Não há muito com o que contar em termos
de evolução da lucidez coletiva. Aliás, a parcela esclarecida
da Nação mais e mais se encolhe, desistindo de multiplicar
seus conhecimentos a respeito de como funciona (ou não
funciona) o sistema em que nos metemos ao longo do tempo.
É triste ouvir pessoas
esclarecidas, declarando não mais acreditar na possibilidade
de retorno a uma decência mínima. Cada vez se torna mais comum
o argumento de que não existe solução. Pois a solução exige
muito trabalho e disciplina, que compõe o custo de seu valor.
Ainda, que o emprego de dedicação e tempo tem se revelado
inócuo.
É altamente preocupante imaginar o
futuro de nossos filhos. Por outro lado, é um grande alento
ver que uma grande parcela da juventude declara não aceitar o
tipo de coisas que se tornou tão banal. Uma bela parcela da
juventude já entende, intuitivamente, que algo não está
funcionando. Procuram um bem que seja comum.
A desesperança não possui uma razão
definitiva, afinal. Aqueles que ainda se sentem “vivos”, não
desistiram de lutar.
A esperança, exceto quando seja mero
efeito alienante, tem um lado que passa desapercebido, mas
bastante eficaz, que congrega jovens capazes de – serenamente,
mesmo em meio a conflitos – lucidamente perceber que o futuro
é um tempo construído por eles, ou destruído, sendo sempre, o
resultado, uma questão de opção pessoal.
Atualmente muitos filhos têm mais a
ensinar aos pais, que o contrário. Nasceram e foram criados ao
ritmo de um mundo informatizado, onde tudo é veloz. Possuem
mentes ágeis pela própria condição de seu momento.
Mas mesmo assim, a maior parte segue
repetindo velhos erros e a juventude, mais do que nunca,
continua sendo ignorada como grande benção e só reconhecida
quando já virou passado. Cultiva-se, aceleradamente, o velho
defeito de tentar viver de passado.
Não existe expressão maior de amor que
a de pais por seus filhos. No entanto, existe uma forte
tendência em se “ungir” os valores materiais com uma santidade
que, embora eloqüente, é falsa. A grande esperança daqueles
que possuem alguma luz ainda, está no desejo de que essa
mentira não vença o desafio. Pois se isso acontecer, nenhuma
esperança de sobrevivência decente haverá, no médio prazo.
Pois quando a matéria é exaltada em detrimento do espírito, os
resultados passam pela tragédia.
O homem é o único animal que destrói
seu semelhante conscientemente. Ou seja, é um predador
racional, por puro egoísmo. Deturpa o sentido da liberdade
para si, enquanto provoca a violência às liberdades alheias.
Há um desejo de poder dominante, mas o poder é um animal
selvagem, que jamais será domado.
A vida e a morte são o poder. Dois
lados de uma mesma moeda. Estranha dualidade que é parte do
homem. Mas enquanto tem uma, não poderá ter a outra.
E talvez seja por isso, apenas por
isso, o poder não é passível de domínio e viver seja uma
eterna procura. Uma sensação transcendental de ser apenas uma
metade.
Então podemos olhar, infelizmente, para
uma espécie de cristalização da desesperança. Pois desejar o
impossível, insuflado pelas ilusões, é navegar num eterno
descontentamento, um perene não ser.
Propagandas, que em nada ajudam,
distribuem essas ilusões, nas mais diversas formas, como se
fossem sonhos. As drogas, através de seus traficantes,
oferecem o impossível. No ritmo dessa loucura, a razão se
distancia na mesma proporção que as ilusões avançam,
consolidando uma monstruosa lavagem cerebral.
A ilusão é uma venda aceita sobre os
olhos, por desinformação ou carência, mas sempre, por uma
escolha própria. E cada um passa a carregar dentro de si seu
pior inimigo, constantemente onipresente.
Impossível fugir disso. E assim, cada
um se torna vítima de si mesmo. A ilusão é contrária ao sonho
legítimo mola propulsora do conhecimento e das realizações.
E as mentes estão abarrotadas de
quinquilharias que apenas ampliam o desespero. Falsas
filosofias pululam impunemente e, quase sempre disfarçadas em
pseudo-religiões, vão distribuindo a desesperança, envenenando
um oceano de almas desavisadas.
Até, finalmente, se chegar à pergunta
mais simples e mais difícil de responder: quem é você!
Sem dúvida, talvez uma das maiores ironias construída pela
humanidade seja o fato de que a solução já foi apresentada há
milhares de anos: conheça-te a ti mesmo! Um eco grego,
simples, objetivo e, por isso mesmo, inacreditável.
E enquanto o conhecimento não brilhar,
não haverá luz suficiente para erradicar o fantasma da
desesperança.
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
19/06/2007