A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

Paralelo indesejável

 

Sei que incorro, neste ato temerário, de receber mais pedras do que possa suportar. Mas calar – está claro – não é mais um procedimento ético nesta vida deturpada, onde tudo é o que seja conveniente ser.

Este paralelo – aqui mal traçado – pode parecer inconveniente, esdrúxulo, mal articulado, mas é o grito da despedida de um sonho.

Antecipo meus pedidos de perdão aos colegas que discordam desta  decência desesperada, na busca de uma luz que me faça voltar a acreditar que nosso direito é direito de fato.

Comparo aqui – perdoem-me novamente – nossas prerrogativas ao infame Foro Privilegiado. Pressinto que são ambos – em certos momentos – filhos da mesma mãe. Irmãos portanto.  E o nome dela sempre será impunidade.

Não que devessem ser como se apresentam e agem, pois é mesmo isso que causa vergonha e nos faz sair pela tangente, escondendo num evento social, nossa profissão.

A deturpação de tudo parece ser a regra hoje em dia. E quando somos honestos e éticos em nosso comportamento, recebemos a pecha de “aberrações”. Advogado honesto?  Isso não existe!

Poucas coisas me doeram tanto quanto ouvir isso. Vi perdida toda minha dedicação de cinco anos na graduação e dois anos na pós–graduação.

Para quê?

Essa pergunta me persegue. Pois se afastar do maior sonho de nossa vida não é algo fácil. No entanto, diante do descalabro no qual se tornou nosso País, a única solução é a retirada.

Começar de novo. Ainda bem que, apesar da idade, persiste a vontade.

Desejo insondável de fazer valer a esperança.

Superar as trapaças – quando alguém leva celulares para presidiários cometerem crimes de seqüestro de dentro de suas prisões e governar seu “império”, sem falar em coisas piores, em nome das prerrogativas.

Não há como não comparar isso ao Foro Privilegiado, onde bandidos, enganando o povo, atingem o status de “eleitos” e, portanto, tornando-se imunes à lei comum aos cidadãos obrigados a observá-las.

Ética, foi a palavra mágica que nos manteve na faculdade, lutando contra o cansaço e o sono após estafantes dias de trabalho, por longos cinco anos.

Mas ela está morrendo!

 Entrou no processo de falência múltipla dos órgãos. Mal sobrevive no balão de oxigênio da vergonha. É questão de tempo apenas e será como as leis “contornáveis” de nosso falido sistema jurídico: letra morta.

  Enquanto isso, um  “limbo” judicial consome o tempo entre iniciais e sentenças transitadas em julgado que, quando chegam, quase sempre, só servirão como enfeite para a sepultura daquele que, quase sempre, detinha a razão na demanda.

Procrastinação. Essa é a palavra que substitui o famoso “ganhar tempo”, em detrimento da Justiça. Que importa a Justiça afinal, se o mais importante sempre será a conta bancária de uns e de outros? 

Voltando ao início: Foro Privilegiado, deveria ser apenas para aqueles que, da tribuna, defendam direitos comuns, uma imunidade para defesa de idéias, não para defesa de crimes.

As prerrogativas, deveriam seguir a mesma linha, defender qualquer um, respeitando seu sagrado direito de ampla defesa, jamais imunidade para cometer crimes, de forma análoga a nossos “nobres” parlamentares, em todos os níveis.

Não é só no reino da Dinamarca que existe algo de podre, como diria Sheakspeare, aqui também existe algo de podre: quase tudo.

A “indústria das desculpas” é mais válida que os fatos. A esperteza é mais eficiente que a honestidade. As palavras são mais elásticas que seu real significado. Um ponto ou uma vírgula bem colocados em prol da mentira, ganha da verdade.

Preciosismos imbecis são mais valiosos que vidas. E o certo, o correto, num instante, podem se transformar num erro insanável.

E pensar que tudo isso foi criado para proteger o direito, a verdade e a Justiça!

 
Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 04/08/2007