Quando vi seus olhos pela
primeira vez, jamais imaginava que era tudo que sempre desejei
olhar, pelo resto de minha vida. Assim, embevecido pelo sonho
de um futuro luminoso, caminhei feliz por algum tempo, até o
momento de descobrir que não seria desta vez que meu sonho se
realizaria. Que a felicidade seria, enfim, alcançada. Que meu
sonho permaneceria sonho, nada mais.
Então chegou o tempo em que, como um maestro, movimentando sua
batuta, determinando o ritmo dos sons de minha vida, o tempo
me deu a solidão.
Mas nunca foi uma solidão comum, mas cheia de ruídos e pessoas
ao redor que, ao invés de me fazer sentir acompanhado, mais só
me tornava. Então aceitei essa solidão de meu silêncio
existencial, sem lamentos.
E isto não é um exercício de autopiedade. Odeio isso. Minha
dor merece ser algo maior, ou melhor. E embora poucos possam
percebê-la, ela segue regendo meus passos como o “maestro
tempo”. E aos que não a consigam compreender, desejo que, ao
menos a respeitem. Pois ela não está, afinal, em exposição.
Assim, de tic tac
em tic tac, meus cabelos embranquecem. Vejo o sol dar uma meia
volta sobre minha cabeça todos os dias. Como se tudo fosse
apenas uma espera. Uma longa e estranha espera de algo que,
parece, jamais saberei o que seja. Ou saiba, mas mascarando
essa verdade como o mundo faz, continuo me enganando, como
toda a humanidade faz..
Um grande
momento mágico chegou e passou e, talvez, seja essa a verdade
que teimo em ignorar premeditadamente.
Hoje o mundo eletrônico imita o cérebro humano, como se fosse
o cérebro da Terra. É onde me encontro neste momento. Um ser
virtual, uma fraude a mais na imensa fraude social dos quatro
cantos da Terra. Mundo onde o homem finge ser social, quando
na verdade e tão somente egoísta. Todas as loucuras estão
expostas, para todos que as conseguem observar.
Mas o que existe que o amor não perdoa?
Até meus delírios estão antecipadamente perdoados, pois os
loucos se tornam uma espécie de santos, perpetuando a heresia
dominante.
Talvez a impossibilidade da realização do maior desejo seja a
única realidade, afinal. Ou, quem sabe, o desapego forçado
pelas circunstâncias dos desencontros. Ou ainda, seriam
encontros tardios?
Como perdoar um sonho que se realiza pela metade?
Talvez seja a espera de algo que jamais acontecerá o que mais
dói, ou insensibiliza bizarramente meus dias!
Assim, por falta de opções passíveis de realização, passei a
amar aquilo que chamei de “noites de pensar”. Momentos no
escuro de mim mesmo, na espera infindável de uma vontade que
agoniza no peito, como se não houvesse outro jeito, de colocar
um pé após o outro, formando passos sem destino. Um esforço
não justificado, pois tudo é incerto.
Nestas minhas noites de pensar, namoro a lua. Delicio-me com o
brilho de estrelas que talvez nem existam mais, como o amor de
meus delírios, me trazendo luzes do passado. Assisto o sol
nascer muitas vezes, como a dizer que tenho passado dias e
mais dias nesta estranha sobrevivência, sem a menor utilidade.
Como é longa uma vida de espera! Ou seria espera pela vida?
Mas, como diz a velha (e irônica) sabedoria popular: enquanto
existe vida, existe esperança!
Espero, por fim, que a esperança possua justificativas para
sua irritante teimosia.
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
01/12/2006