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É muito fácil querer
mudar o Brasil só com palavras!
O brasileiro tem o
péssimo hábito de se queixar constantemente da realidade
nacional, sem, entretanto, mover sequer um dedo para
concertá-la. São raras as
exceções que fogem à órbita gravitacional dessa regra, que
parece, ao menos para nós nativos, ter a força absurda de um
inescapável buraco negro.
Certamente,
essa característica do povo brasileiro é algo que não é tão
fácil de explicar e que, notadamente, constitui um dos grandes
enigmas da contemporaneidade, um dos grandes mistérios até
então vigentes.
É claro que
isso não significa dizer que o povo brasileiro é um
conglomerado de pessoas inertes, inatuantes e insípidas, que
em nada contribuem para a consolidação do bem-estar da
coletividade tupiniquim e da humanidade. Até porque só o
próprio brasileiro é capaz de conhecer a sua real amplitude e
toda a sua potencialidade, nas artes, na produção literária e
acadêmica, nas vertentes criativas e humanas, de uma forma
geral.
Quem nunca
se espantou ao ver a força e a intensidade do sorriso
estampado na face torturada de um retirante fugindo da seca?
Sorriso, este, que é comparável a bandeirante rosa que, contra
todas as adversidades, brota poderosa ainda que na mais sólida
e inabitável rocha.
O que é mais curioso,
contudo, é que, apesar de toda esta força e vitalidade comum e
pulsante em cada brasileiro, cada cidadão nacional continue
imóvel ante as coisas que de errado presenciam, reagindo
somente em caráter excepcional, ao contrário da língua que se
agita afiada e que atira críticas incessantes, anunciando uma
revolta que raramente se converte em ação construtiva e
reformadora.
Não se sabe certamente a
gênese histórica desse vício de comportamento, mas não parece
ser difícil admitir que vários fatores possam ter se
concatenado para cristalização desse fenômeno social.
O primeiro
deles pode estar ligado aos séculos de submissão do povo
brasileiro. Submissão aos reis, imperadores e aos governantes
autoritários, nativos e estrangeiros, que, ao implantarem
sistemas concentrados de poder, aversos aos valores
democráticos, domesticaram inter-temporalmente a nação,
inibindo o gene social da constante participação, da livre
expressão das idéias e da cidadania.
O segundo desses fatores
pode ter sido gerado pela cultura tele-novelística, durante
décadas, estimulada em território nacional. Cultura que prega
a paralisia dos membros (braços e pernas) ante as telas das
televisões e a projeção do “eu-observador” de cada um para a
realidade imaginária criada pelas novelas. Realidade na qual o
brasileiro é incitado a participar emocionalmente dos
acontecimentos, mas é impedido de transformá-los, já que a
realidade perpassada é consubstanciada em simples ficção e não
permite a interferência do telespectador.
O terceiro e último
fator talvez seja oriundo das leis basilares da física
clássica, mais precisamente da 1ª Lei de Newton, isto é, a Lei
da Inércia. Segundo ela todo corpo que está em repouso tende a
permanecer em repouso e todo corpo que está em movimento tende
a permanecer em movimento. Assim, como os brasileiros,
historicamente, não romperam, de forma significativa, a
cultura passiva do repouso ante as problemáticas nacionais,
deva ele, por isso, ter mais dificuldades de iniciar um
processo de participação intenso e duradouro, tendendo, pois,
permanecer em repouso.
Talvez, por este
contexto, para o brasileiro seja muito mais fácil falar e
reclamar, o que denota uma intenção, ainda que rarefeita, de
participar, do que necessariamente agir para a concretização
desse fim.
A soma e a
interação desses três fatores pode, ainda que relativamente,
“alumiá” as idéias daqueles que, por mais que se esforcem, não
conseguem entender o porquê de o brasileiro falar e reclamar
tanto e fazer e agir tão pouco, muito embora saibamos que, em
alguns casos, a omissão e inatuação dá-se realmente por falta
de compromisso e pelo império egoístico da preguiça social ou,
ainda, por falta de uma educação adequada, em solo pátrio, que
incite o povo brasileiro a participar e o conscientize da
importância de sua participação para a construção de um Brasil
melhor e um mundo mais humano.
É preciso se
revelar aos brasileiros que a palavra falada, sem a necessária
ação, não tem força suficiente para transformar a sociedade e
que a construção de uma realidade brasileira mais justa,
fraterna e igualitária depende da ação de cada um. Revelar,
igualmente, que a história nacional dos regimes autoritários
findou-se, devendo se tornar uma constante a ação cidadã de
todos para a consolidação do processo democrático. Revelar,
por fim, aos brasileiros que as leis da física clássica não
são barreiras intransponíveis, de modo que cabe a cada um de
nós romper a inércia preguiçosa que nos é inerente, empunhando
assim a poderosa e brilhante espada da participação para a
transmutação deste eterno Brasil do futuro no esperado Brasil
do presente.
Enfim, é
muito fácil querer mudar o Brasil só com palavras! Contudo, a
ação de cada brasileiro é salutar e fundamental para
transformação da realidade nacional. Vale ressaltar: a ação de
cada brasileiro e de todos ao mesmo tempo! Afinal, a
transformação do Brasil dá-se como o maravilho som emitido por
uma sinfonia, que é escravo da dedicação eficiente do
coletivo, mas que pode ser vítima anunciada da falha e da
omissão do individual. Isto porque o desafinar de um só
componente compromete a beleza e o sucesso do todo musical.
Digamos,
portanto, o seguinte: o concerto
do Brasil depende do conserto
que nós cidadãos diuturnamente realizamos, através da
musicalidade contida em nossas posturas e ações.
Conserto que resume as
suas cifras e partitura na idéia da participação intensa,
constante e consciente de cada um de nós e não em mero
falatório ou verborragia daquele que só sabe reclamar e nada
fazer.
Sigamos, portanto, a
filosofia musical de Raul Seixas que contraria a postura
inerte de todos aqueles que se contentam em figurar no vão
comodismo da paralisia: “Eu que
não me sento no trono de um apartamento, com a boca
escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”. Pensar
de forma diferente é usar de nossa paralisia cidadã como
túmulo suntuoso do Brasil e como velório macabro de toda
nação.
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