A casa dos grandes pensadores
 
 
FERNANDO DE AZEVÊDO A. BRITO
     

 

O que é o Brasil?

Uma Terra In-definida. Um Pedaço de Chão In-terminável. Um Projeto de Nação In-concebível, de Língua Portuguesa In-portuguesável.

Uma Terra dos In’s, da qual se excluem o insípido, o inodoro e o incolor, pois o Brasil, de certo, tem gosto, tem cheiro e tem cor.

Quem pode, afinal, definir o que é o Brasil?

Não há qualquer um, por mais convicto que seja, que possa defini-lo, sem ostentar a certeza nítida do fracasso.

O Brasil é um País de concepção afirmativa, mas que só pode ser explicado pela negativa contida nos contrastes. Um País tão rico, mas tão pobre. Com tantas terras, mas com tão poucas. Com tanta cultura, mas com um cheirinho constante de “aculturado”.

Terra da Língua Portuguesa, mas que é língua de índio, de africano, de japonês, de italiano, de nordestino, de “socialaite”, de favelado, do rigor formal e estilístico lusitano, das sub-línguas regionais e estaduais e do deboche, da rebeldia e do descaso embandeirado pelas gírias. Terra de Língua brasileira mais que de Língua Portuguesa. De Língua confusa mais que concisa, mutante mais que montada, pulsante mais que purgante.             

Terra de incontáveis nomes, que já foi, pelos indígenas, pré-cabralianamente, chamada de Pindorama e, pelos Portugueses, de Ilha de Vera Cruz, Terra Nova, Terra dos Papagaios, Terra de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Terra Santa Cruz do Brasil, Terra do Brasil e que, no presente, reza somente, ao menos oficialmente, como Brasil, já que, ainda hoje, há quem insista em chamá-la de outro nome: Terra Tupiniquim.

Há outros que vinculam o seu nome ao instituto físico do tempo e, por isso, a chamam de Terra ou País do Futuro, dando a entender que não vivemos em um País propriamente dito do presente ou, também, que este País atual em que vivemos resume-se a um mero esboço, rascunho e/ou protótipo de um País que ainda não é porque ainda é para ser.

Terra atormentada pelo Dilema de Hamlet: ser ou não ser, eis a questão!

Brasil, cujo nome é advindo da brasa, do rubror flamejante no pau-brasil, que hoje se esconde na sua insignificância quantitativa para não ser percebido e continuar existindo. Brasil oriundo da brasa das peles vermelhas dos índios e da chama dos troncos das árvores, que viram e vêem o seu desaparecimento com olhos potencializados pelas lentes dos binóculos. Brasil originário da brasa caliente dos pés e das ancas das mulatas, todas elas, de muitas cores e ritos, que se atiçam e atiçam na cifra e na ginga do samba e do axé.

O Brasil é o conteúdo da alma do povo brasileiro, alegre, vibrante, receptivo e faceiro, corajoso e bem-humorado ante as adversidades. É, igualmente, o sorriso na face maltratada do trabalhador mais carente, que tem confiança e fé, acima de tudo, de que a vida vai melhorar.

O Brasil é a sua terra, o seu povo, a sua língua, o seu nome, a sua religiosidade, as suas decepções, frustrações, alegrias, “sacanagens” e futurismos. O Brasil é o que é, mas, também, é o que não é. É que o que foi, mas, certamente, é o que pretende ser, mesmo sem jamais conseguir alcançar. O Brasil é Brasil e, igualmente, brasil. Mas, de certa forma, o Brasil, também, é o brasli, barlsi, sralib, larbis, ibsarl, rsailb, arisbl, lrbisa, gdgjkdjkl, jlk-pjljxas, J, L e ???????.

Infelizmente, é frustrante ter que admitir que a compreensão real, plena e inabalável do que é o Brasil não está sob o completo controle de quem quer que seja, muito menos deste que agora escreve. Isto porque o Brasil é um ser de vida própria e sem vida, objeto e sujeito de si mesmo, que personifica, como ninguém, a concepção idealizada por Raul Seixas: uma metamorfose ambulante. Por conseqüência, todo conceito e valor que possa ser aplicado ao Brasil é, automaticamente, desatualizado e incompleto.    

No mais, não sendo possível compreender, de forma exaustiva, o que é o Brasil, contentemo-nos em vivê-lo intensamente e, principalmente, em consolidá-lo diante de nossas melhores e mais fraternas perspectivas. Afinal, Brasil também é esperança e luta incessante em busca de um futuro melhor. Quem dera, todavia, se o convertêssemos em um palpável presente...

Fernando de Azevêdo Alves Brito
 

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 22/10/2007