Quando fui criança ri. Ria
muito. Tudo era belo, encantado e cheio de graça.
Mas com o tempo o riso foi se
apagando. Perdi-me de mim e passei à ingrata tarefa da procura
por algo que não sabia o que era.
Pessoas que amo se foram sem
despedidas.
Senti-me roubado pelas imensas
perdas que o tempo me entregou, sem prévio aviso ou sequer uma
ligeira pista da iminência dos eventos.
É verdade que a incompreensão
de certos fatos nos machuca muito, mas não nascemos com um
baralho tarô e suas instruções na “ponta da língua”. Em
determinados momentos, é como estar cego apesar de toda luz no
entorno.
Um dia, no entanto, algo
dentro de mim falou para mim mesmo: “imagine que você é uma
lâmpada. Quando está acesa a lâmpada, você está acordado.
Quando apagada, você está dormindo e se queimada a lâmpada,
você estará morto!”
A estranha voz interna, que eu
não tinha a menor idéia de onde vinha continuou: “você tem se
enganado o tempo todo, pensando que é a lâmpada, mas na
verdade você é a energia. Essa é a ilusão que te consome e
apagou o seu belo sorriso de menino”.
Assustado, formulei
mentalmente uma pergunta: quem é você?
- Energia!
A resposta veio assim, numa
única palavra.
Se estivesse dormindo, ao
acordar teria imaginado ser apenas um sonho maluco, como
malucos são quase todos os sonhos. Mas não. Estava acordado e
me julgava lúcido.
Mas a voz continuou: “você não
é a lâmpada, pois mesmo quando ela se queimar, você continuará
vivo, ou seja, seu corpo não é você. Ele é como um táxi que
você apanha para breve viagem e depois descarta”.
Não era algo incomum meu
questionamento sobre minha lucidez, mas desta vez bati meu
recorde.
Foi me dito que,
oportunamente, receberia mais informações sobre o assunto e
que cada fato tem seu momento, sem pressa, pois o infinito é
um perfeito círculo como um brinquedo de roda infantil. E tal
como na infância, a vida deve ser rica em alegria e
extremamente pobre em tristeza.
Tive assim que controlar minha
ansiedade trazida nos braços da curiosidade, pois me senti,
novamente, como o menino que sobre tudo perguntava, quase
deixando loucos meus pais, mas que o tempo levou deixando só a
saudade.
Mas voltei a sorrir, enfim.
Pois toda loucura traz consigo sua inocência!
Algo me diz, no entanto, que
não sou apenas uma lâmpada, afinal!!!
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
14/04/2007