REENCONTROS
Quando ouço alguém falar em reencontro, a primeira
sensação que me tráz, é a de um coração em
disparada, inúmeros sentimentos brotam feito pipoca
em panela quente. Lembranças gostosas passam
vagarosamente pela memória e recriamos no agora , o
tempo passado. Sentimos vivos os abraços, beijos,
risadas soltas e as emoções vão se instalando ...
Colho no espaço os olhares, recupero os cheiros,
desembrulho os poemas lidos, canto as nossas músicas
e tiro a poeira do que se encontrava quase
esquecido.
Cada minuto que passa ao me aproximar do reencontro,
me pego imaginando o que restou de tudo que
compartilhamos. Um turbilhão me tonteia, volto a me
sentir ancorada em um tempo passado . Aguardo o
momento envolve sufocante ansiedade, o relógio me
fita e os minutos adquirem caras de
horas ...Perguntas bombardeiam a razão, na inútil
tentativa de amenizar a ansiedade da espera, procuro
antecipar o cenário para ter a certeza de que tudo
vai dar certo, mesmo tendo a convicção de que nada
pode dar certo. Mas cá prá nós, me deixem com a
minha ilusão... Nem mesmo sei de que.
Reencontros são incógnitas... Independente do tempo
que se passou, o que conta são os desejos que
permanecem vivos e atualizados, borbulhando aqui
dentro, transitam por nossas células em uma
deliciosa liberdade de quem fez parte de nós. Algo
que percorre sem censura, guarda secretos segredos,
fantasias que jamais aconteceram e me parecem tão
reais. Porque para mim são e serão sempre reais,
tamanha é a força de criação do desejo... Fantasia
alucinatória do desejo.
Poucas emoções nesta vida podem ser tão maravilhosas
como as que brotam nos reencontros, de pessoas
amadas, outras queridas, às vezes, mesmo aquelas que
nos feriram em um tempo de baixo astral e nos
reencontram radiante, é uma sensação de triunfo
sobre a dor, o desprezo, é simplesmente magnífica.
Humanamente falando, melhor ainda se ela não estiver
tão bem, afinal o mundo dá voltas e aqui se faz,
aqui se paga ! Acredito demais nesta lei
universal que entendo como uma preciosa idéia de
justiça.
É
uma sensação que me faz flutuar... Quando percebo
que alguém que foi tão amado, por quem perdi muitas
noites de sono, que eu investi minha energia amorosa
com infinita devoção, enquanto durou fui encantada,
apaixonada até que a mágoa e a ingratidão nos
separasse, reencontro, e não sinto absolutamente
nada. Verdadeira alforria, bendito teste de
realidade que nos devolve a paz. Faço as pazes
comigo e me perdoo pelo investimento perdido e acabo
descobrindo que o prejuízo foi mais dele do que o
meu, com certeza.
Ninguém gosta de se sentir humilhado e por
temperamento ou bom senso, ficar calado, quando
sofremos um abandono , uma traição, é inevitável
desejar que quem magoou, pague dobrado. Até
acontecer o reencontro...Inesperado ! Claro
que estes são inesperados, chegam assim num susto,
paralizante. Ficamos imóveis ou caímos na risada,
não há maiores alternativas. Tem gente que passa um
longo tempo ensaiando esta possibilidade, decora as
palavras que devem ser ditas, os gestos que quer
fazer, treina o olhar de mais puro desprezo... Na
hora "H" todo o empenho em um ensaio perfeito,
desaba em
uma bela tremedeira !
Desconcertante imprevisto ensaiado, que nos derruba
implacavelmente , as feridas assumem o comando da
cena. Do nada, um facho de luz se instaura, a coragem
se faz presente , milagrosamente nos recompomos,
damos literalmente a volta por cima, a justiça se
instaura.
Agora
quando o reencontro contém apenas a convicção do
amor que existiu, merece que renasçam todas as mais
intensas emoções e desejos, como se tivéssemos nos
separado ontem . O perdão está implícito,
independente dos motivos que nos levaram a
separação, porque eles serviram apenas para aquele
momento, hoje já não tem mais razão de ser, o tempo
e a lucidez se encarregaram de diluir a força
destrutiva daquele instante.O amor patrola a dor , o
desejo aniquila todo o rancor...
Resta
a restauradora saudade, o desejo faminto de amor, de
braços grudados, quando se retoma a palavra do ponto
onde o ápice era o amor, do silêncio falante de
paixão, quando os olhares contém todos os segredos
que deixamos de dizer, e agora é o momento de
expressar, o mais depurado de tudo que guardamos.
Reencontrar para recuperar o que não tivemos a
maturidade de construir, e compreensão para decifrar,
a ousadia para levar adiante. Reencontros são uma
oportunidade única de resgatarmos, apaixonadamente
tudo aquilo que deixamos escapar.
Fátima Pilla Muller -
21 de agosto de 2009.