Dentro dos ciclos, das aventuras do tempo,
há sempre algo que entendemos como misterioso. Mas não é.
Entendemo-nos como vítimas em certos
momentos, como se outros pudessem ter poder sobre nós. Assim,
não é incomum ouvirmos alguém dizer: "ele(a) me causou todo
este sofrimento!"
A vida me ensinou algumas coisas. Não são
muitas, mas mesmo assim, um dia, predispus-me a compartilhar
com os outros o que aprendi.
Entre algumas das lições, uma se destaca: a única
pessoa com poderes para me atingir – seja de que forma for –
sou eu mesmo. A ilusão de que outros podem isso, tem sua raiz
no fato de que sempre tenderei a fugir de minha
responsabilidade. Mas, fui eu que dei o poder de ação ao
outro, logo, ele embora cometa um erro, não é dono da culpa.
Se alguma culpa existe, ela será sempre, exclusivamente,
minha.
Desta forma se fui vítima de alguém, em
última análise, fui vítima de mim mesmo. Daí a inutilidade do
sentimento de vítima. Pois algoz e vítima são sempre a mesma
pessoa.
Admitir os próprios erros, não é algo que
os exemplos mais comuns da vida nos ensinam, é algo que temos
que aprender sozinhos, se nosso objetivo é crescer como pessoa
diante da imensidão da vida.
Descobrir isso dá, queiramos ou não, um
grande poder. O que fazer com este poder é um assunto que cada
um deve resolver dentro de si. Porém, sempre é bom lembrar que
qualquer deslize custa caro.
Não há para onde fugir!
Aliás, a fuga tem sido um hábito humano de
grandes e negativas conseqüências para o próprio autor. Pois
fugir é impossível. As ilusões dizem que não, mas os fatos
comprovam o contrário. Melhor escolher os fatos!
Quando escrevi “Unidade di-vi-di-da”
(1970-1976), vivia um ciclo ruim de minha vida. Isso fica
evidente no negativismo que salta das palavras amargas
impressas. Foi um tempo de perdas imensas. Mas de lições
preciosas.
E sobrevivi.
Muito mais ganhei e perdi depois. Mas já
não me importava mais com isso, pois dentro de mim algo ficou
patente: nada tenho, nada posso ter. A única coisa que posso,
realmente, se for atuante, diligente, é SER. A lição do
desapego não é fácil, mas é possível.
Hoje, quando vejo alguém sofrendo pelas
mesmas razões que sofri, apenas fico em silêncio e ofereço
minha presença incondicional. Nada há que possa dizer para
amenizar a dor alheia. Pois cada um só poderá descobrir por si
mesmo a estrutura do mal que o assola. Isso é doloroso, mas a
vida é assim. Essa é a verdadeira solidão.
Por outro lado, solidariedade é um bom
comportamento. Uma presença. Um olhar. Uma transferência
silenciosa de sentimento para o outro. Mesmo podendo ser, em
alguns momentos, uma ajuda material, na maioria das vezes é
apenas uma presença. Como quem diz com seu respeitoso
silêncio: "você é importante!"
Talvez o amor seja mais uma ação que um
sentimento. Um deixar-se ficar do lado, estar junto com
sinceridade. Com um olhar franco, sempre verdadeiro.
Independentemente do momento, disso dependerá tudo o mais que
virá.
A vida é uma unidade "dividida". Ou seja,
todos fazem parte uns dos outros, porém, poucos percebem isso.
Então a unidade se perde na ilusão da separação.
Um dia, quem sabe, a humanidade consiga
perceber sua unidade. No entanto, até lá, sempre será preciso
SOBREVIVER.
E fazer isso da forma mais honrada
possível, é o trabalho de cada um. Portanto, cada um é – e
sempre será – "produto" de seu próprio trabalho, ou de sua
própria preguiça.
A boa notícia é que a escolha sempre será
de cada um de nós, nunca de terceiros, por mais que se pense o
contrário.
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
27/03/2007