A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

ANOTAÇÃO (DES)NECESSÁRIA

 

Dentro dos ciclos, das aventuras do tempo, há sempre algo que entendemos como misterioso. Mas não é.

Entendemo-nos como vítimas em certos momentos, como se outros pudessem ter poder sobre nós. Assim, não é incomum ouvirmos alguém dizer: "ele(a) me causou todo este sofrimento!"

A vida me ensinou algumas coisas. Não são muitas, mas mesmo assim, um dia, predispus-me a compartilhar com os outros o que aprendi.    

Entre algumas das lições, uma se destaca: a única pessoa com poderes para me atingir – seja de que forma for – sou eu mesmo. A ilusão de que outros podem isso, tem sua raiz no fato de que sempre tenderei a fugir de minha responsabilidade. Mas, fui eu que dei o poder de ação ao outro, logo, ele embora cometa um erro, não é dono da culpa. Se alguma culpa existe, ela será sempre, exclusivamente, minha.

Desta forma se fui vítima de alguém, em última análise, fui vítima de mim mesmo. Daí a inutilidade do sentimento de vítima. Pois algoz e vítima são sempre a mesma pessoa.

Admitir os próprios erros, não é algo que os exemplos mais comuns da vida nos ensinam, é algo que temos que aprender sozinhos, se nosso objetivo é crescer como pessoa diante da imensidão da vida.

Descobrir isso dá, queiramos ou não, um grande poder. O que fazer com este poder é um assunto que cada um deve resolver dentro de si. Porém, sempre é bom lembrar que qualquer deslize custa caro.

Não há para onde fugir!

Aliás, a fuga tem sido um hábito humano de grandes e negativas conseqüências para o próprio autor. Pois fugir é impossível. As ilusões dizem que não, mas os fatos comprovam o contrário. Melhor escolher os fatos!

Quando escrevi “Unidade di-vi-di-da” (1970-1976), vivia um ciclo ruim de minha vida. Isso fica evidente no negativismo que salta das palavras amargas impressas. Foi um tempo de perdas imensas. Mas de lições preciosas.

E sobrevivi.

Muito mais ganhei e perdi depois. Mas já não me importava mais com isso, pois dentro de mim algo ficou patente: nada tenho, nada posso ter. A única coisa que posso, realmente, se for atuante, diligente, é SER. A lição do desapego não é fácil, mas é possível.

Hoje, quando vejo alguém sofrendo pelas mesmas razões que sofri, apenas fico em silêncio e ofereço minha presença incondicional. Nada há que possa dizer para amenizar a dor alheia. Pois cada um só poderá descobrir por si mesmo a estrutura do mal que o assola. Isso é doloroso, mas a vida é assim. Essa é a verdadeira solidão.

Por outro lado, solidariedade é um bom comportamento. Uma presença. Um olhar. Uma transferência silenciosa de sentimento para o outro. Mesmo podendo ser, em alguns momentos, uma ajuda material, na maioria das vezes é apenas uma presença. Como quem diz com seu respeitoso silêncio: "você é importante!"

Talvez o amor seja mais uma ação que um sentimento. Um deixar-se ficar do lado, estar junto com sinceridade. Com um olhar franco, sempre verdadeiro. Independentemente do momento, disso dependerá tudo o mais que virá.

A vida é uma unidade "dividida". Ou seja, todos fazem parte uns dos outros, porém, poucos percebem isso. Então a unidade se perde na ilusão da separação.

Um dia, quem sabe, a humanidade consiga perceber sua unidade. No entanto, até lá, sempre será preciso SOBREVIVER.

E fazer isso da forma mais honrada possível, é o trabalho de cada um. Portanto, cada um é – e sempre será – "produto" de seu próprio trabalho, ou de sua própria preguiça.

A boa notícia é que a escolha sempre será de cada um de nós, nunca de terceiros, por mais que se pense o contrário.

Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 27/03/2007