A casa dos grandes pensadores
 
 

GLENER OCHIUSSI

A galinha dos ovos de ouro

Dia sete de março de 1808, sob céu claro e límpido, diante dos olhos de um  povo ignorante, saudada com uma salva de 21 tiros de canhão, a esquadra de D. João VI adentrara a baía de Guanabara.

Fugindo de última hora das tropas de Napoleão, D. João VI escolhera o Rio de Janeiro como local da estadia real no Brasil, junto com o príncipe regente viria também cerca de 15 mil pessoas, entre elas pessoas da nobreza, conselheiros reais , juízes, advogados, etc. Esse montante iria somar-se aos 60 mil habitantes, dos quais metade escravos, que viviam na capital da colônia até então.

Logo que passada a euforia das festas e apresentações de boas vindas, para a primeira corte européia a pisar em terras coloniais até aqueles dias, a população carioca começou a ter que enfrentar a dura realidade: Com a vinda da corte e a posterior abertura dos portos o Rio de Janeiro se tornou um dos principais centros comerciais das Américas, sua população aumentou bruscamente e sem nenhuma estrutura básica remetendo assim sérios problemas de saúde, moradia, violência, pobreza e desigualdade à população de baixo nível social.

Para acomodar toda a nobreza real portuguesa os cariocas tiveram que ceder suas moradias, PR(Propriedade Real ou o popular Ponha-se na Rua) bastava um carimbo na porta de casa para ter que ceder seu domicílio a uma família nobre. Na área da saúde costumava-se dizer que o Rio de Janeiro estava entregue aos urubus: sarnas, impingem, elefantíases, bicho dos pés, diferentes febres, lombrigas, hemorróidas eram doenças comuns na capital colonial.

A população sofria e penava para manter uma corte perdulária e corrupta, criou-se um Ministério Real chamado de Mordomia-mor, o qual era responsável por toda a administração das contas da coroa. Sob a tutela deste ministério e com o financiamento de burgueses ingleses e grandes comerciantes cariocas (em sua maioria traficantes de escravos) foi fundado o Banco do Brasil, que por sua vez cobraria uma taxa de 17%, remanejado para a coroa, de todos os saques e depósitos de seus clientes.

O príncipe regente D. João VI teria que retribuir todas essas “gentilezas” da elite carioca e inglesa, desse modo distribuiu cargos e condecorações durante todo seu governo, somente nos oito primeiros anos de governo o futuro rei distribuiu mais títulos de nobreza do que os trezentos anos anteriores da história de Portugal. Como diriam os tucanos: “Um verdadeiro inchaço do estado!”

Não pense você que uma nobreza com 15 mil pessoas caindo de pára-quedas ou melhor caravelas no Rio de Janeiro não seria custosa, somente com alimentação a corte gastava ao que hoje é equivalente a 50 milhões de reais por ano, chegando ao ponto em que era praticamente impossível uma pessoa comum achar galinhas a venda na cidade, todas eram compradas pela Cozinha Real e destinadas a alimentação da corte, um verdadeiro monopólio de frangos e galinhas.

Pois bem, podemos perceber que a vinda da família real para o Brasil nos remete, para a área social, mais perdas do que ganhos, desse modo podemos hoje argumentar que todas as mazelas políticas ou sociais deixadas em mais de trezentos anos de Brasil Colônia foram superadas e extintas? Dificilmente.

Os problemas de anos atrás continuam nos dias de hoje, vejamos pela ordem: Grandes empresas privadas são as principais financiadoras de campanha política em nosso país, em troca dessas “gentilezas” recebem licitações para obras públicas, o que na época de D.João seriam condecorações. Os principais clientes do sistema bancário brasileiro continuam sendo a maioria pobre que é explorada e extorquida, um exemplo disso está justamente na compra da tão sonhada casa própria que neste ano já pode ser financiada em até 17 anos; o resultado? maior lucro para essas instituições de financiamento, lucro esse que é humildemente cedido à nobreza assim como em 1808 eram os domicílios da população . A saúde, essa continua como sempre foi, só funciona quando o paciente está saudável e não precisa dela, veja-se a verdadeira crise de equipamentos, leitos e médicos por qual perpassa o norte e nordeste brasileiro (pelo menos já conseguimos diminuir as incidências de algumas doenças acima citadas, mesmo que superficialmente).

Já havia me esquecido, falta ainda analisar o fenômeno de escassez de frangos e galinhas para a alimentação da população do Rio de Janeiro promovido no ano de 1808 pela corte portuguesa, esse fato pode ser facilmente equiparado com nossa atual carga tributária, isso mesmo com os impostos pagos pela população, traduzindo em números: com 36,02% do PIB(Produto Interno Bruto) ou 146 dias de trabalho ou R$36 de todos R$100 gerados neste país ou ainda R$928 bilhões de reais destinados a refeição da máquina estatal por meio de impostos federais, estaduais e municipais (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário/2007),aliás o procedimento continua o mesmo: tira-se da boca dos pobres e transfere-se aos ricos, só que antes eram galinhas e hoje é dinheiro.  

Feliz 2008 a todos !

Glener Ochiussi  

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 16/01/2008