A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

Jogo das ilusões

 

Jamais existirá uma mente realmente brilhante, a menos que, mesmo instalada no cérebro, tenha estreita ligação com o coração. Pois se a mente é capaz de analisar, sem o coração ela se torna insensível. Incapaz de identificar sentimentos ou de colocá-los a serviço da evolução e não contra.

Numa revisita aos clássicos gregos, aos filósofos da renascença e do iluminismo, o homem contemporâneo, tendenciosamente, trata-os como simplórios ou ingênuos. Mas eram, na verdade, portadores de um profundo amor pela humanidade. Isso era o que os movia.

No entanto, ao praticarmos uma certa (in)evolução, caímos na ilusão de que seguíamos adiante, enquanto na verdade regredíamos em direção a tempos piores que a pré-história. Pois é inconcebível que na idade da pedra lascada, a morte fosse algo premeditado, como hodiernamente é.

Tudo se transformou, não se sabe por quê, num imenso e perverso jogo, onde a lei está sempre favorecendo o mais forte. Canetas tomaram o lugar dos machados de pedra.

A construção intelectual realizada pela humanidade transformou-se em uma espécie de produto descartável, atirado no imenso tambor de lixo da história.

Perdemos – a maioria – a capacidade de distinguir a realidade das ilusões, as mentiras da verdade. Sim, a singular verdade de que todo ato desprovido de amor (ou vontade dele), atua em favor de algo contrário a uma verdadeira evolução.

Os seres mais humanos de nosso planeta hoje são os animais!

E por esta simples razão, tornaram-se as primeiras vítimas preferidas do homem que, após destruí-los, voltar-se-ão de vez, contra o restante dos povos. Isto já acontece, mas é inevitável crer que, é apenas a pequena ponta de um iceberg.

É através das ilusões, principalmente aquela sobre o poder a qualquer preço, que o homem cresce na sua iniqüidade e se afasta ainda mais, da capacidade de amar.

Navegamos em um oceano sombrio, composto pela indiferença das mentes em relação aos sentimentos e do sangue das vítimas.

No entanto, existe seres que ainda acreditam que pode ser diferente. Gente capaz de entender e admirar a diversidade. Pessoas que entendem a vida como algo sagrado a ser preservado, cuidado com carinho. Mentes já distantes das ilusões e mais próximas de seus corações, que promovem movimentos de resgate nas mais variadas formas. Para tais pessoas, criança é criança tanto nos EUA; na Europa; na África e no Oriente Médio.

Podemos observar hoje as ONGS – criadas por pessoas que venceram o fantasma da ilusão – quando entendem todo o sucesso alcançado, toda imensa fortuna angariada, como algo a ser compartilhado com aqueles que, sem esta chance, se transformariam em algozes, a serem encontrados pelo caminho amanhã.

Por esta razão, num rasgo imenso de esperança, podemos observar que ela (a esperança), realmente, só morre depois do homem.

Tais pessoas seguem a linha de pensamento de Confúcio, não entregam os peixes, ensinam a pescar. Não entendem a esmola como algo útil ou justo, mas como instrumento de degradação maior que a condenação à miséria, à morte, à ignorância.

A lição de que somos todos, parte de um mesmo Todo, já vem sendo pregada há dezenas de séculos, no entanto, por sua simplicidade  e sua obviedade (daí a eficiência), tornou-se – de certa forma – invisível, tal o grau da ilusória complexidade da convivência social humana.

Amar o outro, em síntese, é a única forma de – efetivamente – amar a si mesmo, tornando-se de forma agradável, útil na construção de um caminho em direção à luz. Pois como parte de um mesmo Todo e habitantes de um mesmo planeta, qualquer ação fora do objetivo da verdadeira conjugação do verbo amar será mero suicídio.

A expressão “homem sem coração” não é vazia, nem meramente ilustrativa. Ela expressa a inquestionável verdade de que os pensamentos precisam de um aliado: os sentimentos. Só assim ela brilha!

E se não modificarmos os atos coletivos, onde somente os piores sentimentos possuem acesso aos engenhos da mente, o Todo poderá virar nada. Um só e único monte de cinzas!

E cada um de nós estará lá. Quantidade de cinzas medida em gramas.

Mas a beleza da esperança persiste, graças às mentes iluminadas, que unidas aos corações, nos apontam rumos diferentes. Ensinam-nos, mesmo que silenciosamente – através da eficácia dos exemplos – que as ilusões são vazias e que as escolhas devem ignorá-las.

Amar não é um exercício fácil, porém se o fosse, jamais teria a menor graça!

Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 17/07/2007