A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

DOIS AMORES

 

Quatro olhos enfrentaram os meus com serenidade. Confesso que estranhei o convite para aquele encontro para “tomar uma cerveja” e trocar idéias. São duas mulheres memoráveis, jamais conheci outra que as suplantassem no quesito objetividade, exceto a mãe das duas, que pudesse ser tão segura e certeira nas suas colocações.

Confesso que um homem não gosta de ser dominado pelos olhos de uma mulher, quanto mais de duas, assim a “queima-roupa”.

De dentro de meu desconforto temporário, tentei assimilar o que viria pela frente. E não demorou muito. Pois ambas falaram ao mesmo tempo, as mesmas palavras, como se houvessem ensaiado e, eu sabia, que não houvera ensaio.

-         Pai. Você precisa reagir!

Ainda não sei se a vida nos dá e nos tira, ou se conseguimos as coisas e as perdemos, sem interferência de quaisquer forças externas. Quanto mais olho para o passado, mais vejo onde errei e a consciência se amplia assustadoramente, sobre o quanto do simples compliquei.

Sim, precisava reagir. Mas como?  Estariam elas com a resposta?

Olhei para o celular apenas para conferir a hora, pois detesto usar  relógio. Elas argumentaram que deveria esquecer o tempo e pensar em mim. Os outros, disseram elas, continuarão suas vidas se você se for, então desista dessa preocupação com as coisas alheias e pense em você, ao menos desta vez.

-                  Pai, você esqueceu sua vida pelas nossas e por outras tantas. Jamais vimos você fazendo algo para si mesmo. No mundo de hoje, essa entrega é absurda pai. Essa é a razão da sua solidão. Você precisa de algo que lhe dê o prazer de viver, que você perdeu.

Era a mais velha falando, do alto de seus vinte e seis anos, para meus míseros cinqüenta e três anos de aprendizado. Era, literalmente a “obra” ensinando ao seu criador. E por um instante senti o orgulho de, pelo menos ali, não ter falhado.

O homem é um ser estranho. Quase sempre erra, na mais absoluta crença de que está certo, perfeito, em seus atos e na escolha de seus objetivos.  Aqueles dois pares de olhos fixos em mim, me diziam isso, mesmo sem que as palavras fossem articuladas.

-                  Olha. Se te usaram, abusaram e te chutaram, tirando o que era seu de direito, foi porque você deixou pai. Você pensou que os outros eram sinceros,  pensavam e sentiam como você. Era teatro, puro teatro querido. Você julgou as pessoas através de si mesmo. Confiou e se deu sem desconfiar que era apenas útil, jamais considerado  como a pessoa que é.

Esta, com seus vinte e dois anos, era mais prática e incisiva do que jamais fui na vida.

Sim, eu tinha preparado duas mulheres para a vida de tal forma, que suplantavam o pouco que pensava ter preparado para  mim mesmo.

Disseram, com carinho e preocupação explícita, de minha incapacidade de descobrir motivos para continuar vivendo e, acima de tudo, encontrar razões para voltar a sorrir. Que me tornara amargo demais, para poder caber em mim e seguir em frente. Que não era justa minha insistência na prática de meu egoísmo zero, pois se não pensasse em mim, estaria encurtando meu tempo de permanência em nossa convivência.

Considerei muito, as coisas que ouvi de minhas filhas. Deduzi que, às vezes, filhos podem salvar a vida dos pais. E esse foi o caso. Pois naquele momento, decidi abandonar a errônea idéia de que poderia “salvar o mundo”.  Que o estresse no qual havia mergulhado, por conta da angústia de meus enganos de avaliação daqueles que me espoliaram, era algo do qual precisava fugir e recomeçar. Mais lúcido e confiante em mim mesmo. Buscar a normalidade perdida da pressão arterial bruscamente alterada, que me levava rapidamente a um infarto inevitável, nas palavras do cardiologista.

Poucas coisas doem tanto, quanto a queda de um sonhador para a realidade de um mundo que não admite mais a confiança, a boa-fé  e a honestidade nos relacionamentos. Lealdade, hoje, não é apenas uma palavra fora de moda, tornou-se ridícula. Pois o que antigamente era sinal de um caráter íntegro, virara defeito. Um aleijão social. Tornei-me assim, um deficiente emocional. Optara pela excelência do ser, em detrimento do ter. Errei feio.

Mas ao final daquele encontro sai redimido. Certo de que sempre é possível, recomeçar. Mesmo sendo difícil alterar um comportamento cultivado a vida toda, deveria ainda haver tempo para corrigir o rumo e olhar para outra direção. A direção onde se dirige o olhar da maioria das pessoas e a que mais odiei e combati em toda a minha vida: o próprio umbigo.

 
Joaquim Saturnino da Silva
 
Publiação: www.paralerepensar.com.br  - 03/08/2006