O gorila não era tão feio
Recebi este desabafo de Waldo Luiz Viana. Março de 2009. Uma
síntese de nossa infeliz realidade e sombrio futuro regado pela
acomodação de nosso povo emburrecido por programas “curturais”
do tipo Big Bosta Brasil. Observe o cenário que está sendo
montado para a vida de nossos herdeiros. Se após ler tudo apenas
mudar de assunto sem nem mesmo comentar com seu (sua) amigo mais
próximo, sinta-se co-responsável. Se ficar indignado e redigir
algo que reforce esta matéria e dissemina-la entre seus pares,
sinta-se parcialmente aliviado por ter feito algo útil, ainda
que tardiamente. Se sua ira o impulsionar a tomar uma atitude
efetiva com seus recursos disponíveis, nos sentiremos orgulhosos
por tê-lo como exemplo para nossos herdeiros.
Não vale a desculpa de que uma pessoa a menos não afeta o
sucesso do processo. Um foguete que carrega um satélite para o
espaço consome mais de 2.000 parafusos de vários formatos. Se um
deles de 0,5 cm estiver frouxo, pode provocar a explosão do
veículo ainda na subida, jogando mais de U$ 5 MI no espaço!
A
tarefa de livrar nossa pátria do jugo desumano não é apenas dos
jovens. Mesmo quem já passou dos 60 com certeza encontrará
atividades adequadas na cruzada em busca do resgate de nossa
cidadania pisoteada pelos abutres que nos hipnotizam com suas
fantasias.
Haroldo P. Barboza – Vila Isabel/RJ
GUERRA CIVIL RIMA
COM BRASIL
"Porque, agora,
vemos como em
espelho,
obscuramente; então,
veremos face a
face."
1 Co., 13:12
Waldo Luís
Viana*
Quando
era criança, adorava um joguinho com lápis e papel, em que
aparecia uma série de pontos num quadrado para interligar.
Unindo ponto a outro, ao final surgia o gorila. E como era feio
o bicho. E eu sorria.
O tempo
passou, fiquei adulto, mas permaneceram os olhos e as lembranças
do menino. Todavia, não sorrio mais. O que estou vendo hoje,
interligando os pontos, é muito perigoso.
Resta
apenas desmoralizar as Forças Armadas e o Supremo Tribunal
Federal como instituições. Como na Jerusalém do passado, não
sobrará pedra sobre pedra, como um dia lamentou Jesus. Advirá o
momento em que o diálogo entre o governante e o povo será
direto, sem intermediários. Teremos então a flor do Lácio do
totalitarismo.
O gorila
estará visível e nu, como todo poder anticrístico. As instâncias
intermediárias, as forças que auxiliam a sociedade civil a se
proteger de nada mais valerão, a não ser para legitimar o
estupro da nação. E nem será necessário colocar a oposição na
cadeia, como queria Bakunin, porque neste país se opor é ato que
beira o mau gosto. Oposição é crime de lesa-majestade!
Nenhuma
resistência acontecerá, porque todos se tornaram malandros e não
vão colocar a cabeça de fora para ser decepada. E o país rumará
ao patíbulo, sem a defesa de seus filhos.
Primeiro, tiveram que desmoralizar a classe política que está
misturada ao pior esterco da corrupção; em seguida, a atmosfera
de insegurança nas cidades e nos campos se generalizou, com
assassinatos e o patrocínio do crime organizado ao delírio geral
das drogas; mais adiante, a destruição da educação, da saúde e
dos valores morais, como causas antiquadas e "cívicas" a serem
minimizadas cotidianamente pela mídia. Vemos até o presidente da
República atirando camisinhas ao populacho, nem se importando em
discutir uma correta política de controle da natalidade.
Aliás,
reproduzindo-se feito moscas, os pobres e miseráveis serão o
caldo de cultura para a futura sociedade planificada na vontade
de um homem só e seus asseclas. Se isso não for fascismo, não
sei como se chama.
Estamos,
finalmente, vivendo um filme de terror, em que os brasileiros
são os mortos-vivos. Os movimentos sociais e sindicais
permitidos vão fazendo o jogo de cena, próprio das ditaduras,
fingindo opinião que não mais detêm, emudecidos por verbas
oficiais. Estão calados e bem pagos, como estátuas de sal (ou
pré-sal).
Estou
emitindo essas considerações, mas não sei até quando poderei
fazê-las. A sensação de inutilidade, de malhar em ferro frio, é
onipresente, porque é próprio das ditaduras desmoralizar
qualquer oposição, colocando o crítico eventual numa situação de
paralisia psiquiátrica. Passou-se o tempo em que nos chamavam
de "reacionários de direita". Agora, somos loucos mesmo, os que
ousam remar contra a pretensa maré da maioria.
Alguns
de meus censores, candidamente, me perguntam: por que você
critica tanto o presidente? E eu respondo; tenho 53 anos e nasci
durante o governo Café Filho, sujeito honestíssimo e de caráter
ilibado. Aos catorze anos, na casa de meu pai, em plena
ditadura, pude conversar por cinco minutos com um estadista, o
ex-presidente Juscelino Kubitschek, e o SNI fotografava todos os
que entravam no edifício. Testemunhei o transcurso do regime
militar, os governos Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e
o atual.
Cumprindo o princípio da história brasileira contemporânea,
de que o futuro é sempre pior que o passado, jamais vi em
minha vida um presidente tão descomposto e hilariante na
capacidade de dizer asneiras e batatadas. Pensava que o mais
folclórico, nesse sentido, teria sido o general Figueiredo, mas
o atual, sem qualquer dúvida, bateu todos os recordes. Ele é o
anticristo da estrela de cinco pontas que ainda vai nos trazer
enormes tristezas e constrangimentos. E me recuso a crer que o
brasileiro se identifique tanto assim com ele por ausência de
espírito crítico, cultura e sabedoria.
Não me
recordo de ter sentido tanto medo e insegurança como hoje em
dia. Mudei do Rio de Janeiro, onde ouvia toda noite, em certo
bairro nobre, o som das metralhadoras, como se estivesse ao lado
de minha cama. Cansado de tantas balas perdidas por perto,
resolvi morar em cidade pequena e felizmente ainda não
conquistada pela bandidagem.
A
despeito de tudo, não me calei. Quando ouço falar que o MST está
matando gente em Pernambuco e que protesta contra o fechamento
de suas "madrassas", escolas de alfabetização terrorista e
fundamentalista no Rio Grande do Sul, fico boquiaberto.
Sou do
tempo em que os estudantes da UNE protestavam contra o regime.
Hoje, saem ridiculamente à rua para reivindicar meia-passagem
nos ônibus e nos cinemas. Os estudantes "profissionais",
empanturrados de verbas públicas, calaram definitivamente a boca
e parece que, em contrapartida, a juventude só se interessa
mesmo por baladas regadas a maconha, crack, cocaína, LSD e
ecstasy, para esquecer a realidade mórbida em que vivemos. E os
combativos acadêmicos trotskistas de ontem são apenas os
universitários conformistas de hoje, que passam trotes
violentos.
Sou do
tempo em que havia preocupação com a proletarização das Forças
Armadas. Hoje, além de desequipadas e sem opinião, vão ter que
curtir os expurgos futuros causados pela ampliação da lei da
anistia e da abertura de arquivos acusatórios sobre alguns
oficiais de pijama, ainda vivos. É claro que sob o nobre
pretexto de não repetir a tortura, sempre hedionda, o governo
procura criar um clima de exagero ao comparar o que ocorreu na
ditadura militar com o holocausto nazista. A solução é utilizar
o erário para recompensar e enriquecer ex-guerrilheiros e alguns
falsos terroristas queridinhos do governo vigente.
No
entanto, a protoditadura que aí está, não satisfeita, quer ainda
armar o circo da divisão social. Como Mussolini, dividir a
sociedade em compartimentos estanques para melhor governar e
poder sobressair.
Nesse
contexto, temos o pobre, como entidade genérica eternamente
defendida pelo salvador de plantão, colocado em litígio contra
as classes dominantes, que nunca estiveram tão bem protegidas e
prestigiadas, como neste governo. Negros insurgem-se contra
brancos, homossexuais contra heteros, índios e quilombolas
contra agricultores, mulheres contra homens, deficientes físicos
contra não deficientes - enfim, onde possam se constituir
subdivisões sociais e cotas politicamente corretas, eis aí o
solo fértil para a manutenção e continuidade do poder
protofascista. Com a palavra, o Duce de Garanhuns: nunca
neste país.
Mãos
crispadas nos palanques, faces avermelhadas pelo porre da noite
anterior, vai o governante cantando loas às próprias
realizações, abrindo veredas para a sucessora predileta, um
balão de ensaio caprichoso e sem carisma, fruto de teimosia que
nenhum de seus acólitos ousa contestar, a não ser através de uma
anticandidatura lançada como eram os antigos cristãos às feras
famintas.
Nunca
neste país o ovo da serpente esteve tão prestes a rebentar. A
nação é um paiol de pólvora e não me admirarei se focos de
inconformidade, diretamente proporcionais ao terrorismo de
alguns movimentos sociais, começarem a surgir. Afinal, guerra
civil rima com Brasil e essa licença não pode deixar de ser
acolhida com imensa preocupação pelo poeta.
Podem dizer de
mim o que quiserem, porque me acostumei a unir os pontos de um
desenho de início incompreensível e aparentemente inextricável.
E o gorila que aparece hoje, tal como o diabo, é grande ator na
tarefa de iludir e fingir que não existe.
Como
disse o apóstolo Paulo, sentir como adulto faz com que
esqueçamos a imagem de criança, posta no espelho e vislumbremos
a verdade, face a face. Mas ao invés de Deus, o que aparece no
Brasil é o gorila.
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* Waldo Luís Viana é
escritor, economista, poeta e morre de medo de gorilas.
Teresópolis, 28 de fevereiro de
2009.