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Entrei na igreja vazia.
Sempre amei as igrejas assim, em seu
silêncio que embala a alma, sem olhares e conversas fora de contexto
para o local.
A luz do sol, filtrada pelos vitrais, era
belíssima. Os tons variados de suas cores davam um ar celestial
àquele instante.
De repente o silêncio foi quebrado pelo
ruído da porta. Por ela um menino, nove ou dez anos talvez, entrou e
passou pelo corredor parando defronte o altar.
Ele parecia não ter me visto, ou isso não
era importante para ele. Sua roupa era tão simples quanto surrada.
Seu andar tranqüilo, como se a pressa fosse algo estranho para ele,
levava-o como se navegasse no vento.
Então ele se ajoelhou. Ouvi sua voz ecoar
pela nave.
“Deus! Vim hoje aqui pra falar com Você,
sobre algumas coisas que estão me incomodando. Não quero pedir nada
para mim, porque o Senhor já me deu saúde e isso é muito bom. Mas é
que existem muitas outras crianças doentes, sem hospitais, médicos e
remédios. Papai me disse que isso deve melhorar, porque as eleições
estão próximas e, pelo menos nessas épocas existem socorro aos mais
carentes. Não entendo direito isso, mas pensava que esse socorro
devesse existir sempre. Então quero dizer: daria para o Senhor
providenciar um pouco do sentimento de bondade para o coração
daqueles que mandam nestas coisas aqui na Terra?
Sabe Deus, ontem fui ao enterro de um
amiguinho meu, que não teve socorro médico. Não gostei de ver tudo
aquilo. Dói muito dentro da gente, sabe? Vou esperar o Senhor fazer
alguma coisa. Obrigado. Um beijo! ”
Então ele se levantou, se benzeu, girou nos
calcanhares e começou a sair. Pude ver o reflexo das luzes coloridas
nas lágrimas escorridas pelo seu rosto quando passou por mim.
De pouquíssimas coisas tenho certeza nesta
vida, mas uma delas não me sai da cabeça: naquele momento eu havia
conhecido – pessoalmente – o Espírito do Natal!
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br - 16/12/2004
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