Celular
da felicidade
(3º. lugar no 1º. C L Castro Alves da Academia Rio-Grandina de
Letras – RS – mar/09)
Zanata, professor aposentado de Matemática,
viúvo com mais de 94 anos e sem filhos, vivia sozinho no seu médio
e confortável apartamento de último andar, à beira da praia. Sua
aposentadoria lhe permitia pagar bem a uma empregada para efetuar
a limpeza da casa, lavagem de roupa e preparação do almoço. À
noite, tomava uma lata de cerveja com biscoitos amanteigados.
Tinha boa visão e todo dia fazia sua caminhada
matinal ao longo da areia, o que lhe ajudava a não ultrapassar os
108 quilos. Era bem quisto por todos os vizinhos da região. Quando
solicitado, ajudava aos estudantes atrapalhados com as frações e
equações ameaçadoras. Nas épocas festivas, distribuía comida e
brinquedos entre as crianças mais pobres do bairro. Nas festas
natalinas, ele se fantasiava de Papai Noel há mais de 15 anos. Nas
reuniões do condomínio, sempre opinava com equilíbrio e moderação.
Participava de qualquer mutirão para obras de conservação do
edifício ou do bairro. Os moradores do prédio admiravam sua
disposição, em função das diversas doenças que lhe atormentavam
desde os 60 anos : tuberculose, cirrose, artrite, úlcera, quatro
ataques cardíacos, tendinite e rins. E mesmo assim, não dispensava
fumar dois maços por dia, uma garrafa de conhaque por semana,
feijoada, vatapá, maionese e comidas apimentadas. Sua esposa Dora
falecera aos 75 anos, esbanjando saúde. E ele, aí estava, apesar
de todo seu descuido.
No
primeiro domingo de agosto, pela manhã (folga da empregada)
nublada, ao sair para seu passeio matinal, abaixou-se para pegar o
envelope azul sobre o tapete em frente à porta da cozinha (não
usava a porta social, obstruída pela mesa que abrigava o micro e a
impressora). Tinha seu nome e endereço. Não havia indicação do
remetente. No seu interior, uma tira de papel com letras tipo
courier new dizia
:
“Querido
Zanata : hoje você está recebendo o primeiro algarismo (2)
do número de um telefone especial. Antes do início de outubro,
você receberá os demais algarismos. Assim que receber o décimo,
telefone. Temos uma ótima notícia para lhe dar.”
Guardou a tira no
bolso e desceu. Perguntou ao porteiro se ele havia colocado algum
envelope sob sua porta. A resposta foi negativa. Imaginou
tratar-se de alguma brincadeira de alguma adolescente que também
gostava de Matemática e estava lhe preparando algum enigma.
Esqueceu do assunto e foi ao passeio na beira da praia quase
deserta.
E como anunciado no 1º bilhete, os
demais foram chegando a cada semana. Os oito algarismos seguintes,
foram: 9, 9, 4, 9, 2, 0, 2 e 4. Faltava um. No
último domingo de setembro, acordou com o ruído das fortes
trovoadas. Levantou-se, fez sua higiene pessoal e abriu a porta
sanfonada da varanda da sala. Como o envelope azul conseguiu
chegar até a cadeira de balanço? Depois pensaria nisso. Desceu o
toldo, pegou seu celular, sentou-se na cadeira e abriu o envelope,
com o coração palpitando de curiosidade, sem se importar com os
pingos da chuva que lhe atingiam devido ao vento. Leu o último
bilhete da série:
“Querido
Zanata : conforme combinado, aqui está o último algarismo (2)
prometido. Agora, faça contato.”
Assim que digitou o
último algarismo do número 2-994-920-242, aguardou apenas
um toque. Do outro lado, surgiu a voz inconfundível de Dora.
Também lhe pareceu sentir o aroma de gardênia, que ela usava.
“-
Querido Zazá: apesar do seu relaxamento com sua saúde, você foi
preservado por ser útil à humanidade. Mas sua missão já foi
cumprida. Este número que você acaba de discar, corresponde à
quantidade de segundos de alta qualidade que você viveu nestes
quase 95 anos! É a senha para chegar até onde estou. Venha, meu
bem, pois há mais de 15 anos eu o espero para vivermos nossa
felicidade eterna.”
Um
raio desceu pela antena do celular e Zanata morreu fulminado com
um doce sorriso nos lábios.
Haroldo P. Barboza - Vila Isabel / RJ - Aulas de Matemática.
Autor do livro: Brinque e cresça feliz