A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

APENAS ALGUNS NÚMEROS

 

Se existe algo que a vida teima em nos ensinar cotidianamente é que, queiramos ou não, sempre pagamos pelos nossos reiterados erros e, na maioria das vezes, em dinheiro.

Estamos nos consumindo na busca de uma resposta para a crescente ausência de ética nos comportamentos das mais variadas áreas. Deixando de lado o setor público, onde qualquer tentativa de esculacho será mera gota no oceano, vamos nos ater aqui apenas àquela fatia do empresariado brasileiro que insiste em seguir caminhos que, já abandonados pelos lúcidos há muito tempo, continua sendo trilhados com incompetência,  d i l i g e n t e m e n t e.

Levando em consideração que meu ambiente de trabalho, durante mais de vinte e três anos, foi na área de pessoal, os números com os quais vamos “brincar”, tratam de comportamentos reiterados nesta área. Nada impede que se estenda o raciocínio para outros setores de uma empresa.

Existem – e poucos ousariam negar – empresários que optam pelo comportamento negligente com o gerenciamento sério dos negócios, na busca de um gerenciamento “meia boca”, por uma questão de preço na sua aquisição.

Antes de continuarmos vamos dar uma olhada nas tabelas abaixo. Brincar com alguns números fictícios. Estas tabelas foram elaboradas numa tentativa de refletir simplificação para exemplificar uma idéia. Transformada em slide, é utilizada em palestras, quando estas ocorrem num ambiente empresarial. Vejamos:

Tabela “A”:

 DESCRIÇÃO

VALOR

Faturamento médio mensal da empresa

200.000,00

Salário Encarregado de Depto. Pessoal

-2.200,00

Salário Assistente de Depto. Pessoal

-1.500,00

Salário Auxiliar de Depto. Pessoal

-1.000,00

Perda Mensal com retrabalhos por erros no Depto. Pessoal (1%)

 -2.000,00

Saldo bruto para abatimento das outras despesas

195.300,00

 

Tabela “B”:

DESCRIÇÃO

VALOR

Faturamento médio mensal da empresa

 200.000,00

Salário Encarregado de Depto. Pessoal

-1.000,00

Salário Assistente de Depto. Pessoal

-700,00

Salário Auxiliar de Depto. Pessoal

-600,00

Perda Mensal com retrabalhos por erros no Depto. Pessoal (10%)

-20.000,00

Saldo bruto para abatimento das outras despesas

177.700,00

 

Os números acima, em ambas as tabelas, refletem dados exemplificativos, apenas  relativos ao departamento pessoal de uma pequena ou média empresa.

Embora os dados dispensem comentários, vale a pena ressaltar que uma empresa pode perder muito na escolha errada de seus colaboradores, seguindo os moldes da tabela “B”. Comumente, podemos chamar isso de prática da “economia burra”. E como diz a velha sabedoria popular: o barato sai caro.

O mais impressionante é observar que muitas empresas insistem nos mesmos velhos erros, preferindo repassar o prejuízo para o preço de seus produtos. Trabalham com um eufemismo chamado “risco calculado”. Começam a perder mercado, colecionam derrotas e imaginam que sua “política” administrativa está correta, apesar de tamanha ingerência e que todos os outros estão errados.

Muitas empresas estão sucumbindo e colocando como culpada exclusiva, a globalização. Mas não é apenas isso. A globalização, na verdade, poderá até ser instrumento de impulso para o aperfeiçoamento, mais que nunca necessário.

Um gerenciamento correto optaria pela tabela “A”, pois aquilo que pode parecer “caro”, na verdade, é razão de economia real e, acima de tudo, agente de capacitação apropriada para enfrentar, entre outras coisas, a globalização.

No plano pessoal, muitas pessoas às vezes optam pela compra de produtos de quinta categoria, sem atentar para o fato de que fará tais compras muito mais vezes, do que se adquirisse o produto original. Ou seja: praticam pequenas economias para obterem grandes prejuízos. É o caso típico que as tabelas acima revelam.

Hoje, mais que nunca, existe uma opção coletiva pelos produtos piratas e descartáveis, ao máximo. Existe ainda, a nova moda dos produtos “remanufaturados” que, não raro, “rendem” prejuízos gigantescos. Isto ocorre muito com relação às peças automotivas. Segurança passou a ser item dispensável.

Há um elenco imenso de exemplos do barato que sai caro, neste jogo despido de qualquer ética ou bom senso.

Além dos prejuízos, o mais perverso dos “sub-produtos” de tais comportamentos, é o desemprego.

Para complicar esse círculo vicioso, surgem tributações de “emergência”, onde os governos ampliam a já absurda carga tributária.

Vivemos no País da vantagem, onde o poder vai à frente dando péssimos exemplos e sempre mais propenso a punir que a evitar danos. Se há sonegação, esta é incentivada pela majoração das alíquotas e pelos sistemáticos desvios das arrecadações. A burrice explícita não permite que se entenda que a redução de alíquotas aumenta a arrecadação. Parece ser preferível matar “a galinha dos ovos de ouro”. Sofremos o mal da ingerência progressiva de forma geométrica.

 Voltando aos números: se quantificássemos os prejuízos dando-lhes seus valores, teríamos um número que, de tão gigantesco, seria impronunciável.

Chegamos então, diante de todo o estrago visível na economia nacional, frente à revelação de que não se trata de apenas alguns números. Vidas estão sendo destruídas, unicamente por pura burrice.

Enquanto isso, (sobre)vivemos num País eternamente  “do futuro” !

Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 26/07/2006