E viva o progresso!
Nossa história contada em escolas e bancos
de faculdades é falha e possui desigualdades históricas que
perduram até os dias de hoje. Na maioria dos casos a história é
usada para aguçar um nacionalismo ainda esquecido, de uma
população que por sua vez não conhece realmente o que foi e como
é sua história , ou seja serve de base de manipulação para uma
massa ignorante.
Quem passa hoje pela Rua do Camerino no Rio
de Janeiro, próxima a praia Mauá, nunca iria imaginar que ali
naquele mesmo local funcionava a exatos cento e vinte anos o
maior entreposto comercial de escravos das Américas – o famoso
Mercado do Valongo foi completamente engolido por nossa história
elitista, até o nome da rua (antes Rua do Valongo) foi
modificado.
Estima-se que entre os séculos XVI e XIX
cerca de 10 milhões de escravos foram vendidos para as Américas,
deste montante o Brasil recebeu algo em torno de 40% (3,6
milhões e 4 milhões) segundo as estimativas mais otimistas. Pois
bem , este mercado dantes o mais lucrativo para os comerciantes
da época, hoje se tornou uma simples e pacata praça de uma
cidade cosmopolita (o Rio de Janeiro), nenhuma placa, monumento
ou algo do gênero – fizemos por onde maquiar nossa vergonhosa
história de atrocidades.
O diplomata inglês Henry Chamberlain em
viajem pelo Rio de Janeiro dos tempos coloniais nos deixou seu
sensato relato sobre o mercado do Valongo : “ Quando uma
pessoa quer comprar um escravo ,ela visita os diferentes
depósitos, indo de uma casa a outra, até encontrar aquele que
lhe agrada. Ao ser chamado, o escravo é apalpado em várias
partes do corpo, exatamente como se faz quando se compra um boi
no mercado”.Essa é a palavra realmente apropriada para
designarmos o comércio de escravos que estruturou inúmeras
riquezas para seus comerciantes em nosso país – “como se faz com
um boi”, capital humano sem direito à sentimentos, opiniões ou
vontade própria.
Ainda bem caros amigos que a história não é
cíclica e que erros passados não ressuscitam de seus túmulos
doentios para nos incomodar, certo não ? Errado. Qualquer
história passada, de qualquer nação pode ser diretamente ligada
com o seu momento histórico atual. Até mesmo países hoje ditos
desenvolvidos sofrem com defeitos históricos que muito
possivelmente não poderão ser corrigidos (em um curto espaço de
tempo) – esse é o caso do sul dos Eua que sofre com um
conservadorismo preconceituoso contra negros até os dias de
hoje. E viva o progresso !
Em recente matéria publicada no jornal
Folha de S. Paulo intitulada “País terá mais negros que
brancos neste ano” – pesquisadores afirmam que até 2010 nosso
país terá uma maioria da população que se auto-intitula negra e
ainda, enquanto o branco ganha em média um salário de R$1.087,14
mensais, o negro recebe RS 578,24 – tudo isso como conseqüência
de quase metade dos anos de estudo (em média ) que os negros
possuem ante os brancos.
Ainda argumentando sobre o Brasil
pós-moderno (séc XXI), um estudo recém publicado pelo IPEA
(Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) ressalta que somente
3,5% de negros possuem cargos de chefia nas altas corporações
privadas brasileiras, resultado da constante hierarquização dos
altos cargos em nosso país e é claro do constante preconceito
contra negros – ainda nesta pesquisa (publicada nos mês de maio)
podemos afirmar que as desigualdades sociais existentes entre
negros e brancos só irão se amenizar (em um nível aceito) daqui
a meros dez anos, ou seja somente em 2018. Eu não seria tão
otimista assim.
Dados estatísticos são bons para retirarmos
as máscaras sociais que perduram por cento e vinte anos (pós lei
Áurea) em nossa sociedade, contrariando Ali Kamel (escritor do
livro Não somos Racistas) somos preconceituosos sim e precisamos
discutir estes temas e não coloca-los ao lado. O princípio
básico para se amenizar uma cultura preconceituosa e racista
(como a nossa) é exatamente a educação e a informação
socializada, afinal deste modo descobriríamos que nosso
preconceito atinge exatamente nossa cultura raiz, nossos
ancestrais africanos, ou seja somos preconceituosos contra nós
mesmos.
Voltando ao “extinto” mercado do Valongo.
Pessoas que passam hoje pela atual Rua do Camerino no Rio de
Janeiro muito possivelmente não imaginam (ou não querem
imaginar) as diversas atrocidades e desumanidades que à cento e
vinte anos ali ocorreram, porém estas mesmas pessoas que passam
ignorando (literalmente) o maior mercado de escravos da América
Latina que se tem notícias, vão a alguns metros dali festejar o
Carnaval carioca no Sambódromo Municipal, exaltar com todas as
letras a cultura afro-brasileira. Esse é o retrato de nosso
preconceito, burro e ignorante.
Glener
Ochiussi
Graduando em História pela faculdade Dom
Bosco / Membro da equipe de História do colégio Genaro Domarco -
Mirassol / SP
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
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03/07/2008