A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

RECADO PARA UM LADRÃO

 

Sabe?

Tenho feito um esforço enorme para sentir algo ruim por você, quando descobri que havias me roubado,  usurpando direito numa tentativa vã de atirar minha alma no lixo.

Não consegui sentir nada que, com certeza, me faria muito mal. Senti apenas pena pelas penas que poderás ter de cumprir, ainda nesta vida, por todos aqueles que vens espoliando vida afora.

Mas a culpa é minha. Candidatei-me a vítima de sua voraz ganância, quando vi como amigo um predador voraz. Porque confiei em quem jamais mereceu confiança. Este é o preço de agir de boa-fé com pessoas de má-fé. E tem sido sempre assim, aqueles que são sinceros sempre perdem para os dissimulados, durante algum tempo, porém, jamais para sempre.

E é curioso como ficamos cegos em relação àqueles a quem amamos e respeitamos, no gesto maior da amizade, sem jamais imaginar que estamos sendo, simplesmente, inocentes úteis durante o tempo necessário.

Algo em meu modo de ser, me proíbe descer para o nível dos sentimentos ruins, não os quero. Há muito que os bani de meu coração. Mesmo porque sei que aquilo que me foi roubado retornará para mim pelo meu trabalho, porque a justiça poética é infalível. Nem conto com a justiça humana, pois sempre soubeste muito bem como comprá-la.

Hoje me sinto imensamente feliz por me ver livre de você. Posso me deitar e dormir em paz, pois nunca fiz o que fizeste com tanta freqüência nesta vida. Não piso degraus feitos com ossos de minhas vítimas. Não as tenho, ainda bem!

Só uma coisa não entendo direito ainda. Como podes falar tão bem a respeito de assuntos transcendentais e ser tão terra, chão, barro, lama enfim? É tudo fingimento para enganar as pessoas de boa fé?

A resposta afirmativa para a segunda pergunta, foi a única que encontrei. Mas espero que um dia a vida me mostre que estou errado.

Que possas ter alguma parcela de dignidade humana, ou algum sentimento que não seja destrutivo. Que o amor pelo dinheiro apenas, deixe um espaço para alguma pequena parcela de respeito pelo ser humano.

E se, enfim puderes, daqui há muitos anos, levar toda essa fortuna angariada com o trabalho alheio mal remunerado para a sepultura, talvez então seja feliz de verdade. Porque enfim, cada um é aquilo que acredita ser.

Pode parecer que haja rancor nestas palavras. Mas não se engane. Procure tentar entender que existem pessoas que preferem o desapego, ao veneno da culpa bem dissimulada, no engano a si mesmo.

E nunca se esqueça que, na história toda, o credor sou eu. E tenho me perguntado porque conheci uma pessoa como você. Mas a resposta começa a se formar no horizonte de minha aventura pessoal: foste apenas mais um teste para minar minha perseverança, que falhou. Mais uma lição de como funciona a perversidade da alma humana.

Mas a notícia, para você, não é boa: sou teimoso e sempre terei a coragem de confiar nas pessoas, na proporção inversa da sua total desconfiança no ser humano.

Sinto muito.  Você fracassou!

E simplesmente porque, afinal, Deus sempre protege as crianças. 

Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 03/08/2006