A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

METÁSTASE

 

       Creio na vida, como se fosse um sonho construído pelos meus desejos. E em meus sonhos, vejo  seres imbuídos de uma intrínseca preocupação com outros seres, seus iguais, existindo no mesmo mundo. Um lugar onde cada um jamais se permitiria sorrir às custas de uma lágrima alheia. Onde cada ferida teria mãos dedicadas à sua cura. E cada sorriso fosse compartilhado, pois reina nesse mundo a certeza de que ninguém nele seria capaz de ser feliz sozinho. E a santidade dos palhaços sempre seria respeitada.

No mundo de meus sonhos, o egoísmo seria apenas uma lápide em lembrança de algo extinto que jamais deveria voltar a existir.

Creio na vida como uma espécie de “respiração do Universo”, onde um sentimento o permeia como uma alma inexplicável. E a este sentimento, por falta de nome melhor, o designaríamos como  amor.

Acredito que mãos dadas fazem mais do que mãos vazias de mãos. Que a paz é apenas conseqüência do bem querer sem quaisquer intenções.

A vida e um ser especial me ensinaram o desapego. Assim aprendi que o desprendimento total nada mais é do que aceitar a vida como ela vem, sem questionamentos estúpidos que apenas servem para “matar o tempo”, que jamais temos o direito de matar.

Aprendi que o brilho dos olhos das crianças possui mais força do que toda a força que possamos juntar sob o domínio da mesquinhez. Enfim, descobri que o tanto que nos machuca o amor pela humanidade, é a medida exata do amor que não negamos sentir.

O sol que me cobre é o mesmo que a todos cobre, sem taxa especial, sem deferências específicas, pois a igualdade, por mais que seja recusada, é um fato que nenhum humano jamais conseguirá reverter. Esta é a extrema democracia da morte.

Descobri que a Justiça não é patrimônio do homem, ela se realiza a despeito de vontades pequenas. Pois a caneta que assassina é a mesma que envenena a mão que a empunha, como uma espada da iniqüidade.

Vi que a Terra que nos fornece a matéria para nosso corpo, é a mesma que nos recebe após o último hálito, queiramos ou não. Pois a Natureza é paciente e sempre soube, sabe e saberá que lhe prestaremos tributos em nosso último momento.

Por isso, a cada um de nós cabe a tarefa de defendê-la, por mais que isso pareça algo sem sentido diante da abundância de suas dádivas. E se não entendermos o valor de nosso presente representado por uma vida gratuita, incomensurável será nossa dor no momento do despertar da consciência.

E sei, sem que eu mesmo saiba como, que o homem gera a própria dor na qual terminará seus dias, ou o êxtase, se viveu por aqueles que de si estavam próximos.

Enfim, aprendi que o abandono de sentimentos pequenos é um poderoso antídoto que cessa a metástase e aniquila o mal. Pois são estes sentimentos, que tomam o lugar da saúde e fazem com que pereça a vida.

Simples assim.

Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 06/11/2006