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I- Resumo
A
narrativa de Tocaia Grande nos leva para o nordeste dos
jagunços e coronéis. Da religiosidade e misticismos. Das
mulheres-damas e esposas atreladas aos desígnios de seus
senhores. Dos plantadores de cacau.
Enfim,
Tocaia Grande é a saga do jagunço Natário da Fonseca,
caboclo de feições carrancudas que serve ao coronel
Boaventura, livrando-o de emboscadas e tocaias, em
questões de posse de terras do sertão devoluto. Por ser
um empregado honesto e leal, será mercador de um pedaço
de terra nos confins-do-judas do sertão nordestino.
A
narrativa inicia-se quando o jagunço Notário, ao
arquitetar uma emboscada, por problemas políticos, a
inimigos do coronel Boaventura, delimita a localização e
a posição dos jagunços pedindo ao coronel que lhe faça o
favor de deixá-lo tomar um pedaço de terras nas
cercanias; pois o caboclo tem a intenção de plantar
pequena roça de cacau, para poder, no futuro, ser dono
do seu próprio nariz, com o empenho da palavra que
sempre servirá ao coronel, pois ele que lhe deu guarida
quando apareceu naquelas bandas, foragido de outra
cidade. Em resposta o coronel lhe diz que só não lhe
permitirá que posse das terras como o fará capitão.
Após a
tocaia dos inimigos, com vitória do capitão Natário,
este domina o lugar de Tocaia Grande.
Com o
passar dos tempos, afluem para a localidade de Tocaia
Grande um turco de nome Fadul Abdala, que logo abriu um
pequeno comércio para venda de cachaça, rapaduras,
farinha,... e algumas mulheres-damas para o deleite dos
tropeiros que começaram a fazer de Tocaia Grande cominho
de passagem em suas idas e vindas, o que transformou o
lugar em lugar de pernoite.
E
Tocaia Grande começa a crescer: de lugar de pernoite,
passa a arruado, a lugarejo, a arraial, a povoado, a
cidadela e a cidade de Irisópolis. Mas, para chegar a
cada posto teve de enfrentar de tudo um pouco:
enchentes, peste, e a tocaia maior contra o povo
tocaiagrandense, a mando do filho do coronel Boaventura,
para satisfazer os caprichos de uma russa com ares de
madame, porém que não passava de uma bisca sem vergonha.
No
desenrolar da narrativa vamos topando com Castor Abdium,
mais conhecido por Tião, que vai dar em Tocaia Grande
por estar sendo perseguido pelos homens do Barão, sendo
ao qual servia, mas por ter traçado a esposa e a
empregada predileta deste e o mesmo ter presenciado tal
descaramento, se põe em fuga; Bernarda, afilhada do
Capitão Natário que após a morte de sua mãe, depois de
ter sido estuprada e seviciada pelo pai, foge para as
paragens de Tocaia Grande, tornando-se amante do Capitão
Natário, com o qual tem um filho, além de continuar na
labuta como prostituta. Jacinta Coroca que passa da
condição de velha prostituta a parteira; uma família de
sergipanos que expulsos da fazenda onde moravam e eram
agregados, se põem na estrada em busca de melhor lugar
para viverem; no caminho topam com o Capitão Natário que
lhes fala de Tocaia Grande e lhes diz que lá eles serão
donos de suas terras. Ninguém mandará neles, muito menos
os expulsarão. Nesta família de sergipanos encontramos
Diva, menina que ao transformar-se em moça acaba sendo
motivo de apostas em Tocaia Grande, pois tem dois
pretendentes: Tição, negro ferreiro e Bastião da Rosa,
carpinteiro loiro de olhos azuis. É com Tição que Diva
se amasia e tem um filho.
Em
Tocaia Grande quem se gosta se amasia, pois o lugar não
tem igreja, não tem padre. É um porto livre dos tabus e
moralidades da sociedade. As coisas acontecem de acordo
com as conveniências e necessidades.
Outro
personagem a destacar é Zilda, esposa do Capitão Natário,
que tem com ele dois filhos, e outros tantos que recolhe
e cria como se fossem seus. Todos tinham cara de Natário.
O
primeiro incidente que ocorreu no lugar foi o assalto à
bodega do turco Fadul; enquanto este houvera se
ausentado para comprar mercadorias em Itabuna e colocar
novidades em dia. Ao regressar, sabe do saque e se
desilude com seus companheiros, que nada fizeram para
impedir o ocorrido. A se ressaltar que os mesmo nada
fizeram devido à fama dos saqueadores: jagunços
impiedosos. Fadul amaldiçoa tudo e todos e culpa seu
deus – dos maronitas – por não ter protegido seu negócio
dos vândalos inconseqüentes que por não terem achado o
dinheiro que pensavam ter o turco escondido na venda,
quebram, estragam e põem fogo nos pertences, como forma
de reprimenda, prometendo voltar quando o proprietário
estivesse no recinto, pois só assim teriam certeza que o
assalto seria bem sucedido.
Numa
visita do Capitão Natário, ao lugarejo, este conversa
com o amigo Fadul; entretanto não há demonstrações de se
importar com o ocorrido. Quando está indo embora, antes
de esporear o cavalo, informa Fadul que já sabia do
saque o que também já tinha resolvido a pendenga, dando
cabo dos jagunços, pois aqueles eram bichos ruins, não
tinham préstimo nenhum.
O
segundo acontecimento memorável foi a enchente que
dizimou a localidade, levando em suas águas lamacentas a
vida de cão, adolescente lerda das idéias e de Cícero,
representante de uma das principais casas exportadoras
de cacau, que adorava traçar empregadas das fazendas e
mocinhas recém-defloradas, pois só assim tinha certeza
que não pegava doenças de puteiros; e a cadela
oferecida, presente de Zilda a Tição, para amenizar a
solidão de Alma penada, cachorro vira-latas que apareceu
sem mais nem menos na casa do ferreiro.
O
terceiro grave, porém não pior, foi a peste negra que se
abateu sobre a população de Tocaia Grande, levando
consigo nove vidas, deixando a sua pequena população em
polvorosa, o que levou muitos a arribar para outros
lugares. Os que ficaram foi por teimosia e por não terem
para onde ir.
Quarto
acontecimento, de alegrias, pois Tocaia Grande também
teve seus dias de glórias e felicidades, foi à festa de
reisado promovido por sai Leocádia, estancieira
adentrada em anos, mas que nem por isso desanimava. Era
uma das mais alegres do lugar. Transformou o seu reisado
(variante do nosso boi-de-mamão), num acontecido de
alegrias. Da festa nasceu namorados e amasiados, por
conta da felicidade da comemoração.
Coronel
Boaventura morre e pede a Natário um único favor: que se
encarregue da moça Sacramento, derradeira alegria do
Coronel, encaminhando-a da melhor forma possível.
Com a
morte do Coronel, seu filho Boaventurinha é obrigado a
largar de sua boa vida na Europa, regressar para casa,
assumir as finanças e a política deixadas pelo pai. Ao
saber que o Capitão Natário não irá mais lhe assessorar,
pois o seu compromisso era com o pai e com a morte dele
cessou suas obrigações, se revolta e vai à cata de
vingança. Assim que chega à Itabuna, trazendo com suas
bagagens a russa que encontrou em casas noturnas em
Paris e o irmão desta, leva estes a uma visita de
reconhecimento pela cidade de Itabuna, Ilhéus e ao
povoado de Tocaia Grande. A russa fica maravilhada com
tudo o que vê e pensa ser aquelas maravilhas, de
propriedade de Venturinha. Pensando assim, pede-lhe que
este lhe dê Tocaia Grande como forma de agrado e
reconhecimento por toda a felicidade que lhe
proporcionou.
Neste
ínterim chega a Tocaia Grande a Santa Missão, composta
por dois freis, com o intuito de redimir aquele antro de
pecado e pecaminosidade. Os dois, apesar dos esforços, e
do bom palavrear passam por Tocaia Grande deixando tão
somente a legalidade dos amasiados, transformando-os em
casados, nos conformes da lei de Deus, o batismo dos
pagãos e o Cruzeiro, local destas cerimônias.
Em
Itabuna as coisas começam a ferver. Começa a arribar
para lá jagunços dos mais temidos das localidades e
redondezas, com o intuito de tocaiar os tocaiagrandenses.
As más
notícias chegam aos ouvidos do Capitão Natário. Reúne,
aos poucos, sua gente, dizendo que ninguém é obrigado a
ficar. Os que quiserem ir embora podem ir, para
regressarem quando acharem mais conveniente. E muitos
vão embora. Na noite de tocaia, sem o saber, o Capitão
Natário encontra-se com sua amante e afilhada Bernarda –
já havia encaminhado sua esposa, Zilda e os filhos, os
seus e os recolhidos, até o de Bernardas, para a casa da
roça – quando adentra casa afora um capanga que dispara
um tiro, porém Bernarda se interpõe entre a bala e o
Capitão Natário, vindo a morrer em seguida, nos braços
do único homem que amou, conforme havia profeciado uma
cigana em outras datas. O capanga é morto por
Sigismundo, cão de guarda do Coronel Boaventura, quando
este vivia. Ao escutar num cabaré, em Itabuna, um
jagunço mencionar que quem mataria Natário seria ele e
não outro, se pôs nos enlaços deste vindo dar no
ocorrido.
Capitão
Natário mandou espalhar o boato, em Itabuna e
redondezas, que estava morto. Os outros jagunços se
puseram em marcha para Tocaia Grande com o propósito de
acabar com todos e com tudo que se interpusesse nos seus
caminhos. A maioria da população morre. Natário e
Jacinta Coroca, no outeiro do Capitão armaram emboscada
para os mandantes daquela desgraça:
"No
vislumbre da lua cheia cravada sobre a terra violada,
sobre o rio assassinado, sobre a morte desatada, na hora
da meio-noite, junto ao pé de mulungu, no alto do
outeiro do Capitão, Jacinta Coroca e Natário da Fonseca,
ela com a repetição, ele com o parabelo, na tocaia,
usufruíram a beleza da paisagem. Lá embaixo, jazia
Tocaia Grande ocupada pelos jagunços e pelos cabras da
briosa...
Chegou
até eles o tropel da comitiva dos notáveis. Vinham da
desolação. Vinham da desolação da Baixa dos Sapos: nas
choças abandonadas pelas raparigas, os jagunços
haviam-se entrincheirados, (...) na casa de madeira, nos
barrancos de adobe, o Intendente, o Juiz, o Promotor, o
Mandatário e a companhia, a corte altissonante, se
abrigam, aguardando o momento de entrada triunfal.
Despontam sob a claridade do luar, uma cavalgada de se
ver e bater palmas: gordos, fortes garbosos, bem
vestidos, bem dispostos, traziam a lei para implantá-la.
Jacinta Coroca apoiou a repetição no galho de árvores. O
Capitão Natário de Fonseca repetiu:
- Lugar
mais bonito pra viver!
- Não
há igual – concordou Coroca.
Montando um esplendo de égua, no centro do cortejo,
tendo de um lado o Intendente, do outro a divina Ludmila
Gregorióvna, destacava-se o corpanzl do bacharel
Boaventura Andrade Júnior, chefe político, mandachuva. A
cara aberta em riso.
Natário
firmou pontaria, visando a testa de Venturinha. Em mais
de vinte anos, não errara um tiro. Com sua licença,
Coronel.
II- Comentários
Há
discurso direto, indireto e indireto livre.
A
narrativa, conforme palavras do autor, se dá de "déu em
déu", ou seja, conforme as afluíam, sem preocupação de
linearidade. Na verdade, o autor nos vai pintando em
separado peças de um mosaico que cabe a nós leitores
montá-lo e compreendê-lo.
Elementos primordiais do discurso de Jorge Amado: os
coronéis, jagunços e prostitutas.
Os
coronéis como figura de esteio: os jagunços cabras
mandados, nos dando a impressão de seres insensíveis,
que cumprem ordens sem se darem conta se o ato que
cometeram está certo ou errado; e as prostitutas, aos
montes, as pencas, para deleite dos coronéis, jagunços e
toda a corte nordestina.
Mulheres-damas que se dão por dinheiro, depois de, quase
sempre, terem sido estupradas pelos pais, não tendo mais
sonhos ou ilusões caem pela vida e acabam fazendo por
prazer. São aves de arribação que vivem insatisfeito,
razão pela qual não se firma em nenhum lugar. |