Quatro olhos enfrentaram os
meus com serenidade. Confesso que estranhei o convite para
aquele encontro para “tomar uma cerveja” e trocar idéias. São
duas mulheres memoráveis, jamais conheci outra que as
suplantassem no quesito objetividade, exceto a mãe das duas,
que pudesse ser tão segura e certeira nas suas colocações.
Confesso que um homem não
gosta de ser dominado pelos olhos de uma mulher, quanto mais
de duas, assim a “queima-roupa”.
De dentro de meu desconforto
temporário, tentei assimilar o que viria pela frente. E não
demorou muito. Pois ambas falaram ao mesmo tempo, as mesmas
palavras, como se houvessem ensaiado e, eu sabia, que não
houvera ensaio.
-
Pai. Você precisa
reagir!
Ainda não sei se a vida nos
dá e nos tira, ou se conseguimos as coisas e as perdemos, sem
interferência de quaisquer forças externas. Quanto mais olho
para o passado, mais vejo onde errei e a consciência se amplia
assustadoramente, sobre o quanto do simples compliquei.
Sim, precisava reagir. Mas
como? Estariam elas com a resposta?
Olhei para o celular apenas
para conferir a hora, pois detesto usar relógio. Elas
argumentaram que deveria esquecer o tempo e pensar em mim. Os
outros, disseram elas, continuarão suas vidas se você se for,
então desista dessa preocupação com as coisas alheias e pense
em você, ao menos desta vez.
-
Pai, você esqueceu sua
vida pelas nossas e por outras tantas. Jamais vimos você
fazendo algo para si mesmo. No mundo de hoje, essa entrega é
absurda pai. Essa é a razão da sua solidão. Você precisa de
algo que lhe dê o prazer de viver, que você perdeu.
Era a mais velha falando, do
alto de seus vinte e seis anos, para meus míseros cinqüenta e
três anos de aprendizado. Era, literalmente a “obra” ensinando
ao seu criador. E por um instante senti o orgulho de, pelo
menos ali, não ter falhado.
O homem é um ser estranho.
Quase sempre erra, na mais absoluta crença de que está certo,
perfeito, em seus atos e na escolha de seus objetivos.
Aqueles dois pares de olhos fixos em mim, me diziam isso,
mesmo sem que as palavras fossem articuladas.
-
Olha. Se te usaram,
abusaram e te chutaram, tirando o que era seu de direito, foi
porque você deixou pai. Você pensou que os outros eram
sinceros, pensavam e sentiam como você. Era teatro, puro
teatro querido. Você julgou as pessoas através de si mesmo.
Confiou e se deu sem desconfiar que era apenas útil, jamais
considerado como a pessoa que é.
Esta, com seus vinte e dois
anos, era mais prática e incisiva do que jamais fui na vida.
Sim, eu tinha preparado duas
mulheres para a vida de tal forma, que suplantavam o pouco que
pensava ter preparado para mim mesmo.
Disseram, com carinho e
preocupação explícita, de minha incapacidade de descobrir
motivos para continuar vivendo e, acima de tudo, encontrar
razões para voltar a sorrir. Que me tornara amargo demais,
para poder caber em mim e seguir em frente. Que não era justa
minha insistência na prática de meu egoísmo zero, pois se não
pensasse em mim, estaria encurtando meu tempo de permanência
em nossa convivência.
Considerei muito, as coisas
que ouvi de minhas filhas. Deduzi que, às vezes, filhos podem
salvar a vida dos pais. E esse foi o caso. Pois naquele
momento, decidi abandonar a errônea idéia de que poderia
“salvar o mundo”. Que o estresse no qual havia mergulhado,
por conta da angústia de meus enganos de avaliação daqueles
que me espoliaram, era algo do qual precisava fugir e
recomeçar. Mais lúcido e confiante em mim mesmo. Buscar a
normalidade perdida da pressão arterial bruscamente alterada,
que me levava rapidamente a um infarto inevitável, nas
palavras do cardiologista.
Poucas coisas doem tanto,
quanto a queda de um sonhador para a realidade de um mundo que
não admite mais a confiança, a boa-fé e a honestidade nos
relacionamentos. Lealdade, hoje, não é apenas uma palavra fora
de moda, tornou-se ridícula. Pois o que antigamente era sinal
de um caráter íntegro, virara defeito. Um aleijão social.
Tornei-me assim, um deficiente emocional. Optara pela
excelência do ser, em detrimento do ter. Errei feio.
Mas ao final daquele encontro
sai redimido. Certo de que sempre é possível, recomeçar. Mesmo
sendo difícil alterar um comportamento cultivado a vida toda,
deveria ainda haver tempo para corrigir o rumo e olhar para
outra direção. A direção onde se dirige o olhar da maioria
das pessoas e a que mais odiei e combati em toda a minha vida:
o próprio umbigo.
Joaquim Saturnino da Silva
Publiação:
www.paralerepensar.com.br -
03/08/2006