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A República de papel
A origem
da palavra república vem do latim “Res Pública”, ou seja, “Coisa
Pública”, onde um representante geral é escolhido e legitimado
pela maioria da população. Este termo é na maioria das vezes
usado de maneira controversa e possui diversas interpretações,
algumas nem sempre fidedignas. Neste artigo iremos discutir a
República no Brasil, da proclamação às suas conseqüências nos
dias atuais, procurando sempre interligar o tema com alguns
atributos básicos para a plenitude de tal regime, tais como:
cidadania e nacionalidade.
Tanto
democracia quanto república são palavras usadas de maneira
corriqueira, porém se seguirmos a risca o real significado das
palavras, faz-se necessário teorizar os significantes de dois
termos básicos: cidadania e sentimento de nação. Vejamos os
sentidos dos termos.
De acordo
com o sociólogo inglês T.H Marshall (1893-1981) a cidadania
somente pode ser alcançada mediante três atributos básicos:
direitos civis, direitos políticos e direitos sociais,
necessariamente nesta ordem e progressão. Marshall argumenta que
a Inglaterra seria a pátria da cidadania, onde no século XVIII
teriam surgido os direitos civis, no XIX os políticos e
recentemente no século XX os direitos sociais. Entenda-se por
direitos civis: liberdade individual, de propriedade ou culto -
Por direitos políticos: participação de todos no regime político
vigente - Direitos sociais: direitos de bem-estar econômico,
segurança e um sistema educacional digno e socializado.
Para
explicarmos o termo nacionalidade podemos recorrer ao sociólogo
alemão Max Weber (1864-1920), de acordo com esse o termo nação é
um dos mais carregados por sensações emotivas. “[...] A
nacionalidade em seu sentido étnico corrente, comparte com o
povo normalmente a vaga idéia de que aquilo que se sente como
comum tem sua base numa comunidade [...]” (Weber. Economia e
Sociedade.1922). Ainda na sociologia weberiana as comunidades
podem se identificar como nações quando há identidades
coletivas, tais como: conjunto lingüístico, lembranças
políticas, costumes, hábitos e caracteres religiosos singulares
No Brasil
a proclamação da república (1889) foi por décadas um dos temas
mais obscuros de nossa história. Recentemente com os trabalhos
dos historiadores José Murilo de Carvalho e Emília Viotti da
Costa, o assunto foi em grande parte esclarecido. Vejamos.
Emília
Viotti trabalha com a linha teórica de que a república foi
apenas uma opção de transferência do poder monárquico para o
poder militar e civil, o povo ao qual teoricamente a república
beneficiaria, não teve participação política real, seja na
proclamação ou na participação do regime. Viotti ainda deixa
claro que as elites militares e civis, as quais proclamaram a
república, não tinham vaga idéia do que seria um regime
republicano real, apenas lançaram mão de uma ideologia para
ascender ao poder.
O
historiador José Murilo de Carvalho é ainda mais contundente em
sua argumentação sobre o tema. Segundo ele a massa geral não
estava minimamente preparada para a participação efetiva em um
regime republicano, não existia consciência política alguma
entre a população e a maioria continuou simpática a antiga
monarquia. “O povo assistiu a tudo bestializado” – frase de
Aristides Lobo ( jornalista contemporâneo à proclamação), o
historiador José Murilo de Carvalho a utiliza para expressar a
ignorância, a permissividade e a falta de consciência cidadã,
flagrante na patuléia do período. José Murilo ainda argumenta
que o povo foi constantemente manipulado, tanto pelas elites
republicanas como pelas monarquistas que queriam o retorno do
soberano. O autor por fim cita brilhantemente a Revolta da
Vacina em 1904 como o símbolo máximo da retórica controversa e
inacabada: povo/republicanos.
Alguns
movimentos intelectuais, ainda na república velha (1889-1930),
aspiraram trazer à tona a discussão sobre a ausência de
autenticidade e cidadania, tanto cultural como política do povo
brasileiro. Podemos citar a Semana da Arte Moderna (1922) como
exemplo ilustrativo desta procura por singularidade.
“[...]Eu,[Policarpo Quaresma]usando do direito que lhe confere a
constituição [de cidadão], vem pedir que o Congresso Nacional
decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo
brasileiro[...]”. O trecho literário citado é da obra “Triste
fim de Policarpo Quaresma” de Lima Barreto. Publicado
integralmente em 1915 o texto tem como foco principal o
nacionalismo no Brasil Republicano. O autor deixa claro na obra
que a consciência individual e/ou coletiva praticamente
inexistia, por outro lado, a submissão e a isenção da
consciência cidadã estavam sempre presentes nas camadas
populares.
Em 1988
entrou em vigor no Brasil a chamada constituição cidadã,
assegurando garantia total de liberdade e participação no regime
governamental vigente, intitulado de República Federativa do
Brasil, porém algumas deficiências históricas ainda permanecem.
Na concepção de Marshall não teríamos em nosso país uma
cidadania plena e socializada, na visão de Max Weber o
sentimento de nação poderia até existir, porém nada que deságüe
em uma maior participação coletiva real em assuntos de devir
público. Na teoria de Emília Viotti continuamos aceitando
manipulações ideológicas para que máquinas partidárias se
revezem no poder. Partido dos trabalhadores, Social Democratas,
Partido Comunista do Brasil; no final o que muda são apenas as
siglas e os nomes. Já para José Murilo de Carvalho continuamos
“bestializados”.
Dicas da
Coluna:
-
Para
Ver:
-
Guerra
de Canudos, 1997 – 169 min. Direção: Sérgio Rezende
-
Para
Ler:
-
Os
Bestializados – O Rio de Janeiro e a república que não foi –
José Murilo de Carvalho. 2006 - Companhia das Letras
-
Para
ouvir:
-
O Mestre
Sala dos Mares – Composição de João Bosco e Aldir Blanc –
Interpretado por Elis Regina.
Glener
Ochiussi
Graduando em História pela faculdade Dom
Bosco / Membro da equipe de História do colégio Genaro Domarco -
Mirassol / SP
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
28/08/2008
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