Uma Vida De Final de Novela
Creio
ter chegado à metade da minha vida, sempre com muita
batalha, dedicação a tudo que faço, com qualidade e
austeridade, alegria e muita emoção. Sinto-me
realizada como mulher, mãe, amante e profissional, fui
amiga leal dos meus amigos, esposa fiel dos meus
amores, profissional ética e competente. Até agora,
levei a vida com esperança , solidária com a
humanidade e sensível aos problemas da mãe Terra.
Nestas décadas
percorridas, o que mais me magoou foram as injustiças
, aquele sentimento de desvalorização dos nossos
investimentos amorosos, a desqualificação do nosso
comprometimento, o fracasso daquilo que acreditávamos
ter tudo para dar certo, a deslealdade de pessoas que
julgávamos amigos. Cada perda criou em mim , um rombo
que não pude preencher, fazem parte do meu ser. Sinais
de alerta... Lembro-me de sentir uma dor intensa,
aquele rasgo no peito, a falta de chão. Foram momentos
infindáveis de decepção, pareciam que jamais
acabariam, ou não me permitiriam amar e confiar outra
vez.
A gente cresce e tem a
ilusão de que criou casquinha, que novas feridas não
vão nascer. Uma amnésia defensiva e saudável, reabre
portas com coragem e determinação. Ousamos reinvestir
na vida, nos amores e amigos, incrementamos a
solidariedade e a generosidade, até com quem está
longe de nós. Mas o tempo não é vacina contra o
sofrimento, apenas nos dá mais lucidez e capacidade de
administrar a dor. Ela é parte do nosso crescimento, é
humana e onipresente. Quando menos se espera, lá vem
ela sorrateiramente passar uns dias com a gente, sem
ser convidada.
Mas nada como ter
percorrido com sensibilidade uma estrada... Conhecer
os buracos, as curvas e aprender a desviar daquilo que
é risco, se preservar é fundamental. Escutar o
inaudível e decifrar os pressentimentos. O tempo não
mata a possibilidade da dor, ensina a farejarmos sua
aproximação e pegarmos um rumo oposto . Esta é uma
sensação gratificante da maturidade, nos dá segurança
para arriscar , minimiza situações antes
aterrorizantes e, nos permite usufruir de nossos dias
com muito mais energia e gratificação.
Acredito que é uma lição a
ser compartilhada, tipo aquela "minha mãe tinha
razão"... Sou muito franca e firme com meus filhos, e
no papel de mãe procuro evitar que eles sofram,
compartilhando minhas vivências alegres ou dolorosas,
dando dicas do trajeto. Porém, é inevitável que eles
tenham que percorrer o caminho que eles próprios
escolhem, e aprendam a assumir as consequências. Isto
é liberdade ! E deixo claro, que não sou uma
conformada com os aspectos tristes da vida, com as
tragédias estampadas nos jornais, e sim creio na nossa
capacidade de trilhar caminhos mais amenos, realizar
escolhas sensatas, amigos que valem o investimento,
amores que nos merecem de verdade. Ninguém é infeliz
porque o mundo é mau, mas porque fez más escolhas.
Depois de percorrer toda
esta estrada, eu quero mesmo é uma vida de final de
novela. Que sensação maravilhosa assistir os bandidos
sendo presos, os pobres se dando bem, os corruptos
pagando o roubo, todos os casais apaixonados se
encontrando em um altar florido para casar, os bebês
nascendo fortes e sadios, os ingratos reparando os
erros, as heranças sendo entregues, as perdas
recuperadas, pais e filhos se encontrando, casais
separados reatando.
Dizem que... A arte imita a
vida ! E se no último capítulo das novelas encontramos
justiça, amor, paz, reconciliação, sentimentos
amorosos e de gratidão, a realização de nossas
expectativas ... Porque não desejar uma vida como um
final de novela ? Estou em uma fase, onde aprendi a
driblar a dor, buscar o que foi perdido, me esquivar
dos maus humorados, a fazer escolhas sensatas, lutar
pelo que é justo, ter amigos divertidos, um trabalho
emocionante, a pensar poesia, crer no amor, e um
desejo incontido de abraçar minha
existência apaixonadamente.
Fátima Pilla Muller - Novembro/2007
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Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 24/11/2007

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