A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

RECEITA PARA CRIAR MONSTRINHOS
 
                Esta semana fui ao shopping fazer compras com minha filha e deparei-me com uma cena dantesca, a ponto de me sentir impulsionada a escrever esta crônica, como uma forma de alerta ou quem sabe, para aliviar a angústia deflagrada por ela. Eu me encontrava em uma grande loja, cheia de gente por todos os lados, quando ouço uma senhora relativamente jovem, bem vestida,  alterar a voz com uma  linda menina de cabelos dourados e encaracolados, que trazia no colo e que devia ter em torno de 4 anos de idade.
              Assim como eu, algumas pessoas se viraram em direção à ela , enquanto a senhora repetia para a menina, em alto e bom tom :" Te comporta ou eu vou subir até o 6o. andar e te jogar lá embaixo ". Não sei quem tinha no rosto a expressão mais aterrorizada, nós os adultos que escutamos a frase sem crer no que ouvíamos, ou a criança no colo da mãe expressando verdadeiro pavor.
             Minha vontade foi de interferir imediatamente, pegar a menina no colo e conversar, acalmá-la dizendo que a mamãe devia estar estressada, ou algo assim. Na verdade, quem devia ser arremessada era a mãe, porque francamente, uma mulher com a filha no colo, em um lugar público que tem a coragem e o destempero de dizer algo assim, usando como ameaça uma situação que comoveu o país inteiro, só pode ser uma desequilibrada. Imaginei o que ela é capaz de fazer entre quatro paredes da casa, na ausência de testemunhas. Fui tomada de um mal estar intenso, e enquanto eu tentava reorganizar meus pensamentos e ações , ela desapareceu dentro da loja, em meio à multidão.
           Não consegui resgatar meus pensamentos daquela cena, fiquei por horas refém das palavras que aquela mulher, havia dito para uma criança de 4 anos, que em resumo, foi uma ameaça de morte, abertamente denunciada sem o menor pudor. Nada do que aquela criança possa ter feito ali na loja,ou em qualquer outro lugar,  justifica receber uma ameaça de morte, por parte da mãe. É uma cena tão absurda, que pode parecer irreal, mas haviam testemunhas , inúmeras, que como eu, ficaram paradas, perplexas, sem ação frente a uma agressão desmedida com uma criança.
          Esta é uma receita de como criar monstrinhos, e monstros futuramente. Assim se produz pessoas desequilibradas, jovens deliquentes, adultos que cometem crimes absurdos, estes se desenvolvem facilmente, apenas adicionando à educação alguns ingredientes . Basta dar-lhes orientações agressivas, incompatíveis com a realidade, triturá-los na auto estima, ter como pais atitudes incoerentes com o discurso, provocar a falta de confiança e segurança na família, evite dizer a verdade, invente estórias incríveis para intimidá-lo, não o escute, nem incentive a reflexão perante os erros.  É infalível, tanto quanto a ameaça de espancamento e morte constante. Ignore aonde eles vão à noite, não conheça os amigos dele, se esquive das reuniões na escola, não olhe o que ele curte na internet, não se mostre interessado pelas coisas que ele gosta, jamais o monitore.
        Eu creio na essência boa do der humano, e não conseguiria defender um assassino cruel, porque do outro lado houve uma morte, algo irrecuperável. Sou psicóloga e não advogada, procuro entender a motivação inconsciente que leva às pessoas a agirem de determinada maneira, inclusive em um crime. Pela minha experiência clínica, nenhum delito nasce de geração espontânea. Por trás há uma história de maus tratos, de desamparo, falta de limites, abandono moral e ou material, existe um criminoso em potencial. Exatamente porque ele só vai retribuir à família e a sociedade  aquilo que ele recebeu e teve a alma alimentada.
       A grande sacada é que o desfecho desta história de educar, está nas nossas mãos e nas atitudes como pais. Querendo ou não, nós somos sim, os grandes responsáveis por nossos filhos,sua conduta e desempenho. Com algum desconto da genética, uma parte mínima, ou um acidente de percurso, devemos assumir a maneira como manejamos as rédeas no curso da educação. O que muitas vezes é considerado bobagem pelos pais, atitudes que as crianças não percebem ou pouco entendem, são justamente aquelas que marcam e direcionam o caráter de um filho. Nunca subestimem a capacidade de uma criança, por menor que seja, de compreender e assimilar exemplos incoerentes e perversos que são dados pelos pais.
      Compete a cada um de nós uma escolha, queremos criar pessoas ou monstrinhos ? O que temos dentro de nós para ser transmitido ? Amor, verdade, ternura, justiça, ou um turbilhão de confusos e agressivos sentimentos que somos incapazes de domar e administrar. Fico pensando no que sentiu aquela garotinha no colo da mãe, ao ouvir que havia uma possibilidade de ser jogada do 6o. andar do shopping, por um motivo que ela não consegue nem dimensionar ! No entanto a criança armazena a carga de agressividade e a idéia de destruição e morte  contida naquelas palavras. Quantas outras mensagens de igual desespero moram dentro dela e mais dia, menos dia, certamente virão à tona cobrar um preço muito alto.
      Sem dúvida, educar é a tarefa mais emocionante e desafiadora de um ser humano, o premio está na gratificação filogenética,
em se obter , de alguma forma,  a eternidade através da paternidade. É um ato de doação cotidiana, exercício de paciência e bom senso, construção e reconstrução de valores com firmeza incansável. A vida nos presenteia com a benção de cuidarmos de outra vida e dela recebermos as maiores e mais intensas emoções, a começar pelo abraço apertado e repleto de gratidão de um filho. Mas só teremos isto depois de darmos muitos e verdadeiros abraços de amor e de limites em um filho.
Fátima Pilla Muller     -     abril de 2008
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 23/04/2008