Jamais existirá uma mente realmente
brilhante, a menos que, mesmo instalada no cérebro, tenha
estreita ligação com o coração. Pois se a mente é capaz de
analisar, sem o coração ela se torna insensível. Incapaz de
identificar sentimentos ou de colocá-los a serviço da evolução
e não contra.
Numa revisita aos clássicos gregos, aos
filósofos da renascença e do iluminismo, o homem
contemporâneo, tendenciosamente, trata-os como simplórios ou
ingênuos. Mas eram, na verdade, portadores de um profundo amor
pela humanidade. Isso era o que os movia.
No entanto, ao praticarmos uma certa
(in)evolução, caímos na ilusão de que seguíamos adiante,
enquanto na verdade regredíamos em direção a tempos piores que
a pré-história. Pois é inconcebível que na idade da pedra
lascada, a morte fosse algo premeditado, como hodiernamente é.
Tudo se transformou, não se sabe por quê,
num imenso e perverso jogo, onde a lei está sempre favorecendo
o mais forte. Canetas tomaram o lugar dos machados de pedra.
A construção intelectual realizada pela
humanidade transformou-se em uma espécie de produto
descartável, atirado no imenso tambor de lixo da história.
Perdemos – a maioria – a capacidade de
distinguir a realidade das ilusões, as mentiras da verdade.
Sim, a singular verdade de que todo ato desprovido de amor (ou
vontade dele), atua em favor de algo contrário a uma
verdadeira evolução.
Os seres mais humanos de nosso planeta hoje
são os animais!
E por esta simples razão, tornaram-se as
primeiras vítimas preferidas do homem que, após destruí-los,
voltar-se-ão de vez, contra o restante dos povos. Isto já
acontece, mas é inevitável crer que, é apenas a pequena ponta
de um iceberg.
É através das ilusões, principalmente
aquela sobre o poder a qualquer preço, que o homem cresce na
sua iniqüidade e se afasta ainda mais, da capacidade de amar.
Navegamos em um oceano sombrio, composto
pela indiferença das mentes em relação aos sentimentos e do
sangue das vítimas.
No entanto, existe seres que ainda
acreditam que pode ser diferente. Gente capaz de entender e
admirar a diversidade. Pessoas que entendem a vida como algo
sagrado a ser preservado, cuidado com carinho. Mentes já
distantes das ilusões e mais próximas de seus corações, que
promovem movimentos de resgate nas mais variadas formas. Para
tais pessoas, criança é criança tanto nos EUA; na Europa; na
África e no Oriente Médio.
Podemos observar hoje as ONGS – criadas por
pessoas que venceram o fantasma da ilusão – quando entendem
todo o sucesso alcançado, toda imensa fortuna angariada, como
algo a ser compartilhado com aqueles que, sem esta chance, se
transformariam em algozes, a serem encontrados pelo caminho
amanhã.
Por esta razão, num rasgo imenso de
esperança, podemos observar que ela (a esperança), realmente,
só morre depois do homem.
Tais pessoas seguem a linha de pensamento
de Confúcio, não entregam os peixes, ensinam a pescar. Não
entendem a esmola como algo útil ou justo, mas como
instrumento de degradação maior que a condenação à miséria, à
morte, à ignorância.
A lição de que somos todos, parte de um
mesmo Todo, já vem sendo pregada há dezenas de séculos, no
entanto, por sua simplicidade e sua obviedade (daí a
eficiência), tornou-se – de certa forma – invisível, tal o
grau da ilusória complexidade da convivência social humana.
Amar o outro, em síntese, é a única forma
de – efetivamente – amar a si mesmo, tornando-se de forma
agradável, útil na construção de um caminho em direção à luz.
Pois como parte de um mesmo Todo e habitantes de um mesmo
planeta, qualquer ação fora do objetivo da verdadeira
conjugação do verbo amar será mero suicídio.
A expressão “homem sem coração” não é
vazia, nem meramente ilustrativa. Ela expressa a
inquestionável verdade de que os pensamentos precisam de um
aliado: os sentimentos. Só assim ela brilha!
E se não modificarmos os atos coletivos,
onde somente os piores sentimentos possuem acesso aos engenhos
da mente, o Todo poderá virar nada. Um só e único monte de
cinzas!
E cada um de nós estará lá. Quantidade de
cinzas medida em gramas.
Mas a beleza da esperança persiste, graças
às mentes iluminadas, que unidas aos corações, nos apontam
rumos diferentes. Ensinam-nos, mesmo que silenciosamente –
através da eficácia dos exemplos – que as ilusões são vazias e
que as escolhas devem ignorá-las.
Amar não é um exercício fácil, porém se o
fosse, jamais teria a menor graça!
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
17/07/2007