O PRESÉPIO NA
VITRINE
Passava, diariamente, em frente àquela loja.
Loja de departamentos. Nunca se deteve para olhar a vitrine.
Ora, estava apressado para chegar no trabalho, ora para
chegar em casa. Em casa dormia até ao meio-dia para refazer
o sono. No outro turno cuidava dos dois filhos, ainda
pequenos. A mulher dava aula à tarde numa escola municipal,
ali mesmo no bairro. Em dez anos de vida matrimonial estava
sentindo o peso da rotina da família, da rotina do trabalho
(doze anos na mesma empresa, no mesmo serviço), rotina da
rua... Novidades? Nada!
Final de novembro. O comércio enfeitava as ruas
de apelos coloridos e iluminados para festejar o Feliz
Natal. Um senhor idoso, gasto, cansado, desiludido de ideais
habitava a alma de José Luís. Amava muito aos filhos e,
ainda, admirava e desejava a esposa. E se voltasse a
estudar? Concluir o curso interrompido quando casou. Como
arrumar o tempo para ir à aula? Não podia se queixar de
dinheiro, não era lá essas coisas, mas somado ao da Jussara,
atendia às necessidades do casal. Não tinham dívidas.
José Luís, trinta e três anos, analista de
sistema, cristão, estava em dia e em paz com as obrigações
sociais, legais, políticas e religiosas. Ultimamente,
pensamentos inquietadores vinham-lhe à mente e ao coração.
Procurava respostas para as suas dúvidas. Sumir? Deixar tudo
para trás? Alguém lhe atiraria a primeira pedra?
Dirigindo-se para o trabalho, absorto em divagações, virou o
rosto para a vitrine. O que viu? Figuras conhecidas,
grandes, montavam uma cena tão familiar! Nenhuma cara nova,
imagens de barro antigas (o dedinho do pé do nenê estava
esfolado), um boi com ares de boi-da-cara-preta. Por que lhe
fez contemplar tanto tempo? Chegou ao destino meia hora
atrasado! Por quê? Cada figurante da cena deitou-lhe um
fascínio envolvente. José Luís se viu no meio deles,
participando do grupo. Ninguém falava, nada diziam, no entanto
havia mudo diálogo entre eles.
José, um senhor de barbas, apoiando-se no cajado, comentou:
- Chamemos as crianças sem lar. Que venham dormir ao nosso
lado. É melhor que o asfalto frio. O bafo do jumento aquecerá
a frieza do abandono. Haverá lugar para todos!
Moça formosa e serena, que atendia por Maria,
a mãe do menininho da manjedoura, dona de uma voz suave e
maviosa:
- Meu bom guardador das brancas ovelhinhas,
escute-me, deixe-as conosco! Olharemos por elas. Vá, por
favor, atrás dos quatro jovens que passam do outro lado da
rua. Converse com eles. Não me agrada ver rapazinhos
perambulando na madrugada. É coração de mãe, sabe?
Observando seus rebanhos, jovens pastores confabulavam:
- O que fizeste pela manhã?
-Acompanhei um casal amigo. Foram nas lojas
comprar presentes para o natal.
Um ser estranho, sem cara, corpo, sem
espírito, meteu-se na conversa.
- Quem é natal?
- Não sabes?!
- Nunca ouvi falar.
- É o nascimento do menino.
- Como? Não entendi! A criança vai nascer?
- Não! Já nasceu. Há dois mil anos.
- Por favor, fala moço, que presentes compraram?
- Bicicletas, brinquedos, jóias, jogos e aparelhos
eletrônicos...
-Tinham tanto dinheiro?!
- Fizeram prestações a longo prazo, no
crediário, compraram no cartão, cheque pré-datado...
- O tal menino, que se chama Natal, com dois
mil anos, ainda brinca? Anda de bicicleta? Usa jóias? Sabe
lidar com jogos e aparelhos eletrônicos? Deve ser um fenômeno!
Ainda vive? Onde?
Do alto do telhado, um anjo tocava corneta. Ouviram celestial
melodia. Um silêncio pacífico cobriu a paisagem.
Três garbosos senhores idosos, sérios - um de pele
negra - apareceram em cena. Usavam suntuosos mantos coloridos.
Educados, cumprimentaram, um por um, apertando-lhes a mão.
Forte luz brilhou nos céus. Um novo dia acabara de nascer.
José Luís quando se deu conta estava a caminho da firma.
Passos lentos, compassados, subiu as escadas.
Na sala de trabalho, janelas enormes envidraçadas, a
claridade do sol atestava o verão. José Luís frente ao micro,
o olhar fixo no teto, sentia-se estranho, aéreo, leve.
Espalmou as mãos frente ao rosto, recostou-se na cadeira
dialogando com os pensamentos:
- Que sonho! Parecia real. Não, não, não foi devaneio. Lembro,
eu vivi. Sinto o cheiro de incenso. Aqueles três que
chegaram!... Não era sonho! A música da corneta, ainda a ouço.
Quando tocavam a música, cada um dos sérios senhores
distribuiu... colocaram na minha mão direita... o quê?
Qual autômato meteu a mão no bolso da calça. Retirou-a
devagarinho. Olhou por alguns demorados segundos a mão
fechada.
- Foi verdade! Tenho a prova.
Continuava, num misto de curiosidade e receio, ocultando a
certeza da experiência vivida na vitrine.
- Que tenho aqui? O que ganhei? Tenho comigo. É a prova.
- Vamos José Luís, abra! Acabe esta aflição! Coragem!
Três minúsculos cartões, coloridos... Em cada lado uma palavra
gravada. No rosa - amor/incenso; no vermelho - vontade/mirra;
no amarelo - sabedoria/ouro.
- Que significam???
Ione Jaeger
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
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08/11/2005