Sei que incorro, neste
ato temerário, de receber mais pedras do que possa suportar.
Mas calar – está claro – não é mais um procedimento ético
nesta vida deturpada, onde tudo é o que seja conveniente ser.
Este paralelo – aqui
mal traçado – pode parecer inconveniente, esdrúxulo, mal
articulado, mas é o grito da despedida de um sonho.
Antecipo meus pedidos
de perdão aos colegas que discordam desta decência
desesperada, na busca de uma luz que me faça voltar a
acreditar que nosso direito é direito de fato.
Comparo aqui –
perdoem-me novamente – nossas prerrogativas ao infame Foro
Privilegiado. Pressinto que são ambos – em certos momentos –
filhos da mesma mãe. Irmãos portanto. E o nome dela sempre
será impunidade.
Não que devessem ser
como se apresentam e agem, pois é mesmo isso que causa
vergonha e nos faz sair pela tangente, escondendo num evento
social, nossa profissão.
A deturpação de tudo
parece ser a regra hoje em dia. E quando somos honestos e
éticos em nosso comportamento, recebemos a pecha de
“aberrações”. Advogado honesto? Isso não existe!
Poucas coisas me
doeram tanto quanto ouvir isso. Vi perdida toda minha
dedicação de cinco anos na graduação e dois anos na
pós–graduação.
Para quê?
Essa pergunta me
persegue. Pois se afastar do maior sonho de nossa vida não é
algo fácil. No entanto, diante do descalabro no qual se tornou
nosso País, a única solução é a retirada.
Começar de novo. Ainda
bem que, apesar da idade, persiste a vontade.
Desejo insondável de
fazer valer a esperança.
Superar as trapaças –
quando alguém leva celulares para presidiários cometerem
crimes de seqüestro de dentro de suas prisões e governar seu
“império”, sem falar em coisas piores, em nome das
prerrogativas.
Não há como não
comparar isso ao Foro Privilegiado, onde bandidos, enganando o
povo, atingem o status de “eleitos” e, portanto, tornando-se
imunes à lei comum aos cidadãos obrigados a observá-las.
Ética, foi a palavra
mágica que nos manteve na faculdade, lutando contra o cansaço
e o sono após estafantes dias de trabalho, por longos cinco
anos.
Mas ela está morrendo!
Entrou no processo de
falência múltipla dos órgãos. Mal sobrevive no balão de
oxigênio da vergonha. É questão de tempo apenas e será como as
leis “contornáveis” de nosso falido sistema jurídico: letra
morta.
Enquanto isso, um
“limbo” judicial consome o tempo entre iniciais e sentenças
transitadas em julgado que, quando chegam, quase sempre, só
servirão como enfeite para a sepultura daquele que, quase
sempre, detinha a razão na demanda.
Procrastinação. Essa é
a palavra que substitui o famoso “ganhar tempo”, em detrimento
da Justiça. Que importa a Justiça afinal, se o mais importante
sempre será a conta bancária de uns e de outros?
Voltando ao início:
Foro Privilegiado, deveria ser apenas para aqueles que, da
tribuna, defendam direitos comuns, uma imunidade para defesa
de idéias, não para defesa de crimes.
As prerrogativas,
deveriam seguir a mesma linha, defender qualquer um,
respeitando seu sagrado direito de ampla defesa, jamais
imunidade para cometer crimes, de forma análoga a nossos
“nobres” parlamentares, em todos os níveis.
Não é só no reino da
Dinamarca que existe algo de podre, como diria Sheakspeare,
aqui também existe algo de podre: quase tudo.
A “indústria das
desculpas” é mais válida que os fatos. A esperteza é mais
eficiente que a honestidade. As palavras são mais elásticas
que seu real significado. Um ponto ou uma vírgula bem
colocados em prol da mentira, ganha da verdade.
Preciosismos imbecis
são mais valiosos que vidas. E o certo, o correto, num
instante, podem se transformar num erro insanável.
E pensar que tudo isso
foi criado para proteger o direito, a verdade e a Justiça!
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
04/08/2007