A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

SERÁ QUE EU FIZ A MINHA PARTE ?

            Sinto-me abatida e decepcionada, como milhares de pessoas neste país. Aqui na minha terra, Rio Grande do Sul, o povo está silencioso, as manifestações são caladas e transmitem o peso e a cor da dor de um luto que vem sendo construído há tempo, pelo desemprego, a falência do estado, a violência, escândalos de corrupção, e todas as tragédias que impactam nosso cotidiano.

O acidente aéreo foi o ápice de uma ferida que  vem sangrando a galope .

            Passei boa parte da minha vida, dedicando-me ao aperfeiçoamento profissional, me mantinha afastada das questões políticas, até que dei-me conta que deveria fazer algo mais. Surgiu a oportunidade de coordenar uma campanha política de um amigo, o qual tem toda a minha admiração. Dediquei-me meses ao trabalho voluntário, enfrentando madrugadas de frio, vilas escuras, conhecendo um outro lado de nossa sociedade, com o intuito de fazer algo mais por esta terra, me responsabilizando por uma pequena parcela no futuro dos acontecimentos.

          Aprendi demais e dolorosamente a caminhar pelos labirintos da política deste país. Não há um canto sem corrupção! O que decide é o poder econômico do candidato, e todos as esmolas eletrônicas que ele poderá pagar, antes e depois de uma eleição. Não era o nosso caso. Nosso povo é sofrido demais para refletir sobre escolhas políticas, ele quer comida na mesa! E, assim, homens corruptos e incompetentes, se elegem para construir os caminhos que iremos trilhar. Isto é sim, responsabilidade de cada um de nós, que direta ou indiretamente escolhem de forma irreverente.

       No Pan vaiei pela TV o presidente, junto com aquela multidão de insatisfeitos, que embora de uma classe social privilegiada, estão conseguindo perceber a gravidade do contexto político em que nos encontramos. Estão indignados com o deboche para com o povo, a irresponsabilidade e o descaso com a vida das pessoas que diariamente são ameaçadas pela violência, insegurança, desemprego, e desespero frente à falta de oportunidade de sobreviver com dignidade.

     Estou de luto por um amigo que morreu no acidente aéreo, um empresário admirável, mas meu luto é ainda maior pela esperança que está agonizando em minha alma. Visto minhas perspectivas de negro, porque não vejo possibilidades de emprego, porque não enxergo as pessoas se comprometendo com seriedade, porque ninguém reage com determinação ao saque diário que os políticos efetuam nos nossos sonhos de realização e estabilidade. Sempre que estoura um grande escândalo político, vem uma Copa , um Pan para distrair o povo e diluir a ira popular.

     Eu queria acreditar que tinha feito a minha parte...  

Fátima Pilla Muller  - julho de 2007

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 31/07/2007