A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

A PAZ

 

O homem tem feito pela paz o mesmo que com as árvores. Os resultados já começam a se revelar para os céticos, conquanto já era visível há anos, pelos lúcidos.

Ela – a paz – que deveria ser mantida, hoje precisa ser reconstruída. E este é um trabalho que poderia encaixar-se como um 13º  trabalho de Hércules. Mas ele permanece retido na mitologia grega.

Quando o homem se insurgiu contra a Natureza e sua paz, criou uma ampliação de conflitos contrários à lei natural. Pior: os conflitos criados pelo homem obedecem tão somente ao egoísmo, o inimigo nada desprezível do bem estar da humanidade.

Na sua louca corrida em direção ao caos, a humanidade executa um suicídio coletivo em “doses homeopáticas”. Vem morrendo a cada dia, acreditando, paradoxalmente, que possui o dom da verdade imutável.

A impressão que se pode ter, é que tudo tem sempre uma única direção: o sensacionalismo barato, cujo único objetivo são os dividendos financeiros e a evidência das celebridades. Na outra ponta, o lucro fácil e rápido, seguindo sempre a lei do menor esforço.

Cada um possui o olhar fixo no próprio umbigo. E o resto é resto.

Mas a paz deveria ser o centro de todas as ações, a bem de sua manutenção no tempo e perpetuação na história de seres que nasceram para ser luminosos, mas se apaixonaram pelas trevas.

A soma de fanatismos, nas mais diversas áreas da atuação humana, evidencia o desequilíbrio mental (evitando-se dizer loucura) da raça humana sobre a terra. As religiões que deveriam ser um porto seguro, seguem a serviço da ganância pura e simples do materialismo que sabe, como ninguém, travestir-se de algo santificado, enquanto – na verdade – é sacrílego.

A energia conhecida em sua manifestação com o nome de dinheiro, teve seu sentido invertido. Não labora em favor do bem comum, mas dos mais aviltantes interesses particulares. A vergonha da morte pela fome perdeu-se na incapacidade de amar instalada por um processo tenebroso de condicionamento coletivo.

As fronteiras, funcionam como desgraças programadas, onde a santidade da vida é algo irrelevante. E as guerras, a mais inequívoca revelação deste fato.

Loucos com poder pululam pelo planeta. Surgem nos mais variados meios. No oceano fétido de políticos doentios até as administrações de impérios econômicos com total desconhecimento e insensibilidade quanto ao valor da a vida.

As mais perigosas combinações, de fanatismo religioso com sistemas políticos se consolidam em vários pontos do planeta e jamais se encontram a serviço da paz, mas radical e doentiamente contra ela. As palavras e os gestos raramente combinam.

Cada vez mais cegos guiam cegos!

E a Terra segue seu destino no Universo. E, se preciso for,  ela se livrará de nós e seguirá seu “caminho”, sua órbita. Talvez um pouco avariada, mas livre dos incômodos de uma civilização sem a menor civilidade.

A humanidade, no seu todo, se comporta como um enfermo grave que se julga perfeitamente sadio: recusa parar de olhar o próprio umbigo e perceber, de alguma forma, que algo está errado. Tremendamente errado.

Não nos damos conta de que estamos perdendo muito. Antigamente tínhamos quatro estações no ano. Hoje temos anos caóticos, onde primavera; verão; outono e inverno, misturando-se estranhamente, para formar uma só e estranha “estação” onde não haverá lugar para a vida e quiçá retorno à normalidade.

Mesmo aqueles que falam em paz, trazem no coração o egoísmo disfarçado pelas palavras escolhidas a dedo e provocam, ironicamente uma anti-paz.

Por isso, enquanto as crianças pagarem pelos nossos erros, transformando-se – quando sobrevivem – em adultos frustrados, infelizes, revoltados e até violentos, as guerras existirão, a droga reinará absoluta e a PAZ não existirá.

E num certo dia teremos construído, por um breve e efêmero tempo, a vitória da iniqüidade.  Será nossa última “façanha” como humanidade!

A realidade se desenha cada vez mais terrível. Nosso planeta é uma bomba contendo centenas de bombas. E se ele não explodir por si,  explodirá pelas mãos dos imbecis que regrediram no tempo e reinstalaram a era da belicosidade atômica.

As terríveis lições do passado, parecem nada haver ensinado àqueles que se julgam donos do poder. Um provável inverno nuclear será, sem dúvida filho de nosso “inverno da insensibilidade” e da mais elementar burrice.

Podemos entender que qualquer pessoa, com uma mediana lucidez, haverá de concordar com o fato de que jogar sobre os jovens aquela antiga sensação de medo, por conta do errôneo emprego da energia nuclear, ultrapassa as raias da perversidade.

 Uma questão se levanta acima de tantas outras em nosso tempo: por quê temos essa insólita e terrível tendência de optar pelo nosso lado escuro, em detrimento da luminosidade que a PAZ pode nos dar?

 
Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 01/03/2007