A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

QUANDO RECOMECEI A SORRIR

 

   Quando fui criança ri. Ria muito. Tudo era belo, encantado e cheio de graça.

   Mas com o tempo o riso foi se apagando. Perdi-me de mim e passei à ingrata tarefa da procura por  algo que não sabia o que era.

   Pessoas que amo se foram sem despedidas.

   Senti-me roubado pelas imensas perdas que o tempo me entregou, sem prévio aviso ou sequer uma ligeira pista da iminência dos eventos.

   É verdade que a incompreensão de certos fatos nos machuca muito, mas não nascemos com um baralho tarô e suas instruções na “ponta da língua”. Em determinados momentos, é como estar cego apesar de toda luz no entorno.

   Um dia, no entanto, algo dentro de mim falou para mim mesmo: “imagine que você é uma lâmpada. Quando está acesa a lâmpada, você está acordado. Quando apagada, você está dormindo e se queimada a lâmpada, você estará morto!”

   A estranha voz interna, que eu não tinha a menor idéia de onde vinha continuou: “você tem se enganado o tempo todo, pensando que é a lâmpada, mas na verdade você é a energia. Essa é a ilusão que te consome e apagou o seu belo sorriso de menino”.

   Assustado, formulei mentalmente uma pergunta: quem é você?

   - Energia!

   A resposta veio assim, numa única palavra.

   Se estivesse dormindo, ao acordar teria imaginado ser apenas um sonho maluco, como malucos são quase todos os sonhos. Mas não. Estava acordado e me julgava lúcido.

   Mas a voz continuou: “você não é a lâmpada, pois mesmo quando ela se queimar, você continuará vivo, ou seja, seu corpo não é você. Ele é como um táxi que você apanha para breve viagem e depois descarta”.

   Não era algo incomum meu questionamento sobre minha lucidez, mas desta vez bati meu recorde.

   Foi me dito que, oportunamente, receberia mais informações sobre o assunto e que cada fato tem seu momento, sem pressa, pois o infinito é um perfeito círculo como um brinquedo de roda infantil.  E tal como na infância, a vida deve ser rica em alegria e extremamente pobre em tristeza.

   Tive assim que controlar minha ansiedade trazida nos braços da curiosidade,  pois me senti, novamente, como o menino que sobre tudo perguntava, quase deixando loucos meus pais, mas que o tempo levou deixando só a saudade.

   Mas voltei a sorrir, enfim. Pois toda loucura traz consigo sua inocência!

   Algo me diz, no entanto,  que não sou apenas uma lâmpada, afinal!!!

Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 14/04/2007