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Cultura.
O mameluco que não tem idéia do que seja isto, suado e cansado de
catar latinhas, caixas de papelão e um quadro quebrado de Ogum que
trouxe para o barraco para remendar e pendurar na parede encontra a
cafuza à porta ansiosa para ganhar um abraço daqueles de quebrar os
ossos e o aço que esporadicamente se interpõem entre eles e o anjo
que ora dorme no berço feito com esmero das sobras da madeira do
edifício super faturado pelo Juiz ladrão.
A cafuza fez faxina o dia todo, mas ainda deu tempo para chegar mais
cedo limpar o barraco e perceber que faltava alguma coisa, pensou,
pensou e se lembrou que no meio dos trecos que o mameluco houvera
catado no dia anterior havia uma flor vermelha de plástico que
poderia enfeitar a mesa de centro (que não passava de uma caixa de
sabão que ela envolvera com um plástico preto). Foi até o monte de
trecos e pegou a flor e lavou com cuidado endireitando a haste de
arame de forma a que ficasse com a forma desejada, no mesmo monte de
trecos encontrou uma lata vazia destas que a gente vê nos
supermercados e colocou umas pedras dentro para que não tombasse com
o peso da flor e colocou o vaso sobre a mesa.
Foi ate a porta e olhou para o ambiente e pensou assim: "agora sim
parece casa de gente!".
Mesmo com muito cansaço após o breve abraço e rimar não interessa o
mameluco separa os trecos da catação pra apurar o dinheiro e comprar
o leite e o pão depois da grande jornada.
Tudo feito toma o banho e ainda assiste novela, vê o jornal nacional
do William e da Fátima, fica sabendo de tudo, de tudo que a mídia
quer e já desiludido de tudo desliga a televisão na hora do horário
político sabendo que é o momento de fazer amor, não fazer guerra.
A cultura é latente e viva mesmo que queiram desvirtuá-la e não está
no que é imposto e nasce numa flor de plástico e mesmo que a
historia seja repetida ou mentirosa ela está em todos os cantos
brotando e nascendo independentemente de mim.
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