A casa dos grandes pensadores
 
 

HAROLDO P. BARBOZA

 

 

Haroldo P. Barbosa

Deu na imprensa em setembro de 2008.

Rio de Janeiro - O Ministério do Esporte refutou hoje (26/09/2008) por nota o relatório divulgado na última quarta-feira (24) pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que detectou custos exagerados na organização dos Jogos Pan-americanos e Parapan-americanos do Rio de Janeiro de 2007.

A nota afirma que o governo federal foi obrigado a aumentar a participação para garantir a realização dos jogos e ressalta que os R$ 3,3 bilhões – valor superior aos R$ 523,84 milhões previstos no orçamento inicial foram gastos porque a Prefeitura do Rio de Janeiro e a iniciativa privada não cumpriram o acordo quanto ao pagamento.

(Quem será que embolsou os valores combinados? - Haroldo)

O Ministério do Esporte garantiu que irá providenciar as solicitações do TCU de apresentar, em 30 dias, mais detalhes sobre o contrato de supervisão e  fiscalização das obras no Complexo de Deodoro, da prestação de contas para a reforma e adaptação do Complexo Esportivo do Maracanã, construção do Parque Aquático, aquisição e montagem da pista do Velódromo e obras de infra-estrutura da Vila Pan-americana.

O documento do TCU registrou gastos desproporcionais como o valor da implantação do sistema de credenciamento, originalmente de R$ 55 mil, que acabou custando R$ 26,7 milhões aos cofres públicos. O relatório também chamou de exagero a quantia gasta com diárias de R$ 1,137 mil (*) dos atletas hospedados na Vila Pan-americanas.

(*) Nota de Haroldo – pela metade deste preço, cada dois atletas poderiam ficar bem acomodados num hotel de boa categoria. Claro que se houvesse clareza nas contas, o valor da diária na Vila Olímpica não chegaria a R$ 250,00 por atleta.O relatório do TCU (ainda não finalizado) já evidencia um gasto elevado e já “previsto” em artigo que editei em JANEIRO de 2007 (abaixo), mesmo sem acesso aos documentos que o TCU examina com esmero. Portanto, os céticos que se deixam iludir pelas belas palavras (mesmo sem plural) de nossos governantes, não podem reclamar dos altos impostos que pagam. Sabem muito bem para onde eles são desviados e fingem acreditar no “crescimentodescepaís”.

 

PAN(orama) – 2007

 (guia honesto para o turista iludido)

 

   Alo turista amigo que estará chegando ao Rio em julho de 2007 para assistir as atividades esportivas e conhecer as maravilhas daqui que não sabemos preservar nem para arrecadar divisas.

 

   Você quer desembarcar sob um dia de calor desejando encontrar corpos dourados com vestes mínimas. Perdoe-nos, mas desejamos que seja numa época chuvosa para que você pense ter descido no meio do Rio Tietê. Fique calmo: há barcos para todos.

 

   Como os helicópteros estão reservados para as autoridades, você terá de passar pela Linha Vermelha. Logo vai descobrir que o controle da via não está nas mãos das autoridades legais. Traga uma máscara contra gases pois o cheiro local é de ovo (de urubu) podre.

 

   Passada a angústia, o guia vai anunciar a bela lagoa Rodrigo de Freitas. Peça-lhe para dar duas voltas na “lagoa” da Praça da Bandeira onde não há registro de mortandade de peixes por falta de oxigenação (limpeza) das águas.

 

   Certamente darão uma parada no Jardim Botânico. Peça para visitar a Praça da República para conhecer nosso folclore. Divida sua atenção entre a arquitetura e os pivetes, que estão de olho em sua câmera digital e no seu celular.

 

   No hotel de frente para a praia de Copacabana, vão lhe oferecer a bela paisagem. Peça para dar um mergulho na praia de Botafogo. Mas leve sua roupa de escafandro para não se contaminar com as fezes que bóiam no local e com os “ratos” de areia. Se for assaltado por um pivete “di menor” não reaja. Você vai pegar um baita processo se tentar impedi-lo de “trabalhar”.

 

   Se o convidarem para visitar uma escola na Rua São Clemente peça para fazer uma visita à FUNABEM, para ver como é conduzido o programa de “recuperação” dos meninos. Dê uma passada nos “campus” abandonados da UERJ e UFRJ. Os alunos não são mudos. Apenas não aprenderam línguas estrangeiras. Nem mesmo o hino da própria pátria.

 

   Passando na frente de algum banco com fila, o guia vai anunciar que estão abrindo concurso para 200 vagas. Mas observe se 98% dos membros da fila possuem cabelos brancos, pele enrugada, boca quase sem dentes e roupas esfoladas. Isto mesmo: são nossos aposentados que teimosamente sobrevivem para receber a “merreca” de quase 2 SM por mês, depois de pagarem 35 anos para receberem dez!

 

   Se o convidarem para alguma recepção onde estejam presentes autoridades locais de qualquer esfera, sugira uma noitada numa segura gafieira da Lapa. Se não puder ser atendido, coloque sua carteira de notas num bolso com zíper. Nunca se sabe, né?

 

   Quando ouvir o som: “Pan, pan, pan” não pense que são crianças ensaiando coro para a festa de encerramento do evento. Abaixe-se, pois devem ser os tiros dos traficantes que comandam a cidade sob o olhar impotente das “ortoridades”. São tiros para comemorar sucesso nas modalidades:

a)    assalto triplo.

b)    2000 metros com bolsa de idosa.

c)     Revezamento de celular.

d)    “Box” (um assalto a cada 3 minutos)

e)    Arremesso de peso (para quebrar janela de casa a ser invadida).

f)      Equitação (onde o povo é “montado”).

 

   Se você está pretendendo desistir da viagem por causa destes fatos, lembre-se que nós passamos por isto há dezenas de anos e apesar dos impostos em dia, não temos quem garanta nossos direitos mínimos. Será que você não tem fôlego só por uns 15 dias?

 

   Fique tranqüilo: até o final da competição teremos 8.000 policiais nas ruas que você usar, ostentando seu obsoleto armamento. Contamos com algum pacto de irmãos entre o “estado paralelo” e as autoridades (?) para reduzir atritos de semelhanças com o Iraque.

 

   Com certeza você ficará deslumbrado com as instalações da vila olímpica que será exibida na mídia mundial. E vai pensar: deve ter custado caro! E custou mesmo. Nossas escolas e hospitais públicos estão sem material básico. O orçamento inicial era de R$ 600 MI e já chegamos aos R$ 3,2 BI. Após o evento, muitas dívidas serão empurradas para o próximo governo enquanto idealizadores, governantes e fiscais terão suas contas bancárias aumentadas. Também aumentarão nossos impostos. Mas isto NÃO aparece com ênfase na mídia pois o povo está preocupado com o final da novela atual e com a mixaria do “bolsa-qualquer” que lhe permite adquirir farinha por 20 dias.

 

   Por enquanto, tenha 90% de certeza de que tudo foi feito para recebê-lo bem. Tudo arborizado pelos que praticam e concordam com a derrubada da Mata Atlântica.

 

   Que sua estadia seja memorável. Ficaremos com saudades de sua fisionomia de espanto a cada descoberta realizada. Quando for embora, leve o prospecto que a agência de viagens lhe forneceu e anote um resumo de parte da verdade que você vivenciou.

 

   Boa sorte e volte vivo para sua casa.

 

   Algo que nós não temos certeza de acontecer por aqui. E quem consegue tal proeza não recebe medalha alguma pelo feito. Nem de zinco.     

 
Haroldo P. Barboza - Vila Isabel / RJ - Aulas de Matemática.
Autor do livro: Brinque e cresça feliz
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 29/09/2008