A casa dos grandes pensadores
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

 

REENCONTROS
 
                      Quando ouço alguém  falar em reencontro, a primeira sensação que me tráz, é a de um coração em disparada, inúmeros sentimentos brotam feito pipoca em panela quente. Lembranças gostosas passam vagarosamente pela memória e recriamos no agora , o tempo passado. Sentimos vivos os abraços, beijos, risadas soltas e as emoções vão se instalando ... Colho no espaço os olhares, recupero os cheiros, desembrulho os poemas lidos, canto as nossas músicas e tiro a poeira do que se encontrava quase esquecido.
 
                     Cada minuto que passa ao me aproximar do reencontro, me pego imaginando o que restou de tudo que compartilhamos. Um turbilhão me tonteia, volto a me sentir ancorada em um tempo passado . Aguardo o momento envolve  sufocante  ansiedade, o relógio me fita e os minutos adquirem  caras de horas ...Perguntas bombardeiam a razão, na inútil tentativa de amenizar a ansiedade da espera, procuro antecipar o cenário para ter a certeza de que tudo vai dar certo, mesmo tendo a convicção de que nada pode dar certo. Mas cá prá nós, me deixem com a minha ilusão... Nem mesmo sei de que.
 
                    Reencontros são incógnitas... Independente do tempo que se passou, o que conta são os desejos que permanecem vivos e atualizados, borbulhando aqui dentro,  transitam por nossas células em uma deliciosa liberdade de quem fez parte de nós. Algo que  percorre sem censura, guarda secretos segredos, fantasias que jamais aconteceram e me parecem tão reais. Porque para mim são e serão sempre reais, tamanha é a força de criação do desejo... Fantasia alucinatória do desejo.
 
                     Poucas emoções nesta vida podem ser tão maravilhosas como as que brotam nos reencontros, de pessoas amadas, outras queridas, às vezes, mesmo aquelas que nos feriram em um tempo de baixo astral e nos reencontram radiante, é  uma sensação de triunfo sobre a dor, o desprezo, é simplesmente magnífica. Humanamente falando, melhor ainda se ela não estiver tão bem, afinal o mundo dá voltas e aqui se faz, aqui se paga ! Acredito demais nesta lei universal que entendo como uma preciosa idéia de justiça.
 
                    É uma sensação que me faz flutuar... Quando percebo que alguém que foi tão amado, por quem perdi muitas noites de sono, que eu investi minha energia amorosa com infinita devoção, enquanto durou fui encantada, apaixonada até que a mágoa e a ingratidão nos separasse, reencontro, e não sinto absolutamente nada. Verdadeira alforria, bendito teste de realidade que nos devolve a paz. Faço as pazes comigo e me perdoo pelo investimento perdido e acabo descobrindo que o prejuízo foi mais dele do que o meu, com certeza.
 
                    Ninguém gosta de se sentir humilhado e por temperamento ou bom senso, ficar calado, quando sofremos um abandono , uma traição, é inevitável desejar que quem magoou, pague dobrado. Até acontecer o reencontro...Inesperado ! Claro que estes são inesperados, chegam assim num susto, paralizante. Ficamos imóveis ou caímos na risada, não há maiores alternativas. Tem gente que passa um longo tempo ensaiando esta possibilidade, decora as palavras que devem ser ditas, os gestos que quer fazer, treina o olhar de mais puro desprezo... Na hora "H" todo o empenho em um ensaio perfeito, desaba em
uma bela tremedeira ! Desconcertante imprevisto ensaiado, que nos derruba implacavelmente , as feridas assumem o comando da cena. Do nada, um facho de luz se instaura, a coragem se faz presente , milagrosamente nos recompomos, damos literalmente a volta por cima, a justiça se instaura.
 
                   Agora quando o reencontro contém apenas a convicção do amor que existiu, merece que renasçam todas as mais intensas emoções e desejos, como se tivéssemos nos separado ontem . O perdão está implícito, independente dos motivos que nos levaram a separação, porque eles serviram apenas para aquele momento, hoje já não tem mais razão de ser, o tempo e a lucidez se encarregaram de diluir a força destrutiva daquele instante.O amor patrola a dor , o desejo aniquila todo o rancor...
 
                   Resta a restauradora saudade, o desejo faminto de amor, de braços grudados, quando se retoma a palavra do ponto onde o ápice era o amor, do silêncio falante de paixão, quando os olhares contém todos os segredos que deixamos de dizer, e agora é o momento de expressar, o mais depurado de tudo que guardamos. Reencontrar para recuperar o que não tivemos a maturidade de construir, e compreensão para decifrar, a ousadia para levar adiante. Reencontros  são uma oportunidade única de resgatarmos, apaixonadamente tudo aquilo que deixamos escapar.
 
Fátima Pilla Muller - 21 de agosto de 2009.
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 24/08/2009