A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

Da desesperança

 

Não há muito com o que contar em termos de evolução da lucidez coletiva. Aliás, a parcela  esclarecida da Nação mais e mais se encolhe, desistindo de multiplicar seus conhecimentos a respeito de como funciona (ou não funciona) o sistema em que nos metemos ao longo do tempo.

É triste ouvir pessoas esclarecidas, declarando não mais acreditar na possibilidade de retorno a uma decência mínima. Cada vez se torna mais comum o argumento de que não existe solução. Pois a solução exige muito trabalho e disciplina, que compõe o custo de seu valor. Ainda, que o emprego de dedicação e tempo tem se revelado inócuo.

É altamente preocupante imaginar o futuro de nossos filhos. Por outro lado, é um grande alento ver que uma grande parcela da juventude declara não aceitar o tipo de coisas que se tornou tão banal. Uma bela parcela da juventude já entende, intuitivamente, que algo não está funcionando. Procuram um bem que seja comum.

A desesperança não possui uma razão definitiva, afinal. Aqueles que ainda se sentem “vivos”, não desistiram de lutar.

A esperança, exceto quando seja mero efeito alienante, tem um lado que passa desapercebido, mas bastante eficaz, que congrega jovens capazes de – serenamente, mesmo em meio a conflitos – lucidamente perceber que o futuro é um tempo construído por eles, ou destruído, sendo sempre, o resultado, uma questão de opção pessoal.

Atualmente muitos filhos têm mais a ensinar aos pais, que o contrário. Nasceram e foram criados ao ritmo de um mundo informatizado, onde tudo é veloz. Possuem mentes ágeis pela própria condição de seu momento.

Mas mesmo assim, a maior parte segue repetindo velhos erros e a juventude, mais do que nunca, continua sendo ignorada como grande benção e só reconhecida quando já virou passado. Cultiva-se, aceleradamente, o velho defeito de tentar viver de passado.

Não existe expressão maior de amor que a de pais por seus filhos. No entanto, existe uma forte tendência em se “ungir” os valores materiais com uma santidade que, embora eloqüente, é falsa. A grande esperança daqueles que possuem alguma luz ainda, está no desejo de que essa mentira não vença o desafio. Pois se isso acontecer, nenhuma esperança de sobrevivência decente haverá, no médio prazo. Pois quando a matéria é exaltada em detrimento do espírito, os resultados passam pela tragédia.

O homem é o único animal que destrói seu semelhante conscientemente. Ou seja, é um predador racional, por puro egoísmo. Deturpa o sentido da liberdade para si, enquanto provoca a violência às liberdades alheias. Há um desejo de poder dominante, mas o poder é um animal selvagem, que jamais será domado.

A vida e a morte são o poder. Dois lados de uma mesma moeda. Estranha dualidade que é parte do homem. Mas enquanto tem uma, não poderá ter a outra.

E talvez seja por isso, apenas por isso, o poder não é passível de domínio e viver seja uma eterna procura. Uma sensação transcendental de ser apenas uma metade.

Então podemos olhar, infelizmente, para uma espécie de cristalização da desesperança. Pois desejar o impossível, insuflado pelas ilusões, é navegar num eterno descontentamento, um perene não ser.

Propagandas, que em nada ajudam, distribuem essas ilusões, nas mais diversas formas, como se fossem sonhos. As drogas, através de seus traficantes, oferecem o impossível. No ritmo dessa loucura, a razão se distancia na mesma proporção que as ilusões avançam, consolidando uma monstruosa lavagem cerebral.

A ilusão é uma venda aceita sobre os olhos, por desinformação ou carência, mas sempre, por uma escolha própria. E cada um passa a carregar dentro de si seu pior inimigo, constantemente onipresente.

Impossível fugir disso. E assim, cada um se torna vítima de si mesmo. A ilusão é contrária ao sonho legítimo mola propulsora do conhecimento e das realizações.

E as mentes estão abarrotadas de quinquilharias que apenas ampliam o desespero. Falsas filosofias pululam impunemente e, quase sempre disfarçadas em pseudo-religiões, vão distribuindo a desesperança, envenenando um  oceano de almas desavisadas.

Até, finalmente, se chegar à pergunta mais simples e mais difícil de responder: quem é você!

      Sem dúvida, talvez uma das maiores ironias construída pela humanidade seja o fato de que a solução já foi apresentada há milhares de anos: conheça-te a ti mesmo! Um eco grego, simples, objetivo e, por isso mesmo, inacreditável.

E enquanto o conhecimento não brilhar, não haverá luz suficiente para erradicar o fantasma da desesperança.

 
Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 19/06/2007