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Confissões de
um menor abandonado
Eu sei que sou culpado,
não tive a capacidade de assumir a administração de minha vida, não fui
capaz de resolver as emoções infantis nem consegui equilibrar-me sobre
os obstáculos que herdei da sociedade.
Até que me esforcei! Olhei para a vida de meus pais, porém, os
desentendimentos de seu casamento falido nublaram os tais exemplos de
que ouvi falar, só falar.
Não tive o privilégio de me aquecer no meu próprio lar, porque
faltou-lhe a chama do amor, sustentando-nos unidos. Cada qual saiu para
o seu lado. Na confusão da vida me perdi.
Candidatei-me à escola. Juntei a identidade civil ao retrato desbotado,
botei a melhor farda de guerreiro, entrei na fila. Humilhado por tantas
exigências, implorando prazos, descontos e vaga, sentei-me num banco
escolar, jurei persistência, encarei o desafio.
- Joãozinho, você não sabe sentar-se?
- Joãozinho, seu material está incompleto.
- Joãozinho, seu trabalho de pesquisa está horrível.
- Joãozinho, seu uniforme está ridículo.
A barra foi pesando, fui sendo passado para trás e vendo que escola é
coisa de rico. Um dia, arrependi-me, mas a professora se escandalizou
das faltas (nem eram tantas!) e disse que meu nome já estava riscado, há
muito tempo. O que fazer? Dei marcha à ré ali e, olhando a turma, com
vergonha, fui saindo.
Moro nas marquises, debaixo da ponte, nas calçadas e não moro em lugar
nenhum. Tenho avós, pais, irmãos e primos, mas não tenho família. Tenho
idade de criança e desilusões de adulto. Minha aparência assusta as
pessoas e nada posso fazer. A cada dia que passa, estou mais sujo, mais
anêmico, mais fraco.
Sou um rosto perdido, perambulando, em solo brasileiro. Na verdade,
chamam-nos menores, todavia, somos os maiores desgraçados.
Vendo balas num sinal de trânsito que muda de cor a cada minuto. Quando
o sinal fica vermelho, os carros param, meu coração dispara. Para nós,
menores abandonados, o vermelho é a cor da esperança.
Ivone Boechat
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 06/03/2007


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