A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

Uma Vida De Final de Novela

              Creio ter chegado à metade da minha vida, sempre com muita batalha, dedicação a tudo que faço, com qualidade e austeridade, alegria e muita emoção. Sinto-me realizada como mulher, mãe, amante e profissional, fui amiga leal dos meus amigos, esposa fiel dos meus amores, profissional ética e competente. Até agora, levei a vida com esperança , solidária com a humanidade e sensível aos problemas da mãe Terra.

            Nestas décadas percorridas, o que mais me magoou foram as injustiças , aquele sentimento de desvalorização dos nossos investimentos amorosos, a desqualificação do nosso comprometimento, o fracasso daquilo que acreditávamos ter tudo para dar certo, a deslealdade de pessoas que julgávamos amigos. Cada perda criou em mim , um rombo que não pude preencher, fazem parte do meu ser. Sinais de alerta... Lembro-me de sentir uma dor intensa, aquele rasgo no peito, a falta de chão. Foram momentos infindáveis de decepção, pareciam que jamais acabariam, ou não me permitiriam amar e confiar outra vez.

           A gente cresce e tem a ilusão de que criou casquinha, que novas feridas não vão nascer. Uma amnésia defensiva e saudável, reabre portas com coragem e determinação. Ousamos reinvestir na vida, nos amores e amigos, incrementamos a solidariedade e a generosidade, até com quem  está longe de nós. Mas o tempo não é vacina contra o sofrimento, apenas nos dá mais lucidez e capacidade de administrar a dor. Ela é parte do nosso crescimento, é humana e onipresente. Quando menos se espera, lá vem ela sorrateiramente passar uns dias com a gente, sem ser convidada.

         Mas nada como ter percorrido com sensibilidade uma estrada... Conhecer os buracos, as curvas e aprender a desviar daquilo que é risco, se preservar é fundamental. Escutar o inaudível e decifrar os pressentimentos. O tempo não mata a possibilidade da dor, ensina a farejarmos sua aproximação e pegarmos um rumo oposto . Esta é uma sensação gratificante da maturidade, nos dá segurança para arriscar , minimiza situações antes aterrorizantes e, nos permite usufruir de nossos dias com muito mais energia e gratificação.

       Acredito que é uma lição a ser compartilhada, tipo aquela "minha mãe tinha razão"... Sou muito franca e firme com meus filhos, e no papel de mãe procuro evitar que eles sofram, compartilhando minhas vivências alegres ou dolorosas, dando dicas do trajeto. Porém, é inevitável que eles tenham que percorrer o caminho que eles próprios escolhem, e aprendam a assumir as consequências. Isto é liberdade ! E deixo claro, que não sou uma conformada com os aspectos tristes da vida, com as tragédias estampadas nos jornais, e sim creio na nossa capacidade de trilhar caminhos mais amenos, realizar escolhas sensatas, amigos que valem o investimento, amores que nos merecem de verdade. Ninguém é infeliz porque o mundo é mau, mas porque fez más escolhas.

       Depois de percorrer toda esta estrada, eu quero mesmo é uma vida de final de novela. Que sensação maravilhosa assistir os bandidos sendo presos, os pobres se dando bem, os corruptos pagando o roubo, todos os casais apaixonados se encontrando em um altar florido para casar, os bebês nascendo fortes e sadios, os ingratos reparando os erros, as heranças sendo entregues, as perdas recuperadas, pais e filhos se encontrando, casais separados reatando.

      Dizem que... A arte imita a vida ! E se no último capítulo das novelas encontramos justiça, amor, paz, reconciliação, sentimentos amorosos e de gratidão, a realização de nossas expectativas ... Porque não desejar uma vida como um final de novela ? Estou em uma fase, onde aprendi a driblar a dor, buscar o que foi perdido, me esquivar dos maus humorados, a fazer escolhas sensatas, lutar pelo que é justo,  ter amigos divertidos, um trabalho emocionante, a pensar poesia, crer no amor, e um desejo incontido de abraçar minha existência apaixonadamente.

Fátima Pilla Muller  - Novembro/2007

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 24/11/2007