A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

O IMPOSSÍVEL DISPENSA RAZÕES

 

            Quando vi seus olhos pela primeira vez, jamais imaginava que era tudo que sempre desejei olhar, pelo resto de minha vida. Assim, embevecido pelo sonho de um futuro luminoso, caminhei feliz por algum tempo, até o momento de descobrir que não seria desta vez que meu sonho se realizaria. Que a felicidade seria, enfim, alcançada. Que meu sonho permaneceria sonho, nada mais.

Então chegou o tempo em que, como um maestro, movimentando sua batuta, determinando o ritmo dos sons de minha vida, o tempo me deu a solidão.

Mas nunca foi uma solidão comum, mas cheia de ruídos e pessoas ao redor que, ao invés de me fazer sentir acompanhado, mais só me tornava. Então aceitei essa solidão de meu silêncio existencial, sem lamentos.

E isto não é um exercício de autopiedade. Odeio isso. Minha dor merece ser algo maior, ou melhor. E embora poucos possam percebê-la, ela segue regendo meus passos como o “maestro tempo”. E aos que não a consigam compreender, desejo que, ao menos a respeitem. Pois ela não está, afinal, em exposição.

Assim, de tic tac em tic tac, meus cabelos embranquecem. Vejo o sol dar uma meia volta sobre minha cabeça todos os dias. Como se tudo fosse apenas uma espera. Uma longa e estranha espera de algo que, parece, jamais saberei o que seja. Ou saiba, mas mascarando essa  verdade como o mundo faz, continuo me enganando, como toda a humanidade faz.. 

Um grande momento mágico chegou e passou e, talvez, seja essa a verdade que teimo em ignorar premeditadamente.

Hoje o mundo eletrônico imita o cérebro humano, como se fosse o cérebro da Terra. É onde me encontro neste momento. Um ser virtual, uma fraude a mais na imensa fraude social dos quatro cantos da Terra. Mundo onde o homem finge ser social, quando na verdade e tão somente egoísta. Todas as loucuras estão expostas, para todos que as conseguem observar.

Mas o que existe que o amor não perdoa?

Até meus delírios estão antecipadamente perdoados, pois os loucos se tornam uma espécie de santos, perpetuando a heresia dominante.

Talvez a impossibilidade da realização do maior desejo seja a única realidade, afinal. Ou, quem sabe, o desapego forçado pelas circunstâncias dos desencontros. Ou ainda, seriam encontros tardios?

Como perdoar um sonho que se realiza pela metade?

Talvez seja a espera de algo que jamais acontecerá o que mais dói, ou insensibiliza bizarramente meus dias!

Assim, por falta de opções passíveis de realização, passei a amar aquilo que chamei de “noites de pensar”.  Momentos no escuro de mim mesmo, na espera infindável de uma vontade que agoniza no peito, como se não houvesse outro jeito, de colocar um pé após o outro, formando passos sem destino. Um esforço não justificado, pois tudo é incerto.

Nestas minhas noites de pensar, namoro a lua. Delicio-me com o brilho de estrelas que talvez nem existam mais, como o amor de meus delírios, me trazendo luzes do passado. Assisto o sol nascer muitas vezes, como a dizer que tenho passado dias e mais dias nesta estranha sobrevivência, sem a menor utilidade.

Como é longa uma vida de espera!  Ou seria espera pela vida?

            Mas, como diz a velha (e irônica) sabedoria popular: enquanto existe vida, existe esperança!

            Espero, por fim, que a esperança possua justificativas para sua irritante teimosia.

Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 01/12/2006