A casa dos grandes pensadores
 
 

GLENER OCHIUSSI

Baquara or Babaquara? *
 
Um grande escritor francês chamado Michel de Montaigne escrevera na primeira metade do século XVI: “O primeiro individuo que viram a cavalo inspirou-lhes tal pavor que embora já houvessem estado com ele de outras vezes, o mataram à flechadas e só então o reconheceram” O visionário Montaigne relata nesse trecho o modo com que os nativos daquele novo mundo eram tratados e respeitados por seus “pares” europeus.
De acordo com um grande estudioso e apaixonado por nosso país chamado Darcy Ribeiro, a gênese de nossa formação se deu do cruzamento de povos nativos, em grande quantidade os povos de tronco Tupi, com aqueles europeus para cá deserdados. A cultura européia dita mais “forte” se apoderou da sabedoria indígena e logo após da inteligência negra e deu-lhes um roupante europeizado, logo somos povos novos com uma cultura dominante européia .
Gilberto Freyre, outro grande pensador brasileiro, nos dizia que um escravo alforriado ou um mulato livre fazia de tudo para não se aproximar de sua cultura ancestral negra, chegando a dizer que alguns escravos libertos ou de ganho em nossos primeiros centros urbanos (quando em condições) chegavam à passear pela rua de terno, paletó, cartola e bengala - trajes típicos europeus. Trocando em miúdos, a aparência e a ostentação de poder da cultura branca sempre estivera em voga.
O problema de nossa gênese cultural está exatamente em acharmos que somos europeus, em valorizarmos apenas uma cultura superficial e baseada em aparências tolas, onde muitas vezes nos auto-desprezamos sem mesmo percebermos. A cultura européia nos foi imposta, em um regime vertical, fomos obrigados a pensar que somente valores elitistas e ditos “superiores” nos interessava. Aliás quando pensávamos, pois como diz o médico e ativista Patch Adams: “Todo pensamento é critico”, será que nos enquadramos neste conceito ?
Uma sociedade hierarquizada, com uma maioria pobre vangloriando costumes e valores impostos por uma minoria rica, onde a educação real não está ainda em um patamar universal e desenvolvimentista, uma sociedade paternalista e conservadora, esse é o Brasil. Nesta terra de riquezas ilusórias, as diferenças de um povo tão heterogêneo se tornaram preconceitos.
Recentemente o ótimo livro "A cabeça do Brasileiro" de Alberto Carlos Almeida  nos trouxe fortes dados sociais coletados em todo território nacional, os resultados são os seguintes: “A rejeição do homossexualismo (tanto feminino quanto masculino) é praticamente unânime entre os brasileiros- 89%, o preconceito exteriorizado contra os nordestinos, negros e pessoas que não moram em centros metropolitanos é elevado - chegando ao ponto patético em que ser branco e mecânico de carro é mais aceitável do que ser negro ou nordestino e advogado”(preconceito racial + social).
Porém o mais desanimador desta pesquisa citada acima ainda está por vir: foi totalmente comprovado que o grau de escolaridade interfere e muito na minimização dos preconceitos, entretanto como também já foi citado mais acima nosso país infelizmente não possui um sistema educacional universal e digno.
A pergunta é: queremos uma sociedade mais justa e digna para nossos predecessores viverem? Estamos realizados ou acomodados com o que presenciamos todos os dias? Estamos prontos ou queremos enfim uma educação que nos faça pensar? Faço minhas as palavras de Gabriel o Pensador: “ Racismo[preconceito] é burrice e a ignorância é um ponto final , faça uma lavagem cerebral ! ”
Me orgulho muito de ser educador, acredito que o maior trabalho e desafio para todos os docentes seja não mais construir, mas sim desconstruir:  preconceitos e discriminações, para que o educando saia da escola com pelo menos uma base de valores e respeitos, o que por sinal é muito raro de se ver. Assim poderemos raciocinar com nossas próprias mentes deixando para trás toda e qualquer aparência ou convicção fútil e empobrecedora.
Somos sim preconceituosos, precisamos parar de esconder ou maquiar este debate, problemas e soluções precisam ser contestados e debatidos, o primeiro passo para uma solução está exatamente em pararmos de achar que o preconceito inexiste em nossa sociedade, o segundo passo ? Esse infelizmente só está ao alcance de alguns; aqueles que têm e aproveitam a chance única de uma boa educação, esses não costumam esperar o “nativo” morrer para reconhecê-lo e valorizá-lo.
 
*No dicionário Tupi-Guarani:
 
Babaquara: tolo, aquele que não sabe de nada.
Baquara: sabedor de coisas, esperto.
 
Glener Ochiussi
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 19/02/2008