristeza eu diria as
pessoas que tem esta percepção, que a curto prazo, eles não
terão mais eleitores, estarão todos sequelados, impedidos de
votar.
- Faço um apelo à comunidade, unam-se para criar
recursos para tratamento do alcoolismo e drogadições, exijam
do governo medidas, leitos hospitalares, comunidades
terapêuticas, atendimento digno e eficaz, apoio aos
familiares, não se conformem com as negativas de
atendimento, manifestem sua indignação, comuniquem o mau
acolhimento, protestem, demonstrem a dor de se ter alguém
querido e não ser atendido em função da ignorância e do
preconceito.
Fátima Pilla Muller
-
-
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
-
28/05/2007

 |
|