A casa dos grandes pensadores
 
 
FERNANDO DE AZEVÊDO A. BRITO

 

É muito fácil querer mudar o Brasil só com palavras!
 
O brasileiro tem o péssimo hábito de se queixar constantemente da realidade nacional, sem, entretanto, mover sequer um dedo para concertá-la. São raras as exceções que fogem à órbita gravitacional dessa regra, que parece, ao menos para nós nativos, ter a força absurda de um inescapável buraco negro.
 
            Certamente, essa característica do povo brasileiro é algo que não é tão fácil de explicar e que, notadamente, constitui um dos grandes enigmas da contemporaneidade, um dos grandes mistérios até então vigentes.
 
            É claro que isso não significa dizer que o povo brasileiro é um conglomerado de pessoas inertes, inatuantes e insípidas, que em nada contribuem para a consolidação do bem-estar da coletividade tupiniquim e da humanidade. Até porque só o próprio brasileiro é capaz de conhecer a sua real amplitude e toda a sua potencialidade, nas artes, na produção literária e acadêmica, nas vertentes criativas e humanas, de uma forma geral. 
 
            Quem nunca se espantou ao ver a força e a intensidade do sorriso estampado na face torturada de um retirante fugindo da seca? Sorriso, este, que é comparável a bandeirante rosa que, contra todas as adversidades, brota poderosa ainda que na mais sólida e inabitável rocha.
 
O que é mais curioso, contudo, é que, apesar de toda esta força e vitalidade comum e pulsante em cada brasileiro, cada cidadão nacional continue imóvel ante as coisas que de errado presenciam, reagindo somente em caráter excepcional, ao contrário da língua que se agita afiada e que atira críticas incessantes, anunciando uma revolta que raramente se converte em ação construtiva e reformadora.
 
Não se sabe certamente a gênese histórica desse vício de comportamento, mas não parece ser difícil admitir que vários fatores possam ter se concatenado para cristalização desse fenômeno social. 
 
            O primeiro deles pode estar ligado aos séculos de submissão do povo brasileiro. Submissão aos reis, imperadores e aos governantes autoritários, nativos e estrangeiros, que, ao implantarem sistemas concentrados de poder, aversos aos valores democráticos, domesticaram inter-temporalmente a nação, inibindo o gene social da constante participação, da livre expressão das idéias e da cidadania.
   
O segundo desses fatores pode ter sido gerado pela cultura tele-novelística, durante décadas, estimulada em território nacional. Cultura que prega a paralisia dos membros (braços e pernas) ante as telas das televisões e a projeção do “eu-observador” de cada um para a realidade imaginária criada pelas novelas. Realidade na qual o brasileiro é incitado a participar emocionalmente dos acontecimentos, mas é impedido de transformá-los, já que a realidade perpassada é consubstanciada em simples ficção e não permite a interferência do telespectador.
 
O terceiro e último fator talvez seja oriundo das leis basilares da física clássica, mais precisamente da 1ª Lei de Newton, isto é, a Lei da Inércia. Segundo ela todo corpo que está em repouso tende a permanecer em repouso e todo corpo que está em movimento tende a permanecer em movimento. Assim, como os brasileiros, historicamente, não romperam, de forma significativa, a cultura passiva do repouso ante as problemáticas nacionais, deva ele, por isso, ter mais dificuldades de iniciar um processo de participação intenso e duradouro, tendendo, pois, permanecer em repouso.
 
Talvez, por este contexto, para o brasileiro seja muito mais fácil falar e reclamar, o que denota uma intenção, ainda que rarefeita, de participar, do que necessariamente agir para a concretização desse fim.     a contempindo-se um daqueles enignegro.rece, ao menos para n
 
            A soma e a interação desses três fatores pode, ainda que relativamente, “alumiá” as idéias daqueles que, por mais que se esforcem, não conseguem entender o porquê de o brasileiro falar e reclamar tanto e fazer e agir tão pouco, muito embora saibamos que, em alguns casos, a omissão e inatuação dá-se realmente por falta de compromisso e pelo império egoístico da preguiça social ou, ainda, por falta de uma educação adequada, em solo pátrio, que incite o povo brasileiro a participar e o conscientize da importância de sua participação para a construção de um Brasil melhor e um mundo mais humano.
 
            É preciso se revelar aos brasileiros que a palavra falada, sem a necessária ação, não tem força suficiente para transformar a sociedade e que a construção de uma realidade brasileira mais justa, fraterna e igualitária depende da ação de cada um. Revelar, igualmente, que a história nacional dos regimes autoritários findou-se, devendo se tornar uma constante a ação cidadã de todos para a consolidação do processo democrático. Revelar, por fim, aos brasileiros que as leis da física clássica não são barreiras intransponíveis, de modo que cabe a cada um de nós romper a inércia preguiçosa que nos é inerente, empunhando assim a poderosa e brilhante espada da participação para a transmutação deste eterno Brasil do futuro no esperado Brasil do presente.
 
            Enfim, é muito fácil querer mudar o Brasil só com palavras! Contudo, a ação de cada brasileiro é salutar e fundamental para transformação da realidade nacional. Vale ressaltar: a ação de cada brasileiro e de todos ao mesmo tempo! Afinal, a transformação do Brasil dá-se como o maravilho som emitido por uma sinfonia, que é escravo da dedicação eficiente do coletivo, mas que pode ser vítima anunciada da falha e da omissão do individual. Isto porque o desafinar de um só componente compromete a beleza e o sucesso do todo musical.
 
            Digamos, portanto, o seguinte: o concerto do Brasil depende do conserto que nós cidadãos diuturnamente realizamos, através da musicalidade contida em nossas posturas e ações. Conserto que resume as suas cifras e partitura na idéia da participação intensa, constante e consciente de cada um de nós e não em mero falatório ou verborragia daquele que só sabe reclamar e nada fazer.
 
Sigamos, portanto, a filosofia musical de Raul Seixas que contraria a postura inerte de todos aqueles que se contentam em figurar no vão comodismo da paralisia: “Eu que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”. Pensar de forma diferente é usar de nossa paralisia cidadã como túmulo suntuoso do Brasil e como velório macabro de toda nação.


Fernando de Azevêdo Alves Brito
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 29/09/2007