A casa dos grandes pensadores
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

A VERGONHA PERDIDA

 

      Na inversão absurda de conceitos, da qual padece o mundo atualmente – e nosso País em particular – é motivo para orgulho, o que deveria ser motivo de vergonha. A expressiva ampliação do poder econômico na área financeira, nos últimos tempos, está sem dúvida assentada sobre um alicerce de ossos de várias gerações de brasileiros.

      Mas não há vergonha nisso, pois o foco está centralizado no grande desempenho dos bancos aqui no Brasil, como não acontece em outra parte do planeta. Ao contrário, é orgulho o sentimento que predomina.

      E calados assistimos ao espetáculo grotesco espalhado no entorno. Muitas vidas se perdendo por via do desespero dominante. Os mais fracos (de espírito) jazem sem forças, entregues aos vícios e à violência. Enquanto isso, a renda é distribuída somente entre uma camada minúscula da sociedade. Apenas um seleto grupo que navega acima da lei, pois o diploma legal que coíbe a usura, só o faz para a maioria impotente.

      O sistema financeiro é composto por pessoas “mais iguais” do que a igualdade estampada na Constituição Federal. Leis específicas as protege, numa aberração jurídica sem precedentes.

      O pobre mortal que lê estas letras aqui mal dispostas, de propósito, jamais poderá aventar a hipótese de ultrapassar os juros legais de 12% ao ano. Mas haverá de pagar taxas de juros escorchantes ditadas pelo sistema financeiro acima (ou fora) da Lei.

O lucro é pecado?

É evidente que não, mas a exploração sistemática de uma nação, empobrecendo cada dia mais seu povo, é mais que pecado, beira as raias do crime. E como tal seria tratado, não fosse uma legislação específica a tornar legal aquilo que é imoral e criminoso.

As manchetes sobre o lucro dos bancos estampam, a cada edição, números assombrosos. Lucro de mais de 100% em menos de um ano, já é coisa ridícula.

Os dois maiores bancos do mercado financeiro nacional estão disputando quem ganha mais, enquanto os cidadãos perdem, cada dia mais, na exata proporção inversa.

E o que mais torna abominável tudo isso, é a letargia de um governo que não tem a coragem de tomar atitudes que lembrem a finalidade da riqueza: o povo. Ou não seria pura letargia/covardia, mas uma mera cumplicidade?

Não seria preciso tomar nenhuma atitude drástica que colocasse em risco a autonomia econômica nacional, mas medidas que minimizassem, com seriedade, a usura praticada pelo sistema financeiro. Fazer valer o disposto na Lei Maior, juros legais de 12% ao ano, ou algo mais próximo disso e não juros de 12% ao mês. Isso para ser otimista.

Mas detalhes técnicos são mais importantes que vidas. Nossa Terra se tornou uma nau sem rumo, ou pior, em direção ao inferno, se por acaso ele existisse fora daqui.

Não há falta de vergonha só na cara. Há falta de vergonha em todo lugar. E ainda teremos políticos, na próxima eleição, prometendo exatamente o oposto do que irão fazer.

Deveriam, também, não ter vergonha de dizer a verdade! 

Joaquim Saturnino da Silva

Josaturnino@aasp.,org.br

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 08/11/2005