Sabe?
Tenho feito um
esforço enorme para sentir algo ruim por você, quando descobri
que havias me roubado, usurpando direito numa tentativa vã de
atirar minha alma no lixo.
Não consegui
sentir nada que, com certeza, me faria muito mal. Senti apenas
pena pelas penas que poderás ter de cumprir, ainda nesta vida,
por todos aqueles que vens espoliando vida afora.
Mas a culpa é
minha. Candidatei-me a vítima de sua voraz ganância, quando vi
como amigo um predador voraz. Porque confiei em quem jamais
mereceu confiança. Este é o preço de agir de boa-fé com
pessoas de má-fé. E tem sido sempre assim, aqueles que são
sinceros sempre perdem para os dissimulados, durante algum
tempo, porém, jamais para sempre.
E é curioso como
ficamos cegos em relação àqueles a quem amamos e respeitamos,
no gesto maior da amizade, sem jamais imaginar que estamos
sendo, simplesmente, inocentes úteis durante o tempo
necessário.
Algo em meu modo
de ser, me proíbe descer para o nível dos sentimentos ruins,
não os quero. Há muito que os bani de meu coração. Mesmo
porque sei que aquilo que me foi roubado retornará para mim
pelo meu trabalho, porque a justiça poética é infalível. Nem
conto com a justiça humana, pois sempre soubeste muito bem
como comprá-la.
Hoje me sinto
imensamente feliz por me ver livre de você. Posso me deitar e
dormir em paz, pois nunca fiz o que fizeste com tanta
freqüência nesta vida. Não piso degraus feitos com ossos de
minhas vítimas. Não as tenho, ainda bem!
Só uma coisa não
entendo direito ainda. Como podes falar tão bem a respeito de
assuntos transcendentais e ser tão terra, chão, barro, lama
enfim? É tudo fingimento para enganar as pessoas de boa fé?
A resposta
afirmativa para a segunda pergunta, foi a única que encontrei.
Mas espero que um dia a vida me mostre que estou errado.
Que possas ter
alguma parcela de dignidade humana, ou algum sentimento que
não seja destrutivo. Que o amor pelo dinheiro apenas, deixe um
espaço para alguma pequena parcela de respeito pelo ser
humano.
E se, enfim
puderes, daqui há muitos anos, levar toda essa fortuna
angariada com o trabalho alheio mal remunerado para a
sepultura, talvez então seja feliz de verdade. Porque enfim,
cada um é aquilo que acredita ser.
Pode parecer que
haja rancor nestas palavras. Mas não se engane. Procure tentar
entender que existem pessoas que preferem o desapego, ao
veneno da culpa bem dissimulada, no engano a si mesmo.
E nunca se
esqueça que, na história toda, o credor sou eu. E tenho me
perguntado porque conheci uma pessoa como você. Mas a resposta
começa a se formar no horizonte de minha aventura pessoal:
foste apenas mais um teste para minar minha perseverança, que
falhou. Mais uma lição de como funciona a perversidade da alma
humana.
Mas a notícia,
para você, não é boa: sou teimoso e sempre terei a coragem de
confiar nas pessoas, na proporção inversa da sua total
desconfiança no ser humano.
Sinto muito.
Você fracassou!
E simplesmente
porque, afinal, Deus sempre protege as crianças.
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
03/08/2006