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Que embrulho !
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(M. H. Festival de Cultura Canoas/RS – 2001)
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Vitálio só exercia a boa educação dentro do ônibus, quando
havia oportunidade de puxar uma conversa com alguma pantera
suburbana. Neste momento, tornava-se solícito e gentil. Na fila do
ponto final, preferia aguardar mais um ônibus para poder iniciar a
viagem sentado. Escondia a aliança de casamento na capanga e ficava
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aguardando que alguma bem dotada começasse a encostar-se em seu
ombro, empurrada pela multidão que se aglomerava no corredor do
coletivo. O trajeto até Campo Grande, em torno de 90 minutos em
dias sem chuvas, lhe oferecia a oportunidade de demonstrar sua
gentileza em se oferecer para segurar algum embrulho (quando
leve) ou até oferecer o lugar, caso o decote da audaciosa boneca
fosse generoso. Ao longo do ano anterior havia conseguido tapear 2
ou 3 faxineiras com um papo de empresário fotográfico e conseguiu
levá-las para o estúdio do seu primo Rufino, que também participava
de bandalhas semelhantes mas era solteiro.
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Naquela 6ª feira morna, quando algumas pessoas corajosas
subiram para o ônibus na Leopoldina, observou a ruiva que portava
duas sacolas de sapataria na mão esquerda. Ela passou pela roleta
após pagar a passagem e 5 minutos depois, estava ao lado dele,
esbarrando em seu ombro estrategicamente estufado para o lado do
corredor. Quando o casaco se movia na curva, ele apreciava o belo
traseiro dentro do vistoso vestido verde
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florido, onde as margaridas se realçavam.
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Ele sorriu para ela e se ofereceu para segurar as duas sacolas.
ela agradeceu o gesto e aceitou, alegando que havia comprando seis
pares de sapatos para os irmãos e já estava com os dedos dormentes
devido ao peso das sacolas. E o papo rolou alegre, começando a
tender para a simpatia dela, sua estampa apropriada para modelo,
coisa e tal.
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Subitamente o coletivo parou. O grupo de quinze passageiros
que ainda se encontrava de pé (inclusive ela) foi arrumado 3 ou 4
metros mais adiante. Ouviram-se vozes vindas da porta traseira,
enquanto três sujeitos fardados e armados entravam pela frente.
Por acaso, não se tratava de assalto. Era uma batida policial
mesmo. Estavam procurando traficantes, assaltantes e similares. O
guarda de bigode pediu a Vitálio
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que exibisse o conteúdo das bolsas.
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- São apenas uns sapatos daquela senhorita ruiva ali na
frente.
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- E estes 32 pacotes brancos aqui por acaso são de talco para
perfumá-los ?
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Eu
não estou vendo nenhuma ruiva dentro deste coletivo. Coloque as mãos
para trás pois vamos algemá-lo.
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Enquanto a viatura engrenava a 2ª em direção à delegacia,
Vitálio observou a dona na calçada lhe acenando. O vestido era o
verde florido, mas o cabelo era preto. Ah, então ela estava usando
peruca ! Que safada !
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Haroldo P. Barboza
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Autor do livro: Brinque e cresça feliz
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- Publicação:
www.paralerepensar.com.br 05/08/2005

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