Creio na vida, como se fosse um
sonho construído pelos meus desejos. E em meus sonhos, vejo
seres imbuídos de uma intrínseca preocupação com outros seres,
seus iguais, existindo no mesmo mundo. Um lugar onde cada um
jamais se permitiria sorrir às custas de uma lágrima alheia.
Onde cada ferida teria mãos dedicadas à sua cura. E cada
sorriso fosse compartilhado, pois reina nesse mundo a certeza
de que ninguém nele seria capaz de ser feliz sozinho. E a
santidade dos palhaços sempre seria respeitada.
No mundo de meus sonhos, o egoísmo seria apenas uma
lápide em lembrança de algo extinto que jamais deveria voltar
a existir.
Creio na vida como uma espécie de “respiração do
Universo”, onde um sentimento o permeia como uma alma
inexplicável. E a este sentimento, por falta de nome melhor, o
designaríamos como amor.
Acredito que mãos dadas fazem mais do que mãos vazias
de mãos. Que a paz é apenas conseqüência do bem querer sem
quaisquer intenções.
A vida e um ser especial me ensinaram o desapego.
Assim aprendi que o desprendimento total nada mais é do que
aceitar a vida como ela vem, sem questionamentos estúpidos que
apenas servem para “matar o tempo”, que jamais temos o direito
de matar.
Aprendi que o brilho dos olhos das crianças possui
mais força do que toda a força que possamos juntar sob o
domínio da mesquinhez. Enfim, descobri que o tanto que nos
machuca o amor pela humanidade, é a medida exata do amor que
não negamos sentir.
O sol que me cobre é o mesmo que a todos cobre, sem
taxa especial, sem deferências específicas, pois a igualdade,
por mais que seja recusada, é um fato que nenhum humano jamais
conseguirá reverter. Esta é a extrema democracia da morte.
Descobri que a Justiça não é patrimônio do homem, ela
se realiza a despeito de vontades pequenas. Pois a caneta que
assassina é a mesma que envenena a mão que a empunha, como uma
espada da iniqüidade.
Vi que a Terra que nos fornece a matéria para nosso
corpo, é a mesma que nos recebe após o último hálito,
queiramos ou não. Pois a Natureza é paciente e sempre soube,
sabe e saberá que lhe prestaremos tributos em nosso último
momento.
Por isso, a cada um de nós cabe a tarefa de
defendê-la, por mais que isso pareça algo sem sentido diante
da abundância de suas dádivas. E se não entendermos o valor de
nosso presente representado por uma vida gratuita,
incomensurável será nossa dor no momento do despertar da
consciência.
E sei, sem que eu mesmo saiba
como, que o homem gera a própria dor na qual terminará seus
dias, ou o êxtase, se viveu por aqueles que de si estavam
próximos.
Enfim, aprendi que o abandono de
sentimentos pequenos é um poderoso antídoto que cessa a
metástase e aniquila o mal. Pois são estes sentimentos, que
tomam o lugar da saúde e fazem com que pereça a vida.
Simples assim.
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
06/11/2006