RECEITA PARA CRIAR MONSTRINHOS
- Esta semana fui ao shopping fazer
compras com minha filha e deparei-me com uma cena
dantesca, a ponto de me sentir impulsionada a escrever
esta crônica, como uma forma de alerta ou quem sabe, para
aliviar a angústia deflagrada por ela. Eu me encontrava em
uma grande loja, cheia de gente por todos os lados, quando
ouço uma senhora relativamente jovem, bem vestida,
alterar a voz com uma linda menina de cabelos dourados e
encaracolados, que trazia no colo e que devia ter em torno
de 4 anos de idade.
- Assim como eu, algumas pessoas se
viraram em direção à ela , enquanto a senhora repetia para
a menina, em alto e bom tom :" Te comporta ou eu vou subir
até o 6o. andar e te jogar lá embaixo ". Não sei quem
tinha no rosto a expressão mais aterrorizada, nós os
adultos que escutamos a frase sem crer no que ouvíamos, ou
a criança no colo da mãe expressando verdadeiro pavor.
- Minha vontade foi de interferir
imediatamente, pegar a menina no colo e conversar,
acalmá-la dizendo que a mamãe devia estar estressada, ou
algo assim. Na verdade, quem devia ser arremessada era a
mãe, porque francamente, uma mulher com a filha no colo,
em um lugar público que tem a coragem e o destempero de
dizer algo assim, usando como ameaça uma situação que
comoveu o país inteiro, só pode ser uma desequilibrada.
Imaginei o que ela é capaz de fazer entre quatro paredes
da casa, na ausência de testemunhas. Fui tomada de um mal
estar intenso, e enquanto eu tentava reorganizar meus
pensamentos e ações , ela desapareceu dentro da loja, em
meio à multidão.
- Não consegui resgatar meus pensamentos
daquela cena, fiquei por horas refém das palavras que
aquela mulher, havia dito para uma criança de 4 anos, que
em resumo, foi uma ameaça de morte, abertamente denunciada
sem o menor pudor. Nada do que aquela criança possa ter
feito ali na loja,ou em qualquer outro lugar, justifica
receber uma ameaça de morte, por parte da mãe. É uma cena
tão absurda, que pode parecer irreal, mas haviam
testemunhas , inúmeras, que como eu, ficaram paradas,
perplexas, sem ação frente a uma agressão desmedida com
uma criança.
- Esta é uma receita de como criar
monstrinhos, e monstros futuramente. Assim se produz
pessoas desequilibradas, jovens deliquentes, adultos que
cometem crimes absurdos, estes se desenvolvem
facilmente, apenas adicionando à educação alguns
ingredientes . Basta dar-lhes orientações agressivas,
incompatíveis com a realidade, triturá-los na auto estima,
ter como pais atitudes incoerentes com o discurso,
provocar a falta de confiança e segurança na família,
evite dizer a verdade, invente estórias incríveis para
intimidá-lo, não o escute, nem incentive a reflexão
perante os erros. É infalível, tanto quanto a ameaça de
espancamento e morte constante. Ignore aonde eles vão à
noite, não conheça os amigos dele, se esquive das reuniões
na escola, não olhe o que ele curte na internet, não se
mostre interessado pelas coisas que ele gosta, jamais o
monitore.
- Eu creio na essência boa do der humano, e não
conseguiria defender um assassino cruel, porque do outro
lado houve uma morte, algo irrecuperável. Sou psicóloga e
não advogada, procuro entender a motivação inconsciente
que leva às pessoas a agirem de determinada maneira,
inclusive em um crime. Pela minha experiência clínica,
nenhum delito nasce de geração espontânea. Por trás há uma
história de maus tratos, de desamparo, falta de limites,
abandono moral e ou material, existe um criminoso em
potencial. Exatamente porque ele só vai retribuir à
família e a sociedade aquilo que ele recebeu e teve a
alma alimentada.
- A grande sacada é que o desfecho desta história
de educar, está nas nossas mãos e nas atitudes como pais.
Querendo ou não, nós somos sim, os grandes responsáveis
por nossos filhos,sua conduta e desempenho. Com algum
desconto da genética, uma parte mínima, ou um acidente de
percurso, devemos assumir a maneira como manejamos as
rédeas no curso da educação. O que muitas vezes é
considerado bobagem pelos pais, atitudes que as crianças
não percebem ou pouco entendem, são justamente aquelas que
marcam e direcionam o caráter de um filho. Nunca
subestimem a capacidade de uma criança, por menor que
seja, de compreender e assimilar exemplos incoerentes e
perversos que são dados pelos pais.
- Compete a cada um de nós uma escolha, queremos
criar pessoas ou monstrinhos ? O que temos dentro de nós
para ser transmitido ? Amor, verdade, ternura, justiça, ou
um turbilhão de confusos e agressivos sentimentos que
somos incapazes de domar e administrar. Fico pensando no
que sentiu aquela garotinha no colo da mãe, ao ouvir que
havia uma possibilidade de ser jogada do 6o. andar do
shopping, por um motivo que ela não consegue nem
dimensionar ! No entanto a criança armazena a carga de
agressividade e a idéia de destruição e morte contida
naquelas palavras. Quantas outras mensagens de igual
desespero moram dentro dela e mais dia, menos dia,
certamente virão à tona cobrar um preço muito alto.
- Sem dúvida, educar é a tarefa mais emocionante e
desafiadora de um ser humano, o premio está na
gratificação filogenética,
- em se obter , de alguma forma, a eternidade através
da paternidade. É um ato de doação cotidiana, exercício de
paciência e bom senso, construção e reconstrução de
valores com firmeza incansável. A vida nos presenteia com
a benção de cuidarmos de outra vida e dela recebermos as
maiores e mais intensas emoções, a começar pelo abraço
apertado e repleto de gratidão de um filho. Mas só teremos
isto depois de darmos muitos e verdadeiros abraços de amor
e de limites em um filho.
Fátima Pilla Muller - abril de 2008
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Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 23/04/2008

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